A OUTRA FACE

(THE NAKED FACE)

Escrito por Sidney Sheldon, em 1970.
18 Edio.


A Outra face

Sinopse

Histria de crime, mistrio e suspense envolvendo personagens da alta
sociedade e membro da Cosa Nostra. Vrias mortes ocorrem prximas ao
psicanalista Judd Stevens e ele busca a verdade que estranhamente pode incrimin-lo. .. ..


Colaboradores da Arca Literria : Luiza Pinter (luizapinter@yahoo.com.br



Judd Stevens  um psicanalista que subitamente se torna vtima de uma estranha conspirao.
Vrios crimes ocorrem ao seu redor e ele suspeita de que seja ele prprio o verdadeiro autor dos assassinatos. Mas seria essa a verdade ou ele estaria comeando
a sofrer de parania, matando as vtimas em momentos de privao de sentidos?
O que quer que fosse, Judd Stevens tinha que encontrar a verdade. Em si mesmo ou nos
outros.
Estaria a verdade em John Hanson, um homem casado, pai de trs filhos, dominado por uma 
invencvel compulso para o homossexualismo? 
Estaria a verdade em Teri Washburn, outrora grande estrela de Hollywood, ninfomanaca que 
ocultava um crime terrvel em seu passado?
E o que dizer de Anne Blake, jovem, meiga e linda paciente por quem Judd Stevens se 
apaixonara, mas sobre a qual quase nada sabia?
Talvez a verdade fosse encontrada em Harrison Burke, paranico com tendncias homicidas, 
vice-presidente de uma poderosa empresa de mbito internacional.
E quem seriam os misteriosos assassinos? Amadores? Profissionais? Gente da Costa Nostra?
Em busca da verdade Judd Stevens enfrenta todos os perigos, num crescendo de emoo que 
s o autor como Sidney Sheldon nos poderia proporcionar.






HOMENAGEM

as mulheres da minha vida:
Jorja, Mary e Natalie

        
        


        

















Captulo 1

Faltavam dez minutos para as onze horas da manh quando o cu explodiu numa chuva de 
confeites brancos, que rapidamente estendeu uma mortalha branca sobre a cidade. A neve macia se esparramou pelas ruas j congeladas de Manhattam, cobrindo-as com 
um lenol acinzentado. O vento frio de dezembro fustigou os que faziam as compras de Natal, obrigando-os a procurar refgio em suas casas e apartamentos.
Em Lexington Avenue, um homem alto e magro, metido numa capa de chuva amarela, 
deslocava-se no meio da apressada multido de Natal, mas num ritmo prprio. Ele caminhava 
rapidamente, mas seus passos no eram frenticos como os dos outros transeuntes, que procuravam escapar ao frio. Estava com a cabea levantada e parecia alheio s 
outras pessoas, que volta e meia nele esbarravam. Estava livre depois de uma vida de  purgatrio, e ia para casa, para dizer a Mary que tudo acabara. O passado ia 
enterrar seus mortos e o futuro era brilhante e promissor. E ele pensava no rosto de Mary, radiante quando ele lhe contasse as boas-novas. Ao chegar  esquina da 
Rua 59, o sinal mudou para vermelho e ele parou, com a multido impaciente. A poucos passos estava um Papai Noel do Exrcito da Salvao, junto a um enorme caldeiro. 
O homem meteu a mo no bolso para pegar algumas moedas e ofert-las aos deuses da sorte. Nesse mesmo instante algum bateu-lhe nas costas, um golpe sbito e doloroso, 
que se espalhou por todo o seu corpo. Era algum bbado de Natal excessivamente entusiasmado, procurando demonstrar a sua cordialidade para com o mundo.
Ou ento Bruce Boyde, que nunca compreendera a fora que tinha e jamais perdera o hbito 
infantil de mago-lo fisicamente. Mas ele no via Bruce h mais de um ano. O homem alto e magro tentou virar a cabea para ver quem lhe batera nas costas. Foi nesse 
momento que percebeu, espantado, que seus joelhos estavam comeando a se dobrar. Em cmara lenta, como se estivesse a observar a si prprio  distncia, ele viu 
seu corpo cair na calada. A dor nas costas era intensa e se irradiava pelo resto do corpo. Ele comeou a sentir dificuldade em respirar. Diante do seu rosto havia 
um desfile de sapatos, que pareciam animados por uma vida prpria. Comeou a sentir o rosto entorpecido pelo frio da calada. Sabia que no deveria ficar ali deitado. 
Abriu a boca para pedir a algum que o ajudasse, e uma torrente quente e vermelha por ela escorreu, misturando-se com a neve semiderretida. Ele ficou observando, 
fascinado e aturdido, o rio vermelho avanar pela calada e desaparecer na sarjeta. A dor estava pior agora, mas ele no lhe deu a menor importncia, ao se recordar 
subitamente da boa notcia que levava para Mary. Ele estava livre. E ia dizer a Mary que estava livre. Fechou os olhos, contra a brancura ofuscante do cu. A neve 
comeou a se transformar em granizo, mas ele no o mais podia sentir coisa alguma.


Captulo 2

Carol Robert ouviu a porta da sala de recepo abrir e fechar e os homens entrarem. E antes 
mesmo de levantar os olhos j sabia o que eles eram. Eram dois. Um tinha quarenta e poucos anos e era grande, com mais de 1,90 metros, muito forte. A cabea era 
imensa, com olhos azuis fundos e glaciais, a boca contrada numa expresso de cansao e sem qualquer cordialidade. O outro era mais jovem. Tinha feies delicadas 
e sensveis, olhos castanhos e alertas. Os dois pareciam completamente diferentes, mas para Carol era como se fossem gmeos idnticos.
Eram tiras. Era a isso que cheiravam. Quando se aproximaram de sua mesa, Carol sentiu 
gotas de suor escorrerem por suas axilas, apesar do escudo antitranspirante. Freneticamente, sua mente rebuscou todas as reas traioeiras em que era vulnervel. 
"Chick? Oh, no, h mais de seis meses que ele no se metia em encrencas"! Desde aquela noite no apartamento dele, quando Chick a pedira em casamento e prometera 
largar a quadrilha.
"Sammy? Ele estava no exterior, na Fora Area. Se algo tivesse acontecido ao seu irmo", 
no mandariam dois tiras  levar-lhe a notcia. no, eles tinham vindo at ali  para agarr-la ". Ela tinha erva na bolsa e um miservel a denunciara. Mas porqu 
dois? Carol disse a si mesma que eles no podiam peg-la assim, sem mais nem menos. Ela no era mais uma garota negra do Harlem que os tiras prenderiam quando bem 
desejassem. Isso pertencia ao passado. Ela era agora a recepcionista de um dos maiores psicanalistas do pas. Mas entrou em pnico. no perdera ainda a lembrana 
terrvel dos muitos anos que passara escondendo-se em casas de cmodos fedorentos e apinhadas, enquanto a Lei dos brancos arrombava a porta e levava um pai, uma 
irm ou um primo.
Mas Carol no deixou que a perturbao que sentia transparecesse em seu rosto. A vista, 
tudo o que os dois detetives puderam ver foi uma jovem negra, num elegante vestido bege. A voz de Carol era fria e impessoal quando indagou:
- Posso ajud-los em alguma coisa?
O Tenente Andrew McGreavy, o mais velho dos dois, percebeu a mancha de suor aumentar 
sob a axila de Carol. Automaticamente ele classificou a informao como interesse, para algum uso futuro. A recepcionista do mdico estava tensa. McGreavy tirou 
a carteira com o emblema pregado na imitao de couro rachada pelo uso.
- Tenente McGreavy, do 19 Distrito.
Ele sacudiu a cabea na direo do companheiro e acrescentou:
- Detetive Angeli. Somos da diviso de Homicdios. "Homicdios"? - um msculo do brao 
de Carol comeou a tremer, involuntariamente. "Chick! Ele matara algum. Quebrara a promessa que lhe fizera e voltara para a quadrilha, praticara um assalto e atirara 
em algum ou... Ser que fora ele quem levara o tiro? Estaria morto? Era isso que tinham vindo dizer-lhe?", - pensou. Carol sentiu a mancha de suor aumentando. E 
subitamente ela compreendeu que McGreavy percebera a mancha de suor, apesar de estar olhando para o rosto dela. Carol e os McGreavys desse mundo no precisavam de 
palavras. Eles se reconheciam mutuamente  primeira vista. Afinal, h centenas de anos que se conheciam.
- Gostaramos de falar com o Dr. Judd Stevens - disse o detetive mais jovem.
A voz era gentil e polida, combinando com a sua aparncia. Carol notou pela primeira vez que 
ele segurava um pequeno embrulho, o papel pardo preso por um barbante. Carol levou um longo momento para compreender plenamente as palavras dele. "Ento no era 
Chick... Nem Sammy... Nem a erva"! 
- Lamento - disse ela, sem conseguir disfarar inteiramente o seu alvio -, mas o Dr. Stevens est agora com um paciente.
- Vamos tomar-lhe apenas alguns minutos - disse McGreavy. - Queremos apenas fazer-lhe 
algumas perguntas.
Ele fez uma pausa e acrescentou, a voz incisiva:
- Pode ser aqui ou l na delegacia.
Carol ficou aturdida. "Mas que diabo dois detetives da Diviso de Homicdios podiam querer". 
falar com o Dr. Stevens? O que quer que a polcia pudesse pensar, o Dr. Stevens no fizera 
absolutamente nada de errado. Ela o conhecia bem para ter certeza disso. H quanto tempo fora? 
Quatro anos ". Tudo comeara no tribunal noturno...".
Eram trs horas da madrugada e a luz fraca do tribunal esparramava sobre todos uma palidez 
doentia. A sala era velha e cansada, indiferente, saturada de cheiro ranoso do medo, que ali se acumulava ao longo dos anos com demos de tinta descamadas.
Era muito azar de Carol que o Juiz Murphy estivesse novamente de planto. Ela fora levada 
 presena dele apenas duas semanas antes, conseguindo escapar com um sursis. Sua primeira 
condenao. Ou seja, a primeira vez que os tiras miserveis tinham-na agarrado. Ela sabia que, desta vez, o juiz no iria perdo-la.
O caso em julgamento antes de Carol estava quase terminado. Um homem alto, de aparncia 
tranqila, estava parado diante do juiz e dizia alguma coisa a respeito do seu cliente, um homem gordo, algemado, com o corpo todo a tremer. Carol calculou que o 
homem tranqilo devia ser advogado. Ele tinha um ar confiante, fazendo com que Carol sentisse que o homem gordo tinha muita sorte por t-lo como advogado. Ela no 
tinha ningum para defend-la.
Os homens afastaram-se e Carol ouviu seu nome ser chamado. Ela levantou-se, mantendo os 
joelhos bem juntos, para impedi-los de tremer. O meirinho empurrou-a gentilmente para a frente. Um funcionrio do tribunal entregou o sumrio de acusao ao juiz.
O Juiz Murphy olhou para Carol e depois para o papel em sua mo.
- Carol Roberts. Prostituio, vagabundagem, posse de maconha e resistncia  priso.
A ltima acusao era uma mentira deslavada. O guarda empurrou-a com toda a fora e ela 
desferira-lhe um pontap certeiro. Afinal de contas, era cidad americana e tinha que ser tratada com respeito.
- Voc esteve aqui h poucas semanas, no , Carol?
Carol procurou fazer com que sua voz no soasse trmula.
- Acho que sim, Meritssimo.
- E eu a deixei sair com sursis.
- Exatamente, senhor.
- Quantos anos voc tem, Carol?
Ela j devia imaginar que iam fazer-lhe aquela pergunta.
- Dezesseis anos. E hoje  o meu aniversrio. Feliz aniversrio para mim!
Carol desatou a chorar, as lgrimas corriam copiosamente pelo seu rosto e os soluos sacudiam-lhe o corpo todo.
O homem alto e tranqilo estava de p, junto a uma mesa ao lado, arrumando alguns papis e guardando numa maleta de couro. Ao ver Carol soluando, ele olhou para 
o juiz e depois ficou a contempl-la por um momento. Disse ento alguma coisa ao Juiz Murphy.
O juiz declarou o tribunal um recesso e os dois homens desapareceram na sala reservada ao 
juiz, atrs do tribunal. Quinze minutos depois o meirinho levou Carol at l. O homem tranqilo conversava inteiramente  vontade com o juiz.
- Voc  uma garota de sorte, Carol! - disse o Juiz Murphy. - Vai ter outra oportunidade. O 
tribunal entreg-la-  custdia pessoal do Dr. Stevens.
"Com que ento o cara alto no era um advogado, mas sim um mdico"! Carol no se teria 
importado mesmo que ele fosse Jack, o Estripador. Tudo o que ela queria era sair daquele tribunal nojento antes que descobrissem que no era o seu aniversrio.
O mdico levou-a para o apartamento dele, limitou-se a uma conversa trivial que no exigia 
nenhuma resposta. Mas com isso Carol pde recuperar a calma em sua situao. Ele parou o carro diante de um moderno prdio de apartamentos, na Rua 71, de frente 
para o East River. O prdio tinha porteiro e ascensorista. Pela maneira indiferente como cumprimentaram o mdico, era de se imaginar que ele todos os dias chegava 
s trs da madrugada, trazendo em sua companhia uma garota negra de 16 anos.
Carol nunca tinha visto um apartamento como o do mdico. A sala de estar era toda branca, 
com dois sofs compridos e baixos, forrados com um tecido axadrezado, de tons cremes. Entre os sofs havia uma intensa mesa de caf quadrada, com o tampo de vidro. 
Em cima estava um tabuleiro de xadrez, com as peas esculpidas em cristal veneziano. Quadros modernos estavam pendurados nas paredes. Na parede do vestbulo havia 
um receptor de televiso de circuito fechado, mostrando o saguo l em baixo. A um canto da sala de estar, um bar de vidro fosco mostrando as prateleiras repletas 
de copos e garrafas de cristal. Olhando pela janela, Carol viu inmeros barcos l embaixo, bem pequenos, singrando o East River.
- Os tribunais sempre me deixam com fome - comentou Judd. - Que acha de eu preparar um 
pequeno jantar de aniversrio?
Ele levou-a para a cozinha, onde Carol ficou observando-o preparar rapidamente uma omelete 
mexicana, batatas fritas francesas e muffins ingleses, alm de uma salada e caf.
-  uma das vantagens de ser solteiro - comentou ele. - Posso cozinhar quando me d 
vontade.
Ento ele era solteiro e no tinha mulher em casa. Se ele jogasse as cartas direito, aquilo ia 
ser um man. Quando Carol acabou de devorar a refeio, o mdico levou-a para o quarto de 
hspedes. Era todo pintado de azul, com uma cama de casal, sobre a qual estava estendida uma colcha quadriculada. A um canto havia uma cmoda de madeira escura, 
com ferragens de lato dourado.
- Pode passar a noite aqui - disse ele. - Vou arrumar um pijama para voc.
Correndo os olhos pelo quarto muito bem decorado, ela pensou: "Carol, boneca, voc tirou". 
a sorte grande! Esse cara est a fim de uma carne negra arrancada da cadeia! E  voc quem vai lhe dar isso "! Ela despiu-se e passou a meia hora seguinte debaixo 
do chuveiro. Quando saiu do banheiro, com uma toalha enrolada no corpo reluzente e voluptuoso, viu que o filho da me deixara um pijama em cima da cama. Carol riu, 
maliciosamente, e no tocou no pijama. Deixou cair a toalha e dirigiu-se para a sala de estar. Ele no estava l. Ela olhou pela porta que dava para uma pequena 
saleta. O mdico estava sentado ali, sentado a uma escrivaninha grande, na qual havia um abajur antiquado. 
A saleta estava atulhada de livros, do cho ao teto. Carol foi prostrar-se atrs dele e beijou-o no pescoo, sussurrando:
- Vamos comear logo de uma vez, meu bem. Voc me deixou to excitada que no me 
agento mais.
Ela comprimiu-se contra ele e acrescentou:
- O que est esperando, papaizinho? Se no me levar para a cama depressa, acho que vou 
ficar maluca.
Ele fitou-a, os olhos castanhos, bem escuros, pensativos. A voz era suave quando falou:
- No acha que j se meteu em encrenca suficiente? No pode mudar o fato de ter nascido 
negra, mas quem lhe disse que precisa ser tambm uma puta maconheira aos 16 anos de idade?
Carol ficou aturdida, sem saber o que dissera de errado. Talvez ele precisasse excitar-se 
primeiro, chicoteando-a por exemplo, antes de chegar ao ponto. Ou talvez ele fizesse o gnero do reverendo. Ia rezar por sua carne negra, reform-la e depois lev-la 
para a cama. Ela tentou de novo. 
Estendeu a mo por entre as pernas dele, acariciando-o.
- Vamos, meu bem, enfia tudo isso dentro de mim.
Ele desvencilhou-se gentilmente e sentou-a numa poltrona. Carol nunca ficara to 
desconcertada antes. Ele no parecia bicha,  verdade, mas atualmente nunca se sabe.
- Qual  a sua, meu bem? Diga-me do que gosta e farei tudo por voc.
- Est certo. Vamos bater um papo.
- Voc quer... falar?
- Exatamente.
E como conversaram! A noite inteira. Foi a mais estranha das noites que Carol j vivera. O 
Dr. Stevens pulou rapidamente de um assunto para outro, sondando-a, experimentando-a. Perguntou a sua opinio sobre o Vietn, os guetos e os motins universitrios. 
Cada vez que Carol imaginava que finalmente descobrira o que ele estava querendo, o Dr. Stevens passava para outro assunto. Falaram de coisas que ela jamais ouvira 
antes e abordaram assuntos nos quais ela se julgava a maior autoridade viva do mundo. Meses depois Carol ainda ficava acordada de noite, procurando recordar e identificar 
a palavra mgica, a idia, a frase-chave que provocara a sua transformao. Nunca chegou a descobrir, pois finalmente compreendeu que no houve qualquer palavra 
mgica. O que o Dr. Stevens fizera fora um bem simples. Ningum jamais o fizera antes. Ele a tratara como um ser humano, uma pessoa igual a ele, cujas opinies e 
sentimentos eram-lhe importantes.
Em um momento qualquer, no decorrer da noite, ela subitamente teve conscincia de sua nudez. Ela foi at o quarto e vestiu o pijama. Ele foi sentar-se na beira da 
cama e conversaram mais um pouco. Falaram de Mo Ts-tung, dos distrbios raciais, da plula. E de se ter um pai e uma me que jamais haviam casado. Carol disse-lhe 
coisas que jamais contara antes a algum. Coisas que h muito estavam enterradas em seu subconsciente. E quando ela finalmente dormiu, estava completamente vazia. 
Era como se tivesse sido submetida a uma interveno cirrgica e um rio de veneno escorresse para fora do seu corpo.
Pela manh, depois do caf, ele entregou-lhe uma nota de cem dlares. Carol hesitou, mas 
finalmente disse:
- Eu menti. Ontem no era meu aniversrio.
- Eu sei - disse ele sorrindo. - Mas no vamos contar ao juiz.
Ele fez uma pausa e mudando o tom, acrescentou:
- Pode pegar esse dinheiro e ir embora que ningum a incomodar, at a prxima em que a 
polcia a apanhar. Mas estou precisando de uma recepcionista e acho que voc seria maravilhosa para o lugar.
Carol no podia acreditar.
- Mas no sei taquigrafia nem datilografia.
- Poderia aprender, se voltasse a estudar.
Carol ficou em silncio por um momento e depois disse, entusiasmada:
- Ei, eu nunca tinha pensado nisso antes! At que no  m idia!
Mas o que ela queria mesmo era sair daquele apartamento com a nota de cem dlares e 
mostr-la para os rapazes e garotas na Fishman' Drug Store, no Harlem, onde a turma se reunia. Com aquele dinheiro poderia comprar doses suficientes para uma semana. 
Quando entrou no Fishman's foi como se nunca se tivesse afastado de l. Viu os mesmos rostos amargurados e ouviu as mesmas conversas mrbidas de derrotados. Ela 
estava em casa. Mas no conseguia parar de pensar no apartamento do mdico. No era os mveis que faziam a diferena.  que era tudo... to limpo! E tranqilo tambm. 
Uma ilhota perdida do outro mundo! O que tinha a perder? Podia pelo menos tentar, s para se divertir, para mostrar ao mdico que ele estava errado, que ela jamais 
podia mudar.
Para sua prpria surpresa, Carol matriculou-se numa escola. Deixou o quarto mobiliado em 
que vivia, com a pia manchada de ferro, o vaso quebrado e a persiana verde toda arrebentada, com a cama de ferro cheia de calombos, onde costumava sonhar as lindas 
fantasias. Era uma herdeira deslumbrante em Paris, Londres ou Roma, e o homem que estava em cima dela era um prncipe deslumbrante e rico, morrendo de vontade de 
casar com ela. E assim que cada homem tinha seu orgasmo e saa de cima dela, o sonho se desvanecia. At a vez seguinte.
Carol deixou o quarto e todos os seus prncipes sem olhar para trs e voltou a morar com os 
seus pais. O Dr. Stevens  deu-lhe uma mesada enquanto estudava. Ela terminou a escola secundria com notas excelentes. O mdico compareceu  cerimnia de formatura, 
seus olhos castanhos brilhando de orgulho. Carol tambm sentia orgulho, de si mesma. Algum acreditava nela. Arrumou um emprego na Nedick's durante o dia e fez um 
curso de secretariado  noite. No dia em que terminou, comeou a trabalhar para o Dr. Stevens, podendo ento ter o seu prprio apartamento.
Nos quatro anos que haviam passado o Dr. Stevens sempre a tratava com a mesma cortesia 
formal da primeira noite. A princpio Carol ficara esperando que ele fizesse alguma referncia ao que ela fora e ao que ela era. Mas finalmente ela descobrira que 
ele sempre a vira como ela era agora. 
Tudo o que ele fizera fora ajud-la a ser o que sempre fora. Sempre que Carol tinha um problema, ele achava tempo para discuti-lo. Recentemente ela comeara a pensar 
que precisava falar-lhe sobre o que acontecia entre ela e Chick, mas estava sempre adiando. Carol era capaz de fazer qualquer coisa pelo Dr. Stevens. Deitar-se com 
ele, matar por ele...
E agora ali estavam aqueles dois caras da Diviso de Homicdios, querendo falar com o Dr. 
Stevens.
McGreavy comeou a ficar impaciente.
- E ento?
- Tenho ordens para jamais incomod-lo quando est com um paciente - disse Carol.
Ela viu a expresso furiosa que surgiu nos olhos de McGreavy e acrescentou:
- Mas vou falar com ele pelo telefone.
Ela pegou o fone e apertou a campainha de intercomunicao. Depois de trinta segundos o 
Dr. Stevens disse:
- Pois no?
- H dois detetives aqui fora querendo falar-lhe, Doutor. So da Diviso de Homicdios.
Carol ficou esperando que houvesse alguma alterao na voz dele. Nervosismo, talvez medo. 
Porm nada houve.
- Pois eles vo ter que esperar.
E o Dr. Stevens desligou, Carol ficou radiante de orgulho. Os detetives podiam faz-la entrar 
em pnico, mas jamais conseguiriam fazer com que seu Dr. Stevens perdesse a calma! Ela fitou-os com uma expresso desafiadora e disse:
- Ouviram o que ele disse.
- Quanto tempo mais o paciente vai ficar l dentro? - indagou Angeli, o mais jovem.
Carol olhou para o relgio que estava na sua mesa.
- Mais vinte e cinco minutos.  o ltimo paciente de hoje.
Os dois homens se entreolharam. McGreavy suspirou.
- Pois vamos esperar. Eles sentaram-se. McGreavy examinou-a atentamente, comentando:
- Voc me parece familiar.
Carol no se deixou enganar. O tira estava jogando uma isca.
- Creio que sabe o que se costuma dizer - respondeu ela. - Todas ns parecemos iguais.
Exatamente vinte e cinco minutos aps, Carol ouviu a batida da porta lateral que levava ao 
gabinete particular do Dr. Stevens diretamente para o corredor. Momentos depois, o Dr. Stevens abriu a porta que dava do seu gabinete para a sala da recepo. Hesitou 
por um instante ao ver McGreavy dizendo:
- J nos encontramos antes.
S que ele no conseguia lembrar-se onde.
- J sim... Sou o Tenente McGreavy.
Ele acenou com a cabea na direo de Angeli.
- Detetive Frank Angeli.
Judd e Angeli apertaram-se as mos.
- Entrem, por gentileza.
Os dois detetives entraram no gabinete particular de Judd e a porta foi fechada. Carol ficou 
olhando para a porta, tentando compreender a situao. O detetive grandalho dera a impresso de antagonizar o Dr. Stevens. Mas talvez isso fosse apenas uma disposio 
natural dele. Carol s tinha certeza de uma coisa: teria que mandar o seu vestido para a tinturaria.
O gabinete de Judd parecia mais uma sala de estar de uma casa de campo. No havia uma 
escrivaninha, mas algumas poltronas e uma mesa no centro, com abajures realmente antigos. No outro lado havia uma porta que levava para o corredor. No cho estendia-se 
um tapete de padres intrincados, e, a um canto, ficava um div forrado com um tecido adamascado. McGreavy percebeu logo que no havia diplomas nas paredes. Mas 
ele verificara antes. Se o Dr. Stevens quisesse, poderia cobrir todas as paredes de diplomas e certificados.
-  o primeiro consultrio de psiquiatra em que eu entro - disse Angeli, visivelmente 
impressionado. - Eu bem que gostaria que minha casa fosse assim.
- Serve para descontrair meus pacientes - comentou Judd, calmamente. - E por falar nisso, 
eu sou psicanalista.
- Desculpe o engano. Mas qual  a diferena?
- Cerca de cinqenta dlares a mais por hora - comentou McGreavy. - Meu parceiro jamais 
sonhou em ganhar tanto assim! 
"Parceiro"! Foi ento que Judd se lembrou. O parceiro de McGreavy fora baleado e morto 
e o prprio McGreavy ficara bastante ferido durante um assalto a uma loja de bebidas quatro ou cinco? anos antes. Um vagabundo, chamado Amos Ziffren, fora preso 
pelo crime. O advogado de Ziffren alegara que seu cliente era inocente, por insanidade mental, Judd fora convocado como perito pela defesa e pediram-lhe que examinasse 
o ru. Constatara que Ziffren era, de fato, insano e sofria de uma paresia bem adiantada. Com base no depoimento de Judd, Ziffren escapara  sentena de morte e 
fora enviado para um asilo de doentes mentais.
- Estou me lembrando de voc agora - disse Judd. - O caso Zifren. Voc levou trs tiros e seu 
companheiro foi morto.
- Pois eu tambm me lembro muito bem - disse McGreavy. - Conseguiu fazer com que o 
assassino escapasse.
- Em que posso ajud-los?
- Precisamos de uma informao, Doutor - disse McGravy.
Ele fez um gesto com a cabea para Angeli, que comeou a desamarrar o embrulho que 
trazia.
- Precisamos que identifique algo para ns - acrescentou McGreavy.
Sua voz era controlada, no deixando transparecer qualquer emoo. Angeli terminou de 
abrir o embrulho e exibiu uma capa de chuva amarela.
- J viu isso antes?
- Parece que  a minha - disse Judd, surpreso.
- , de fato, a sua. Pelo menos est escrito por dentro.
- Onde a encontraram?
- Onde acha que ns a encontramos?
Os homens no pareciam mais indiferentes. Uma mudana subtil ocorrera em suas expresses. 
Judd estudou McGreavy por um momento e depois pegou um cachimbo numa mesinha, comeando a ench-lo com tabaco tirado de um jarro.
- Acho bom me contarem logo o que significa tudo isso - disse ele calmamente.
- Se a capa lhe pertence, Dr. Stevens, queremos saber como deixou de estar em seu poder - 
disse McGreavy.
- No h mistrio nenhum nisso. Estava chovendo quando sa de casa esta manh. Como meu 
sobretudo est na tinturaria, usei a capa impermevel. Costumo us-la em minhas pescarias. Um dos meus pacientes apareceu aqui sem capa. Como estava nevando bastante 
na hora em que ele saiu, emprestei-lhe a minha capa.
Ele fez uma pausa, assumindo uma expresso subitamente preocupada.
- O que aconteceu com ele?
- Aconteceu a quem?
- Ao meu paciente, John Hanson.
- Exatamente - disse Angeli gentilmente. - Acertou em cheio. A razo para o Sr. Hanson no poder devolver-lhe a capa  o fato de estar morto.
Judd sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- Morto?
- Algum enfiou-lhe uma faca nas costas - informou McGreavy.
Judd fitou-o, incrdulo. McGreavy tirou a capa das mos de Angeli e virou-a, mostrando a 
Judd o rasgo atrs e as manchas escuras de sangue. Uma sensao de nusea invadiu Judd.
- Mas quem poderia querer mat-lo?
- Espervamos que nos pudesse dizer, Dr. Stevens - disse Angeli. - Quem poderia saber 
melhor do que o seu psicanalista?
Judd sacudiu a cabea, desolado.
- Quando foi que aconteceu?
Foi McGreavy quem respondeu:
- s onze horas desta manh. Em Lexington Avenue, acerca de um quarteiro daqui. 
Algumas dezenas de pessoas devem t-lo visto cair, mas estavam to ocupadas voltando para suas casas, a fim de se prepararem para as comemoraes do nascimento de 
Cristo, que o deixaram estendido na neve, sangrando at  morte.
Judd apertou a borda da mesa e os ns dos dedos ficaram brancos.
- A que horas Hanson chegou aqui esta manh? - perguntou Angeli.
- Dez horas.
- Quanto tempo demoram as suas consultas, Doutor?
- Cinqenta minutos.
- Ele foi embora assim que acabou?
- Foi. Eu j tinha outro paciente  espera.
- Hanson saiu pela sala da recepo?
- No. Meus pacientes entram pela sala da recepo e saem por aquela porta - disse Judd, 
apontando para a porta que dava diretamente para o corredor. - Dessa maneira, eles jamais se 
encontram.
MacGreavy assentiu.
- Ento quer dizer que Hanson foi morto alguns minutos depois de sair daqui. Porqu ele 
estava-se tratando?
Judd hesitou.
- Lamento, mas no posso revelar o relacionamento entre o paciente e seu mdico.
- Mas algum o matou, Dr. Stevens? Talvez nos possa ajudar a encontrar o assassino.
O cachimbo de Judd estava agora apagado. Ele se demorou acendendo-o novamente.
- H quanto tempo ele vinha se consultando?
Desta vez quem perguntou foi Angeli. Um exemplo tpico de trabalho de equipa da polcia.
- H trs anos.
- E qual o problema dele?
Judd hesitou. Recordou-se de John Hanson que vira naquela manh excitado, sorridente, 
ansioso em desfrutar de sua nova liberdade.
- Ele era homossexual.
- Oh, no! - exclamou McGreavy. - Outro caso de bonecas!
- Ele era homossexual - disse Judd firmemente. - Hanson estava curado. Esta manh eu lhe 
disse que no precisava mais do tratamento. Estava pronto para voltar a viver com a famlia. Ele tem... tinha mulher e dois filhos.
- Um bicha com famlia? - indagou McGreavy.
- Isso acontece com freqncia.
- Talvez um dos seus amiguinhos no tenha gostado da histria de ele se libertar. Tiveram 
uma briga. O outro perdeu a calma e enfiou uma faca nas costas de Honson.
Judd pensou na teoria por um momento.
-  possvel, mas no creio muito.
- Por que no, Dr. Stevens? - perguntou Angeli.
- Porque Hanson, h mais de um ano, no tinha qualquer contato homossexual.  mais 
provvel que tenha sido uma tentativa de assalto. Hanson era o tipo de homem que no rejeitava uma briga.
- Um bicha casado e valente - murmurou MacGreavy, tirando o charuto do bolso e 
acendendo. - S h uma coisa errada com essa teoria de assalto, Doutor. A carteira dele no foi tocada. E tinha mais de cem dlares.
Ele calou-se, observando a reao de Judd. Foi ento a vez de Angeli falar:
- Se tivssemos que procurar um doido, seria mais fcil de encontrar.
- Mas se um homem est doido...?
- No precisa necessariamente aparentar a sua loucura _ explicou Judd. - Para cada caso evidente de desequilbrio mental, h pelo menos dez que no so diagnosticados.
McGreavy examinava Judd com um interesse bvio.,
- Conhece um bocado da natureza humana, no  mesmo, Doutor?
- No existe essa coisa a que chamam natureza humana - disse Judd. - Assim como no existe 
uma natureza animal. Tentem encontrar as afinidades naturais entre um coelho e um tigre. Ou entre um esquilo e um elefante.
- H quanto tempo pratica psicanlise? - perguntou McGreavy.
- Doze anos. Por qu?
McGreavy sacudiu os ombros.
-  um homem de boa aparncia, Doutor. Aposto que uma poro de pacientes se apaixonam 
pelo senhor no  mesmo, Doutor?
Os olhos de Judd ficaram extremamente frios.
- No estou entendendo aonde quer chegar.
- Ora, Doutor, claro que entende. Somos ambos homens vividos. Um bicha entra aqui e 
encontra um mdico bem apessoado a quem pode contar os seus problemas. Vai querer dizer-me que, durante trs anos de sesso, Hanson nunca lhe fez qualquer insinuao?
Judd ficou em silncio por um momento, sem demonstrar qualquer reao.
-  essa idia que faz de um homem vivido, Tenente?
McGreavy no se perturbou.
- Pode perfeitamente ter acontecido. E no apenas isso. Tivemos um caso. Disse ento a 
Hanson que no queria mais v-lo. Talvez ele no tenha gostado. Em trs anos de relacionamento ele ficou inteiramente dependente do senhor. Os dois tiveram uma briga.
O rosto de Judd tentou transparecer toda a raiva que ele estava sentindo. Foi Angeli quem 
rompeu a tenso:
- Pode-se recordar de algum que tivesse motivo para odi-lo, Doutor? Ou algum a quem 
ele pudesse odiar?
- Se tal pessoa existisse, eu poderia dizer. Creio que eu sabia tudo quanto dizia respeito a 
John Hanson. Ele era um homem feliz. No odiava ningum e no sei de ningum que o odiasse.
- Maravilhoso para ele. Deve ser um mdico e tanto, Doutor - comentou McGreavy. - Agora 
d-nos a ficha dele, que vamos lev-la.
- No.
- Podemos obter uma ordem judicial.
- Pois ento obtenha. No h nada na ficha de Judd Hanson que possa ajud-los.
- Ento que mal pode haver em nos entreg-la? - indagou Angeli.
- Pode prejudicar a esposa e os filhos de Hanson. Creio que vocs esto na pista errada. No 
tardaro a descobrir que Hanson foi morto por um estranho.
- Tenho certeza que no - disse McGreavy, rispidamente.
Angeli tornou a embrulhar a capa e prendeu o barbante.
- Devolveremos a capa depois que tivermos feito mais alguns testes nela, Doutor.
- Pode ficar com ela.
McGreavy abriu a porta que dava para o corredor.
- Voltaremos a procur-lo, Doutor.
Ele saiu. Angeli acenou para Judd e saiu tambm.
Judd ainda estava parado junto  porta, os pensamentos tumultuados, quando Carol entrou.
- Est tudo bem? - indagou ela, hesitante.
- Algum matou John Hanson.
- Matou?
- Ele foi apunhalado.
- Oh, meu Deus! Mas por qu?
- A polcia no sabe.
- Mas que coisa terrvel!
Carol notou a dor que havia nos olhos de Judd e acrescentou:
- H alguma coisa que eu possa fazer, Doutor?
- Poderia fechar o consultrio, Carol? Vou procurar a Sr Hanson. Quero eu mesmo 
transmitir-lhe a notcia.
- Pode deixar que eu cuido de tudo, Doutor.
- Obrigado.
E Judd partiu.
Trinta minutos depois Carol acabara de pr as fichas em ordem e estava trancando a sua 
escrivaninha quando a porta do corredor se abriu. J passava das seis horas da tarde e o prdio estava fechado. Carol levantou os olhos para ver o homem sorrir e 
avanar em sua direo.


Captulo 3

Mary Hanson parecia uma boneca: pequena, bonita, de feies delicadas. Por fora, ela era 
toda suavidade, uma tpica representante do desamparo feminino do sul. Mas, por dentro, era feita de granito. Judd conhecera-a uma semana depois de ter iniciado 
o tratamento do marido. Ela se manifestara histericamente contra o tratamento, e Judd pedira-lhe que fosse conversar com ele.
- Por que se ope a que seu marido faa um tratamento de psicanlise?
- No quero que todos os nossos amigos digam que me casei com um maluco - dissera ela 
a Judd. - Pea-lhe que me d o divrcio primeiro. Depois pode fazer o que bem entender..
Judd explicara que um divrcio naquele momento poderia destruir John completamente.
- No resta mais nada que destruir - gritou Mary. - Se eu soubesse que ele era um efeminado, 
acha que eu me teria casado? Ele no  homem, mas mulher!
- H um pouco de mulher em cada homem, assim como h um pouco de homem em cada 
mulher. No caso do seu marido, h alguns problemas psicolgicos difceis que ele precisa superar. 
E ele est tentando arduamente, Sra. Hanson. Tem que ajud-lo. Deve isso a ele e s crianas.
Ele argumentara durante mais de trs horas e ela, finalmente, concordara, embora relutante, 
em suspender a ao de divrcio por algum tempo. Nos meses que se seguiram ela se tornara, a princpio, interessada e, depois, envolvida na batalha que John estava 
travando. Judd tinha como princpio jamais tratar de marido e mulher, mas Mary pedira para ser sua paciente e ele descobrira que isso ajudava bastante.  medida 
que ela comeava a compreender a si mesma e a descobrir onde fracassara com esposa, os progressos de John haviam sido dramaticamente rpidos.
E agora Judd estava ali para dizer-lhe que o marido fora assassinado, o que no fazia o menor 
sentido. Mary fitou-o em silncio, incapaz de acreditar no que ele acabara de dizer, certa de que se tratava de alguma espcie de piada macabra. Mas logo ela compreendeu 
que no, que era mesmo verdade. E ps-se a gritar:
- Ele nunca mais vai voltar para mim! Ele nunca mais vai voltar para mim!
Ela comeou a rasgar as roupas, num acesso de desespero, parecendo um animalzinho ferido. 
Os gmeos de seis anos entraram na sala neste momento e a situao se tornou incontrolvel. Judd conseguiu acalmar as crianas e levou-as para a casa de uma vizinha. 
Deu um sedativo  Sra. Hanson e telefonou para o mdico da famlia. S foi embora quando teve certeza de que nada mais pudesse fazer. Entrou no carro e partiu sem 
rumo, imerso em seus pensamentos. Hanson lutara valentemente para sair de um inferno e no momento de sua vitria... No fazia o menor sentido. Teria sido John Hanson 
assassinado por algum homossexual? Por algum antigo amante, que se sentira frustrado porque Hanson o deixara? Era possvel,  claro, mas Judd no acreditara em tal 
possibilidade. O Tenente McGreavy dissera que Hanson fora assassinado a um quarteiro do seu consultrio. Se o assassino  fosse um homossexual, cheio de dio em 
seu corao, teria marcado um encontro com Hanson em algum lugar mais ntimo, onde poderia tentar persuadir Hanson a voltar ou ento despejar as suas recriminaes, 
antes de assassin-lo. Jamais iria esfaque-lo numa rua cheia de gente e depois fugir.
Numa esquina  sua frente ele viu uma cabine telefnica e s ento se lembrou de que 
prometera jantar com o Dr. Peter Hadley e sua esposa, Norah. Eram os amigos mais chegados de Judd, mas naquela noite ele no estava com disposio de ver ningum. 
Estacionou o carro e entrou na cabine a fim de telefonar para Hadley. Foi Norah quem atendeu:
- Voc est atrasado, Judd! Onde  que est agora?
- Norah, acho que vou ter que pedir-lhe que me perdoe por no ir jantar com vocs esta noite.
- Mas voc no pode fazer uma coisa dessas! Tenho uma loura sensual aqui em casa, 
morrendo de vontade de conhec-lo.
- Vamos deixar para outra noite, Norah. Hoje no vai mesmo ser possvel. Por favor, 
apresente a ela as minhas desculpas.
- Vocs, mdicos, so todos iguais! Espere um instante que vou chamar o seu colega.
Peter veio ao telefone.
- Algo errado, Judd?
Judd hesitou, mas acabou no contando nada.
- Apenas um dia difcil, Peter. Amanh eu lhe conto tudo.
- Pois saiba que est perdendo um delicioso hors d'oeuvre escandinavo.
- Eu a conhecerei em outra ocasio.
Ele ouviu um sussurro abafado e depois Norah voltou ao telefone.
- Ela vir cear conosco na noite de Natal, Judd. Voc no quer vir tambm?
Ele hesitou.
- Falaremos sobre isso depois, Norah. E mais uma vez peo desculpas por esta noite.
Judd desligou. Gostaria de encontrar uma maneira delicada de fazer com que Norah parasse 
de procurar arrumar-lhe uma esposa.
Judd casara-se no ltimo ano da universidade. Elizabeth estava-se formando tambm, em 
Cincias Sociais. Era uma moa inteligente, alegre e afetiva. Estavam profundamente apaixonados um pelo outro e tinham planos maravilhosos de refazerem o mundo para 
todos os filhos que iam ter. 
E no primeiro natal em que estavam casados Elizabeth e seu filho que ainda no nascera haviam morrido num acidente de automvel. Judd passara a se concentrar em 
seu trabalho e, com o passar dos anos, transformara-se num dos mais conceituados psicanalistas do pas. Mas ainda no podia suportar a companhia de outras pessoas 
a comemorar o Natal. De certa forma, embora ele constantemente repetisse a si mesmo que estava errado, o Natal era uma data que pertencia a Elizabeth e ao seu filho 
que no nascera.
Ele empurrou a porta da cabine telefnica. Havia uma jovem esperando do lado de fora. Era 
bonita e usava uma blusa apertada, com uma minissaia e uma capa por cima, aberta na frente. Judd saiu da cabine.
- Desculpe a demora.
Ela sorriu-lhe jovialmente.
- No h problema.
Havia uma expresso de ansiedade em seu rosto. Judd j vira aquele olhar antes. Era a 
soluo tentando romper a barreira que ele inconscientemente erguera ao seu redor.
Se Judd sabia que tinha alguma coisa que atraa as mulheres, ento isso estava enterrado no 
fundo de seu subconsciente. Ele jamais procurava analisar o fato, em busca de uma explicao. Era mais uma desvantagem que uma vantagem descobrir que as suas pacientes 
sempre se apaixonavam por ele. Algumas vezes isso criava situaes bem difceis.
Ele passou pela moa com um aceno cordial. Sentiu que ela ficou parada ali, debaixo da 
chuva, observando-o entrar no carro e afastar-se.
Judd virou em East Drive e seguiu para o Merrit Parkway. Uma hora e meia depois estava 
em Connecticut Turnpike. A neve em Nova York era suja e semiderretida, mas a mesma tempestade magicamente transformara a paisagem de Connecticut num carto-postal 
de Currier e Ives.
Ele passou por Westport e Danbury, deliberadamente forando sua mente a concentrar-se na 
faixa de estrada que voava sob as rodas e na paisagem de inverno que o cercava. Cada vez que seus pensamentos voltavam a John Hanson, ele se obrigava a pensar em 
outras coisas. Durante horas guiou pela escurido dos campos de Connecticut, at que, emocionalmente exausto, decidiu que j estava na hora de voltar para casa.
Mike, o porteiro de rosto vermelho, que normalmente o cumprimentava efusivamente, sempre 
sorrindo, estava preocupado e distante. "Problemas de famlia", calculou Judd. Geralmente Judd conversava um pouco com Mike sobre o filho adolescente dele e as filhas 
casadas. Mas naquela noite Judd no estava com a menor vontade de conversar. Pediu a Mike que levasse o seu carro para a garagem.
- Pois no, Dr. Stevens.
Mike deu a impresso de que ia dizer mais alguma coisa, mas mudou de idia. Judd entrou 
no prdio. Ben Katz, o sindico, estava atravessando o saguo. Ele viu Judd, acenou-lhe nervosamente e seguiu em frente apressado, entrando em seu apartamento.
"Mas que diabo est acontecendo com todo mundo esta noite?", pensou Judd. "Ou serei eu". 
que estou nervoso demais "? Ele entrou no elevador. Eddie, o ascensorista, sacudiu a cabea".
- Boa noite, Dr. Stevens.
- Boa noite, Eddie.
Eddie engoliu em seco e olhou para o outro lado, embaraado.
- H algo errado, Eddie?
Eddie sacudiu a cabea rapidamente e manteve os olhos afastados de Judd. "Meu Deus!", 
pensou Judd. "Outro candidato a meu div de analise"! Parecia que o prdio se enchera rapidamente de gente que estava precisando dos seus servios profissionais.
Eddie abriu a porta do elevador e Judd saiu. Encaminhou-se para seu apartamento. No ouviu 
a porta do elevador fechar-se e, por isso, virou-se. Eddie estava olhando para ele. Judd comeou a falar, mas Eddie rapidamente fechou a porta do elevador. Judd 
foi para o seu apartamento, abriu a porta e entrou.
Todas as luzes estavam acesas. O Tenente McGreavy estava abrindo uma gaveta da sala de 
estar. Angeli saa do quarto. Judd sentiu a raiva irromper l do fundo.
- Mas o que vocs esto fazendo no meu apartamento?
- Estvamos  sua espera, Dr. Stevens - disse McGreavy.
Judd avanou e fechou a gaveta violentamente, por pouco no imprensando os dedos de 
McGreavy.
- Como foi que entraram aqui?
- Temos um mandado de busca - informou Angeli.
Judd fitou-o com uma expresso de incredulidade.
- Um mandado de busca? Para meu apartamento?
- Ns  que fazemos as perguntas, Doutor - disse McGreavy.
- No precisa respond-las - acrescentou Angeli. - Isto , no precisa responder nada sem a 
presena do seu advogado. E devemos tambm inform-lo de que tudo o que disser poder ser usado como prova contra o senhor.
- Quer chamar um advogado? - perguntou McGreavy.
- No preciso de advogado nenhum! J lhe disse que emprestei minha capa a John Hanson 
esta manh e no tornei a v-la at que a levaram a meu escritrio,  tarde. Eu no poderia T-lo matado. Passei o dia inteiro com meus pacientes. A senhorita Roberts 
pode confirmar.
McGreavy e Angeli trocaram um olhar misterioso.
- Onde foi depois que saiu do seu escritrio esta tarde, Doutor? - indagou Angeli.
- Fui ver a Sra. Hanson.
- J sabamos disso - falou McGreavy. - Queremos saber onde foi depois.
Judd hesitou.
- Fui dar uma volta de carro.
- Aonde?
- Fui at Connecticut.
- Onde foi que parou para jantar?
- No parei. Estava sem fome.
- Ento ningum o viu?
Judd pensou por um momento.
- Acho que no.
- Talvez tenha parado em algum posto para encher o tanque - sugeriu Angeli.
- No parei em lugar nenhum. Mas que diferena faz o lugar onde fui esta noite? Honson foi 
morto pela manh.
- No voltou ao seu consultrio depois que saiu de l no fim da tarde? A voz de McGreavy 
era quase indiferente.
- No. Por qu?
-  que foi arrombado.
- O qu? Quem fez isso?
- No sabemos. E eu gostaria de que fosse at l conosco para dar uma olhada. Poder 
dizer-nos se est faltando alguma coisa.
- Mas claro que sim. Quem foi que informou o arrombamento?
- O vigia noturno - disse Angeli. - Guarda alguma coisa de valor em seu consultrio, 
Doutor? Dinheiro? Drogas? Alguma coisa assim.
- S o dinheiro para as despesas midas do consultrio. E nenhum narctico. No existe l 
qualquer coisa que valha a pena roubar. Isso no faz o menor sentido.
- Est certo - disse McGreavy. - Mas agora vamos embora.
No elevador Eddie lanou para Judd um olhar de quem pedia desculpas. Judd fitou-o e 
sacudiu a cabea, indicando que compreendia.
"Evidentemente a polcia no podia suspeitar de que ele arrombara o seu prprio". 
consultrio ", pensou Judd. Parecia que McGreavy estava determinado a atribuir-lhe a culpa de". 
alguma coisa, para se vingar do seu companheiro morto. Mas s que isso acontecera h cinco anos. 
Ser que McGreavy passara todos aqueles anos remoendo o caso e chegando  concluso de que ele era o culpado? Ser que ficara esperando o tempo todo por uma oportunidade 
para agarr-lo.
Havia um carro de polcia no identificado a poucos metros da entrada do prdio. Entraram os trs e seguiram para o consultrio de Judd, em silncio. Ao chegarem, 
Judd assinou o registro que havia no saguo. Bigelow, o vigia noturno, olhou-o com uma expresso estranha. Ou seria apenas imaginao de Judd?
Subiram no elevador at o dcimo quinto andar e percorreram o corredor at o consultrio 
de Judd. Um guarda uniformizado estava parado diante da porta. Ele acenou para McGreavy e deu um passo para o lado. Judd meteu a mo no bolso para tirar a chave.
- A porta est aberta - disse Angeli.
Ele empurrou a porta e os trs entraram. Judd seguiu na frente. A sala de recepo era um 
caos. Todas as gavetas tinham sido arrancadas da escrivaninha e o cho estava coalhado de papeis. 
Judd no queria acreditar no que estava vendo, sentindo um choque de violao pessoal.
- O que acha que estavam procurando, Doutor? - indagou McGreavy.
- No tenho a menor idia.
Ele encaminhou para a porta que dava para o seu gabinete pessoal e abriu-a. McGreavy veio 
logo atrs dele.
Duas mesinhas baixas tinham sido viradas, um abajur quebrado estava cado no cho, o tapete 
ensopado de sangue.
No outro lado da sala, estendido de maneira grotesca, estava o corpo de Carol Roberts. Ela 
estava nua, as mos amarradas nas costas com uma corda de piano. Haviam-lhe jogado cido no rosto, nos seios e entre as coxas. Os dedos da mo direita estavam quebrados. 
O rosto estava bastante machucado e inchado, e um leno embolado fora enfiado em sua boca. Os dois detetives ficaram observando Judd, em silncio, enquanto ele contemplava 
o corpo de Carol, aturdido.
- Est muito plido - disse Angeli. -  melhor sentar-se.
Judd sacudiu a cabea e respirou fundo por diversas vezes. Quando falou, a voz tremia de 
raiva:
- Mas... mas quem poderia ter feito uma coisa dessas?
-  o que estamos esperando que nos diga, Dr. Stevens - disse McGreavy.
Judd fitou-o em silncio por um minuto, perplexo.
- Ningum jamais poderia querer fazer uma coisa dessas com Carol. Ela jamais fez mal a 
algum em toda sua vida.
- Acho que j est na hora de comear a cantar outra melodia - comentou MacGreavy. - 
Ningum podia querer fazer mal a Hanson, mas enfiaram uma faca nas costas dele. Ningum poderia querer fazer mal a Carol, mas derramaram cido por todo o corpo dela 
e torturaram-na at  morte.
McGreavy fez uma pausa. Ao continuar, seu tom era bem mais rspido:
- E depois disso ainda tem a coragem de dizer que ningum poderia querer fazer mal aos dois! 
Mas que diabo , afinal? Cego, mudo e idiota? Essa garota trabalhou aqui durante quatro anos. O senhor  um psicanalista. Vai querer dizer-me que nunca soube de 
nada, nem jamais se importou com a vida pessoal dela?
- Mas  claro que eu me importava - disse Judd, a voz tensa. - Ela tinha um namorado, e eles 
iam-se casar...
-  Chick. Ns j falamos com ele.
- Mas ele jamais faria uma coisa dessas!  um rapaz decente e amava Carol...
- Quando foi a ltima vez que viu Carol viva? - perguntou Angeli.
- J lhes disse isso. Foi quando sa daqui para ir falar com a Sra. Hanson. Pedi a Carol que 
fechasse o consultrio para mim.
A voz de Judd estava trmula. Ele engoliu em seco e respirou fundo, procurando controlar-se.
- Tinha mais algum paciente marcado para hoje quando saiu?
- No.
- Acha que o crime foi obra de algum manaco, Doutor?
- S pode ter sido um manaco. Mas... mesmo um manaco precisa de alguma motivao.
-  o que eu tambm acho - disse McGreavy.
Judd olhou mais uma vez para o corpo de Carol. Tinha o aspecto triste de uma boneca de 
trapos desfigurada. Furioso, ele indagou aos detetives:
- Por quanto tempo pretendem deix-la assim?
- Eles j vo lev-la - informou Angeli. - O legista e os outros tcnicos j terminaram o seu 
servio.
Judd virou-se para McGreavy.
- Quer dizer que a deixaram assim s por minha causa?
- Exatamente. E vou perguntar novamente: h alguma coisa aqui que algum pudesse querer 
desesperadamente, a ponto de - ele fez uma pausa e indicou o corpo de Carol - ter feito isso?
- No.
- O que me diz das fichas dos seus pacientes?
Judd sacudiu a cabea.
- No h nada de importante nelas.
- No est querendo cooperar, no  mesmo, Doutor? 
- Acha que tambm no quero descobrir quem fez uma coisa dessas? Se houvesse qualquer 
coisa nas fichas que pudesse ajudar, eu seria o primeiro a dizer. Conheo bastante bem os meus pacientes. No h nenhum que fosse capaz de fazer uma coisa dessas. 
Tenho certeza de que o crime foi cometido por algum de fora, por um estranho.
- Como sabe que no era algum que estava atrs dos seus arquivos?
- Meus arquivos nem foram tocados, McGreavy
- Como pode saber disso? Nem mesmo olhou.
Judd foi at a parede do outro lado da sala. Apertou a parte inferior do painel e a parede se 
abriu, revelando diversas prateleiras embutidas. Estavam cheias de fitas de gravao.
- Gravo todas as sesses com meus pacientes - explicou Judd. - E guardo as fitas aqui.
- No poderiam ter torturado Carol numa tentativa de obrig-la a dizer onde estavam as fitas?
- No h nada nessas fitas que possa ter algum valor para algum. Certamente ela foi 
assassinada por algum outro motivo.
Judd olhou novamente para o corpo mutilado de Carol e sentiu-se dominado por uma raiva 
cega e impotente.
- Vocs tm que descobrir quem fez isso!
-  justamente o que eu pretendo fazer - disse McGreavy, olhando fixamente para Judd.
Na rua deserta e varrida por um vento frio, em frente ao prdio em que ficava o consultrio 
de Judd, McGreavy disse a Angeli que levasse o mdico de volta para casa.
- Tenho ainda um trabalho a fazer - informou McGreavy, virando-se em seguida para Judd. 
- Boa noite, Doutor.
Judd ficou olhando o vulto corpulento e desajeitado descer a rua rapidamente.
- Vamos indo - disse Angeli. - Estou morrendo de frio.
Judd sentou-se no banco da frente, ao lado de Angeli, que imediatamente deu a partida.
- Tenho de ir falar com a famlia de Carol - disse Judd.
- Ns j estivemos l.
Judd assentiu, cansado. Mesmo assim, ele queria falar com os pais de Carol, mas isso podia 
esperar. Houve um grande silncio. Judd indagou-se sobre qual seria o trabalho que McGreavy teria ido fazer quela hora da madrugada. Como se lesse seus pensamentos, 
Angeli disse:
- McGreavy  um bom polcia. Ele acha sinceramente que Ziffren  merecia a cadeira eltrica 
por ter matado o seu companheiro.
- Ziffren era um desequilibrado mental.
Angeli sacudiu os ombros.
- Aceito a sua palavra, Doutor.
"Mas McGreavy jamais aceitar", pensou Judd. Ele pensou em Carol, recordando a sua 
permanente jovialidade, a sua inteligncia, o seu afeto, o orgulho que ela sentia do seu trabalho. 
Percebeu ento que Angeli estava-lhe dizendo alguma coisa e viu que haviam chegado ao prdio em que morava.
Cinco minutos depois Judd estava em seu apartamento. No havia a menor possibilidade de 
conseguir conciliar o sono. Ele serviu-se de um conhaque e foi para o escritrio. Recordou-se da noite em que Carol ali entrara, nua e linda, esfregando o seu corpo 
quente e flexvel contra o dele. 
Judd bancara o frio e indiferente porque sabia que essa era a nica forma de ajud-la. Mas ela jamais soubera quanta fora de vontade ele tivera que empregar para 
resistir ao desejo. Ou ser que ela compreendera? Judd ergueu o copo e esvaziou-o de um s gole.
O necrotrio municipal parecia igual a qualquer outro necrotrio s trs horas da madrugada. 
A nica diferena  que algum pendurara na porta uma coroa de Natal. "Algum dotado de muito esprito de Natal ou ento com um senso de humor macabro", pensou McGreavy.
Ele esperou impacientemente no corredor at que a autpsia estivesse concluda. Quando o 
legista o chamou, ele entrou na sala de autpsia, toda branca. O legista estava lavando as mos numa pia enorme. Era um homem pequeno, de voz estridente, com movimentos 
rpidos e nervosos. Ele respondeu a todas as perguntas de McGreavy rapidamente, retirando-se logo em seguida. McGreavy ficou ali por mais alguns minutos, absorvido 
no que acabara de saber. Depois saiu para a noite gelada l fora,  procura de um txi. No havia nenhum. "Os desgraados devem estar todos de frias nas Bermudas", 
pensou McGreavy. Mas ele no podia ficar a madrugada inteira ali na rua, at congelar. 
Viu uma radiopatrulha e fez sinal. Mostrou a sua identificao ao soldado que a estava dirigindo e ordenou-lhe que o levasse ao 19 Distrito. Era contra os regulamentos, 
mas que diabo! Afinal, ia ser uma longa noite.
Quando McGreavy entrou na delegacia, Angeli j o estava esperando.
- Eles j acabaram a autpsia de Carol Roberts - informou McGreavy.
- E o que descobriram?
- Ela estava grvida.
Angeli exibiu uma expresso de perplexidade.
- E j de trs meses. Um pouco tarde para um aborto seguro e um pouco cedo para que se 
pudesse notar.
- Acha que isso tem relao com o assassinato dela? - indagou Angeli.
-  uma boa pergunta. Se foi o namorado de Carol que a engravidou e ele pretendia casar-se 
com ela, por que haveria de fazer uma coisa dessas? O nico problema seria terem um filho poucos meses depois do casamento, antes da data que seria natural. Mas 
essas coisas acontecem todos os dias. Por outro lado, se ele a engravidou e no queria se casar... qual o problema? Ela simplesmente teria um filho e no teria marido. 
Isso acontece com mais freqncia ainda.
- Ns conversamos com Chick. Ele queria de fato casar-se com ela.
- Eu sei disso. Assim, o que temos que nos perguntar  onde isso nos deixa. E a resposta  
simples: temos uma garota negra que est grvida, vai procurar o pai da criana e conta-lhe tudo. Ele a mata para proteger-se.
- Mas ele teria de ser um louco para fazer uma coisa dessas!
- Ou muito esperto. Eu fico com a segunda hiptese. Vistas as coisas por este ngulo: Carol 
vai procurar o pai da criana, d a m notcia e diz que no pretende abortar; que vai ter o filho. 
Talvez a inteno dela fosse fazer chantagem, obrig-lo a casar. Mas suponhamos que ele no 
pudesse casar-se com ela, por j ser casado. Ou talvez por ser um branco. Suponhamos que fosse um mdico bastante conhecido, com uma clientela elegante. Se uma coisa 
dessas transpirasse, ele ficaria arruinado. Quem haveria de querer tratar-se com um psicanalista que engravidou a sua recepcionista negra e teve que se casar com 
ela?
- Stevens  mdico - disse Angeli. - Ele poderia t-la matado de uma dzia de maneiras 
diferentes, sem despertar qualquer suspeita.
- Talvez sim, talvez no. Mas se algum desconfiasse, sempre seria possvel chegar at ele. 
Se comprasse veneno, o seu nome estaria registrado. Se comprasse uma corda ou uma faca, sempre se poderia descobrir. Pense agora se ele poderia ter armado um cenrio 
mais inteligente. Aparece um manaco e, sem razo alguma, assassina sua recepcionista. Ele est  vontade para bancar o patro abalado com a tragdia, a exigir da 
polcia que prenda o assassino.
- Acho uma histria meio difcil de acreditar.
- Ainda no acabei. Vamos ver agora o caso do paciente dele, John Hanson. Outro crime sem 
motivo, praticado pelo manaco desconhecido. Sabe de uma coisa, Angeli? Eu no acredito em coincidncias. E duas coincidncias assim, no mesmo dia, deixam-me nervoso. 
Por isso, fiquei me perguntando que relao podia haver entre a morte de John Hanson e a de Carol Roberts e, finalmente, cheguei  concluso de que no houve tanta 
coincidncia assim. Suponhamos que Carol tenha entrado na sala de Stevens e dado a m notcia de que ia ser pai. Tiveram uma briga e ela tentou fazer chantagem. 
Disse que Stevens tinha que se casar, dar-lhe dinheiro, qualquer coisa, enfim. John Hanson estava esperando na sala de recepo, escutando tudo. Talvez Stevens no 
soubesse que ele ouvira a discusso at Hanson se deitar em tal div. Hanson ameaou denunci-lo. Ou tentou lev-lo para a cama.
- Acho que est fazendo suposies demais.
- Mas ser que no v que tudo se ajusta? Quando Hanson saiu, Stevens foi atrs dele e 
liquidou-o para que nada contasse. Depois ele tinha que voltar para livrar-se de Carol. Fez com que parecesse um crime de algum manaco. Foi ento visitar a Sra. 
Hanson e fez um passeio a Connecticut, achando que todos os seus problemas estavam resolvidos. E, enquanto ele fica sentado calmamente, a polcia quebra a cabea 
atrs de algum manaco que simplesmente no existe.
- No aceito essa teoria - disse Angeli. - Est tentando preparar uma acusao de homicdio 
sem ter a menor prova concreta.
- O que voc chama de prova concreta, Angeli? No se esquea de que temos dois cadveres. 
Um deles  o de uma garota grvida que trabalhava para Stevens. O outro  o de um de seus 
pacientes, assassinado a um quarento do consultrio dele. O cara estava se tratando porque era homossexual. Quando pedi a Stevens para ouvir as gravaes das sesses 
que teve com Hanson, ele simplesmente no deixou. Por qu? A quem o Dr. Stevens est querendo proteger? Perguntei-lhe se algum poderia ter arrombado seu consultrio 
 procura de alguma coisa. Talvez pudssemos ento seguir a teoria de que haviam torturado Carol para que ela dissesse onde estava a tal coisa misteriosa. 
Mas lembra-se do que Stevens disse? Que no h nada de misterioso em seu consultrio. Ele no guardava narcticos no consultrio. Nem dinheiro. Portanto, s nos 
resta procurar um manaco. No  isto mesmo? S que eu no concordo com isso. Acho que devemos procurar  o Dr. Judd Stevens.
- Eu acho que voc est querendo agarr-lo de qualquer maneira - disse Angeli calmamente.
O rosto de McGreavey ficou vermelho de raiva.
- Porque eu tenho a certeza de que ele  culpado!
- Vai prend-lo?
- Agora no. Vou dar-lhe primeiro bastante corda. E, enquanto Stevens estiver-se 
enforcando, vou descobrir todos os seus segredos. Quando eu o prender, ningum vai conseguir mais solt-lo.
McGreavy virou-se e afastou-se.
Angeli ficou olhando-o, pensativo. Se ele no tomasse nenhuma providncia, era bem possvel que McGreavy tentasse meter o Dr. Stevens na cadeia de qualquer maneira. 
Ele no podia deixar que isso acontecesse. Angeli disse a si mesmo que, pela manh, conversaria com o Capito Bertelli a esse respeito.


Captulo 4

Os jornais da manh publicaram em manchete o sensacional assassinato de Carol Roberts, 
torturada at a morte. Judd sentiu-se tentado a cancelar todas as consultas que tinha marcado para aquele dia. No se deitara e sentia os olhos pesados e irritados. 
Mas verificou a relao dos pacientes que receberia naquele dia e concluiu que dois ficariam desesperados se cancelasse suas consultas, trs ficariam um tanto transtornados, 
e os outros poderiam agentar sem maiores problemas. Decidiu que era melhor manter a sua rotina normal, em parte pelo bem de seus pacientes, em parte por si mesmo, 
pois seria uma boa terapia tentar manter os pensamentos afastados do que acontecera.
Judd chegou cedo ao consultrio, mas o corredor j estava apinhado de reprteres, pessoal 
de televiso e fotgrafos. Ele recusou-se a deix-los entrar e a fazer declaraes, conseguindo finalmente livrar-se de todos eles. Abriu a porta de sua sala lentamente, 
apreensivo. Mas o tapete manchado de sangue fora removido e tudo recolocado nos devidos lugares. A sala parecia normal. 
S que Carol nunca mais entraria ali novamente sorridente e cheia de vida.
Judd ouviu a porta externa abrir-se. Seu primeiro paciente acabara de chegar.
Harrison Burke era um homem de aparncia distinta, cabelos prateados, o prottipo de um 
executivo dos altos escales. O que na verdade era, pois ocupava o cargo de vice-presidente da Internacional Steel Corporation. Quando Judd se encontrara com Burke 
pela primeira vez, ficara imaginando se fora o executivo que criara a imagem estereotipada ou se a imagem  que criara o executivo. Algum dia ele escreveria um livro 
a respeito das aparncias, como a atitude cordial e ntima do mdico, a exuberncia do advogado no tribunal, o rosto dramtico da atriz. Eram imagens universalmente 
aceites, sempre superficiais, nunca se procurando os valores bsicos.
Burke deitou-se no div e Judd concentrou-se nele. Burke fora-lhe enviado pelo Dr. Peter 
Hadley dois meses atrs. Judd levara apenas dez minutos para verificar que Burke era um paranico, com tendncias homicidas. Os jornais matutinos traziam estampada 
em manchetes a notcia do brutal assassinato que ocorrera ali no consultrio na noite passada, mas Burke no mencionou o assunto. 
O que era tpico do seu estado. Ele estava totalmente absolvido em si mesmo.
- No acreditou no que eu lhe disse antes, mas agora tenho provas concretas de que eles esto 
querendo liquidar-me - disse Burke.
- Pensei que concluamos que no deveramos ser precipitados, Harrison - disse Judd, 
cauteloso. - Lembre-se de que ontem concordamos em que a imaginao pode...
- Mas no  imaginao minha! - gritou Burke.
Ele sentou-se, com os punhos cerrados.
- Eles esto mesmo tentando me matar! 
- Por que no se deita e procura relaxar? - sugeriu Judd, suavemente.
Burke levantou-se bruscamente.
-  tudo o que tem a dizer? Nem mesmo est querendo ouvir as minhas provas!
Seus olhos se estreitaram sombriamente e ele acrescentou:
- E como  que posso saber que o senhor no  um deles?
- Sabe perfeitamente que no sou um deles. Sou seu amigo. Estou tentando ajud-lo.
Judd sentiu um qu de desapontamento. O progresso que pensava terem feito ao longo do 
ltimo ms desaparecera completamente. Ele estava olhando agora para o mesmo paranico aterrorizado que entrara em seu consultrio dois meses antes.
Burke comeara na Internacional Steel como office boy. Em vinte e cinco anos a sua boa 
aparncia e a personalidade afvel haviam-no levado at quase ao alto da escada executiva da 
corporao. Ele chegara a se tornar candidato natural  presidncia. E ento, quatro anos antes, a esposa e os trs filhos tinham morrido num incndio na casa de 
vero da famlia, em Southampton. 
Burke, na ocasio, estava nas Bahamas, com a amante. A tragdia marcou-o mais fundo do que se poderia imaginar. Educado na tradio do catolicismo, Burke no conseguira 
livrar-se do sentimento de culpa. Passara a remoer a tragdia, encontrando-se cada vez menos com os amigos. Passava as noites em casa, revivendo as agonias da esposa 
e filhos, sendo queimados at a morte, enquanto outra parte da mente recordava-lhe que, nesse momento, estava na cama com a amante. Era como um filme, que passava 
repetidamente na tela de sua mente. Ele assumiu toda a culpa pela morte da famlia.  Se estivesse presente, poderia t-los salvo. A idia tornara-se uma obsesso. 
Ele era um monstro! Sabia disso e Deus tambm sabia! E evidentemente muitos outros podiam perceber tambm! 
Deviam odi-lo tanto quanto ele odiava a si mesmo. As pessoas sorriam-lhe e demonstravam-lhe simpatia, mas estavam apenas  espera de que ele se trasse, para poderem 
encurral-lo. Mas ele era mais esperto do que todos os outros. Parou de ir almoar no refeitrio dos executivos, passando a comer na intimidade de sua prpria sala. 
Evitava os outros o mais possvel.
Dois anos antes, quando a companhia precisara de um novo presidente, haviam posto Burke 
de lado e contrataram um executivo de fora. Um ano antes ficara vago o cargo de vice-presidente executivo e novamente haviam passado por cima de Burke e designado 
outro para o lugar. Ele tivera ento todas as provas de que precisava para ter certeza de que havia uma conspirao contra ele. 
Comeou a espionar as pessoas ao seu redor. De noite escondia gravadores nos escritrios dos outros executivos. Seis meses atrs fora apanhado. S no fora despedido 
sumariamente por causa dos muitos anos na companhia e do posto que ocupava.
Querendo ajud-lo e aliviar um pouco da presso que havia em cima de Burke, o presidente 
da companhia reduziu-lhe bastante as atribuies. Mas, em vez de ajudar, isso s serviu para ainda mais convencer Burke de que eles estavam tentando liquid-lo. 
Eles tinham medo dele porque era mais inteligente. Se se tornasse presidente, eles todos iriam perder os seus empregos, porque eram muito estpidos. Comeou a cometer 
erros e mais erros. Quando lhe apontavam esses erros, ele negava, indignado, t-los cometido. Algum estava deliberadamente alterando os seus relatrios, mudando 
as cifras e estatsticas que apresentava, s para desacredit-lo. Logo descobriu que no era apenas as pessoas da companhia que estavam contra ele. Havia tambm 
muitos espies l fora. Era seguido na rua. Interceptavam suas conversas ao telefone, liam-lhe a correspondncia. Tinha receio de comer, porque achava que iam envenenar 
sua comida. Comeou a emagrecer alarmantemente. O preocupado presidente da companhia marcara uma consulta com o Dr. Peter Hadley, e insistira para 
que Burke comparecesse. Depois de meia hora de conversa com Burke, Hadley telefonara para Judd. 
Judd no tinha nenhuma hora disponvel, mas Peter insistira em que o problema era grave e urgente, e ele terminara concordando em aceitar o novo cliente.
E agora Harrison Burke estava deitado no div, com os punhos cerrados.
- Fale-me das provas que descobriu.
- Arrombaram a minha casa ontem  noite. Queriam matar-me. Mas sou mais esperto do que 
eles. Estou dormindo agora no escritrio e instalei trancas duplas nas portas, para que no me possam apanhar.
- Comunicou o arrombamento  polcia?
- Mas  claro que no! A polcia est do lado deles. Tem ordens para atirar em mim. Mas no 
se atrevero a faz-lo enquanto houver outras pessoas por perto. Por isso  que agora fico sempre no meio de uma multido.
- Fico satisfeito de que me tenha dado essa informao.
- O que pretende fazer com ela? - indagou Burke, ansioso.
- Escutei atentamente tudo o que disse. Est tudo aqui na fita gravada. Assim, se o matarem, 
teremos uma prova gravada da conspirao.
Burke se levantou bruscamente, o rosto radiante.
- Por Deus! Isto  timo! Vai realmente dar um jeito neles!
- Por que no se deita novamente? - sugeriu Judd.
Burke assentiu e voltou a acomodar-se no div. Fechou os olhos.
- Estou exausto. H meses que no durmo. No posso dar-me ao luxo de fechar os olhos. 
No faz idia do que significa saber que todo mundo est querendo acabar com a gente.
"Ser que no?", pensou Judd, recordando-se de McGreavy.
- O seu criado ouviu as pessoas que arrombaram a casa?
- Eu no lhe disse? Despedi-o h duas semanas.
Judd repassou rapidamente as duas ltimas sesses com Harrison Burke. Somente trs dias 
antes Burke relatara uma briga que tivera naquele dia com o seu criado particular. Isso significava que a noo de tempo dele estava ficando totalmente desorientada.
- Acho que no falou a esse respeito - disse Judd, sem qualquer nfase. - Tem certeza mesmo 
de que h duas semanas que o mandou embora?
- Eu no cometo erros. Como diabos acha que me tornei  vice-presidente de uma das maiores 
empresas do mundo? Porque tenho uma inteligncia brilhante, Doutor, e no me esqueo de nada.
- Por que o despediu?
- Ele tentou envenenar-me.
- Como?
- Com um prato de ovos com presunto, cheio de arsnico.
- Chegou a provar?
- Mas  claro que no!
- E como sabia que a comida estava envenenada?
- Senti o cheiro do veneno.
- E o que disse ele?
Uma expresso de satisfao se estampou no rosto de Burke.
- Eu no disse coisa alguma. Simplesmente o mandei  merda.
Judd sentiu-se dominado por uma sensao de frustrao. Se tivesse tempo, ele certamente 
poderia ajudar Harrison Burke. Mas o tempo se esgotara. Na psicanlise h sempre o perigo de que, ao impulso da livre associao de idias, a tnue camada que envolve 
o id se rompa e deixe escapar todas as paixes e emoes primitivas que se amontoam no fundo da mente, como bestas selvagens aterrorizadas  espreita, numa noite 
escura. Mas a primeira etapa de tratamento  sempre a de se permitir ao paciente dar vazo a tudo o que tem dentro de si. No caso de Burke, isso atuara como um bumerangue. 
As sesses haviam liberado todas as hostilidades latentes que estavam trancadas em sua mente. Burke parecera melhorar a cada sesso, concordando com Judd em que 
no havia conspirao alguma, que seu nico problema era excesso de trabalho e esgotamento nervoso. Judd pensara que estava levando Burke a um ponto em que poderia 
comear uma anlise profunda, atacando a raiz do problema. Mas Burke estivera simplesmente mentindo o tempo todo. Testando Judd, levando-o a cair em sua prpria 
armadilha, para descobrir se o mdico no era um deles. 
Harrison Burke era uma bomba-relgio que poderia explodir a qualquer momento. No havia nenhum parente prximo a quem se pudesse alertar. Judd deveria ligar para 
o presidente da companhia e comunicar-lhe a sua opinio? Se o fizesse, isso destruiria inteiramente o futuro de Burke. Ele teria que ser internado numa instituio 
para desequilibrados mentais. Mas ser que ele estava certo em seu diagnstico de que Burke era um paranico potencial homicida? Ele gostaria de ter outra opinio 
mdica a esse respeito, mas sabia que Burke jamais consentiria que outro mdico o examinasse. Judd teria de tomar a deciso sozinho.
- Eu gostaria de que me prometesse uma coisa, Harrison.
- Prometer o qu? - indagou Burke, cauteloso.
- Se eles querem apanh-lo, vo querer que voc faa algo violento para poderem ento 
prend-lo... Mas voc  esperto demais para fazer o jogo deles. No importa o quanto o provoquem, quero que me prometa que no far nada contra eles. Dessa maneira, 
no podero toc-lo.
Os olhos de Burke se iluminaram. - Por Deus, voc tem toda a razo! Ento  esse o plano 
deles! Mas somos espertos demais para eles, no  mesmo?
Judd ouviu a porta da sala de recepo se abrir e fechar. Olhou para o relgio. O paciente 
seguinte j chegara. Ele desligou o gravador e disse calmamente:
- Acho que j chega por hoje.
- Gravou tudo o que conversamos? - indagou Burke, ansiosamente.
- Tudo. No h a menor possibilidade de algum atingi-lo agora.
Judd hesitou, mas terminou acrescentando:
- No creio que deva ir ao escritrio hoje. Por que no vai para casa e descansa um pouco?
- No posso - murmurou Burke, a voz impregnada de desespero. - Se eu no aparecer no 
escritrio, vo tirar o meu nome da porta e pr o de algum outro.
Ele se inclinou para Judd e disse baixinho:
- Tome cuidado. Se eles souberem que o senhor  meu amigo, vo tentar peg-lo tambm.
Burke encaminhou-se at  porta que dava diretamente para o corredor. Entreabriu-a e 
espiou para um lado e para outro. Depois saiu rapidamente.
Judd ficou imvel por um momento, amargurado com o que teria de fazer com a vida de 
Harrison Burke. se Burke o tivesse procurado seis meses antes... E ento um pensamento sbito fez com que um calafrio lhe percorresse o corpo. E se Harrison Burke 
j fosse um assassino? Era possvel ele estar envolvido nas mortes de John Hanson e Carol Roberts? Tanto Burke quanto Hanson eram pacientes. Poderiam facilmente 
ter-se encontrado. Por diversas vezes, nos ltimos meses, as consultas de Burke haviam sido depois das de Hanson. E Burke chegara atrasado mais de uma vez. Talvez 
tivesse esbarrado com Hanson no corredor. O fato de ter visto Hanson vrias vezes poderia perfeitamente ter acionado a sua parania, levando-o a pensar que o outro 
o estava seguindo, ameaando-o. Quanto a Carol, Burke vira-a todas s vezes em que estivera no consultrio. Ser que sua mente doentia imaginara alguma ameaa da 
parte dela, que s poderia ser afastada com a morte? 
H quanto tempo Burke estava mentalmente afetado? A esposa e os trs filhos haviam morrido num incndio acidental. Acidental? Judd tinha que descobri-lo, de alguma 
forma.
Ele foi at a porta que dava para a sala de recepo e abriu-a.
- Entre, por favor.
Anne Blake levantou-se graciosamente e avanou com rapidez, com um sorriso afetuoso a 
iluminar-lhe o rosto. Judd sentiu novamente a mesma emoo que o dominara quando a vira pela primeira vez. No experimentara alguma reao emocional profunda por 
uma mulher desde a morte de Elizabeth.
Elas no eram absolutamente parecidas. Elizabeth era loura e mida, de olhos azuis. Anne 
Blake tinha cabelos pretos e olhos violeta deslumbrantes, emoldurados por pestanas compridas e negras. Era alta, com um corpo maravilhoso, cheio e com muitas curvas. 
Aparentava uma inteligncia extraordinria. Sua beleza era clssica, aristocrata, o que faria com que parecesse inacessvel se no fosse pelo brilho dos olhos. A 
voz era baixa e suave, ligeiramente rouca.
Anne tinha vinte e poucos anos. Era, indubitavelmente, a mulher mais bonita que Judd at 
ento vira. Mas fora algo alm da sua beleza que impressionara Judd. Era uma fora quase palpvel que o atraa para ela, alguma reao inexplicvel que o fazia sentir 
como se a conhecesse desde a infncia. O sentimento que ele julgara h muito desaparecido havia novamente aflorado  superfcie, surpreendendo-o por sua intensidade.
Ela aparecera no consultrio de Judd trs semanas antes, sem hora marcada. Carol 
explicara-lhe que ele estava com todas as horas ocupadas e que no podia de maneira alguma aceitar novos pacientes. Mas Anne perguntara calmamente se poderia esperar. 
Ao fim de duas horas de espera, Carol se condoera e a introduzira no gabinete de Judd.
Ele sentira imediatamente uma reao emocional bem forte ao ver Anne, de tal forma que 
no teve idia do que ela disse nos primeiros minutos. Recordava-se de que a convidara a sentar-se e que ela disse seu nome, Anne Blake. Era dona-de-casa. Judd perguntara-lhe 
qual o seu problema. 
Ela hesitara e depois dissera que no sabia. Nem mesmo sabia se tinha de fato um problema. Um mdico amigo dela dissera que Judd era um dos melhores analistas do 
pas. Mas quando Judd indagara qual fora o  mdico,   Anne desconversara. Pelo que Judd sabia, ela podia ter descoberto o nome dele no catlogo telefnico.
Ele tentara explicar que todas as suas horas estavam ocupadas, que no podia aceitar mais 
nenhum paciente. Oferecera-se para recomendar meia dzia de outros bons analistas. Mas Anne insistia em que s queria se tratar com ele e mais nenhum. Ao final, 
Judd acabara acedendo. 
Exteriormente, excetuando-se o fato de que parecia estar sob alguma tenso, Anne aparentara ser perfeitamente normal. Judd conclura que o problema dela deveria 
ser relativamente fcil, podendo ser resolvido sem maiores complicaes. Ele quebrou a regra que se impusera de jamais aceitar um paciente sem a indicao de outro 
mdico e abrira mo da sua hora de almoo para tratar de Anne. 
Nas ltimas trs semanas ela fora ao seu consultrio duas vezes por semana. Judd sabia agora a respeito dela praticamente a mesma coisa que descobrira na primeira 
sesso. Mas sabia algo novo a respeito de si mesmo: estava apaixonado, pela primeira vez desde a morte de Elizabeth.
Na primeira sesso, Judd perguntara-lhe se amava o marido, odiando-se a si mesmo por 
desejar que ela respondesse que no. Mas no fora o que ela respondera:
- Amo, sim. Ele  um timo homem, muito firme.
- Acha que ele representa a figura de seu pai?
Anne fixara nele aqueles incrveis olhos violeta.
- No. Jamais procurei um homem que pudesse ser a imagem de meu pai. Tive uma infncia 
bem feliz.
- Onde nasceu?
- Em Revere, uma cidadezinha perto de Boston.
- Seu pai e sua me ainda so vivos?
- Papai est vivo. Mame morreu de derrame quando eu tinha doze anos.
- Seu pai e sua me tinham um bom relacionamento?
- Tinham. Eram profundamente apaixonados um pelo outro.
" o que transparece em voc", pensara Judd, alegremente. Vendo tanta aberrao, misria 
e sofrimento todos os dias, a presena de Anne era como uma refrescante brisa de primavera.
- Algum irmo ou irm?
- No. Sou filha nica. Fui uma garota mimada.
Ela sorrira, um sorriso franco e cordial, sem qualquer artifcio ou afetao. Anne contara-lhe 
que vivera no exterior com o pai, que era do Departamento de Estado. Quando ele casara novamente e fora viver na Califrnia, ela ficara em Nova York, indo trabalhar 
como intrprete na ONU. Falava fluentemente Francs, Italiano e Espanhol. Conhecera o futuro marido nas Bahamas, aonde fora em frias. Ele era dono de uma firma 
de construo. Anne no se sentira atrada, a princpio, mas ele se mostrara persistente e persuasivo. Dois meses depois de conhec-lo, Anne casara-se com ele. Estava 
agora casada h quase seis meses. Moravam numa casa grande em Nova Jersey.
E isso fora tudo o que Judd conseguira descobrir a respeito dela em meia dzia de sesses. 
Ele ainda no tinha a menor pista para descobrir qual era o problema dela. Anne tinha um bloqueio emocional que a impedia de discuti-lo. Ele se recordava ainda das 
perguntas que fizera nas primeiras sesses.
- O problema que tem envolve o seu marido, Sra. Blake.
No houvera resposta.
- A senhora e seu marido so compatveis fisicamente?
- Somos.
Um constrangimento visvel.
- Desconfia de que ele tem um caso com outra mulher?
- No.
Resposta divertida.
- Tem a senhora por acaso, um romance com outro homem?
- No.
Resposta indignada.
Judd hesitara, procurando a melhor maneira de romper a barreira. Ele se decidira pela tcnica 
do tiro em esmo, abordando todas as categorias principais at sentir que acertara no alvo.
- Discutem por causa de dinheiro?
- No. Ele  um homem extremamente generoso.
- Tm problemas com as respectivas famlias?
- Ele  rfo. E meu pai vive na Califrnia.
- A senhora ou seu marido j foram viciados em drogas?
- No.
- Desconfia de que seu marido seja homossexual?
Uma risada discreta, mas sincera.
- No.
Ele insistira, porque tinha de faz-lo.
- J teve algum relacionamento sexual com outra mulher?
- No.
Um tom de sinceridade na voz dela.
Judd abordara o alcoolismo, frigidez, uma possvel gravidez que ela talvez tivesse medo de 
enfrentar. Falara de tudo o que pudesse pensar. E em todas s vezes ela o fitara com os olhos 
pensativos e inteligentes, sacudindo a cabea negativamente. Sempre que ele se tornara mais 
insistente, ela se esquivava gentilmente:
- Por favor, seja paciente comigo. Vamos fazer as coisas  minha maneira.
Com outro paciente qualquer Judd j teria desistido. Mas ele sentia que precisava de ajud-la. 
E tinha que continuar  a v-la.
Deixara-a falar sobre qualquer assunto que escolhesse. Ela visitara uma dzia de pases com 
o pai e conhecera pessoas fascinantes. Tinha a mente gil e um bom humor inesperado. Judd descobrira que apreciavam os mesmos livros, a mesma msica, as mesmas peas 
teatrais. Ela era cordial e afetuosa, mas Judd jamais percebera qualquer reao a ele, a no ser como mdico. Era uma amarga ironia. Subconscientemente ele vinha 
procurando algum como Anne h anos. E agora que ela surgira na sua vida, ele tinha que resolver o problema que a atormentava, qualquer que fosse, mandando-a de 
volta para o marido.
E, quando Anne entrou naquela manh em sua sala, Judd afastou-se, esperando que ela se 
deitasse no div.
- Hoje no - disse ela calmamente. - Vim apenas ver se podia ajudar em alguma coisa.
Judd fitou-a, sem conseguir falar por um momento. Ele ficara to tenso nos dois ltimos dias 
que a solidariedade inesperada de Anne chegou a irrit-lo. E sentiu um impulso furioso de contar a Anne tudo o que lhe estava acontecendo. Falar-lhe do pesadelo 
que o estava dominando, sobre McGreavy e suas suspeitas idiotas. Mas ele sabia que no poderia faz-lo. Ele era o mdico e ela a paciente. Pior do que isso: ele 
estava apaixonado por Anne e ela era a esposa intocvel de um homem que ele nem conhecia.
Anne estava parada no meio da sala, fitando-o. Judd sacudiu a cabea, sem se sentir confiante 
o bastante para falar qualquer coisa.
- Eu gostava muito de Carol - disse Anne. - Por que algum haveria de querer mat-la?
- No sei.
- A polcia j tem alguma idia de quem foi o assassino?
"Mas claro que sim!", pensou Judd, amargurado. "Se ela soubesse..". Anne continuava a 
fit-lo, curiosa.
- A polcia tem algumas teorias - explicou Judd, vagarosamente.
- Imagino como deve estar se sentindo. Vim apenas para dizer-lhe o quanto lamento o que 
aconteceu. Nem mesmo tinha certeza de encontr-lo hoje no consultrio. 
- Pensei em no vir trabalhar hoje. Mas... aqui estou. E j que ambos estamos aqui, por que 
no conversamos um pouco a seu respeito?
Anne hesitou.
- No estou muito certa de que haja mais alguma coisa sobre que possamos conversar.
Judd sentiu o corao disparar. "Por favor, meu Deus, no deixe que ela diga que nunca mais". 
vou v-la "!".
- Vou para a Europa com meu marido na semana que vem.
- Mas isso  maravilhoso - Judd conseguiu balbuciar.
- Infelizmente desperdicei o seu tempo, Dr. Stevens, e peo-lhe desculpas.
- Ora, no h de qu.
Judd descobriu que estava com a voz rouca. Ela estava saindo de sua vida, o que era terrvel. 
Mas  claro que ela no podia saber disso. Ele estava sendo infantil. Sua mente dizia-lhe isso 
clinicamente, enquanto o estmago sentia uma dor fsica pela partida dela. Para sempre.
Anne abriu a bolsa e tirou algum dinheiro. Ela tinha o hbito de pagar-lhe em dinheiro depois 
de cada sesso, ao contrrio dos demais pacientes, que normalmente lhe enviavam um cheque.
- No - disse Judd rapidamente. - Veio como amiga e eu... lhe sou muito grato por isso.
Judd fez ento algo que nunca fizera antes com nenhum outro paciente.
- Gostaria de que voltasse aqui mais uma vez.
Ela fitou-o em silncio por um instante, com uma expresso serena no rosto.
- Para Qu?
"Porque no posso suportar a idia de permitir que se v to cedo", pensou Judd. "Porque". 
nunca mais encontrarei ningum como voc. Porque a desejo desde da primeira vez em que a vi. Porque eu a amo ". Em voz alta, ele se limitou a dizer":
- Acho que poderamos... deixar tudo esclarecido. Quero certificar-me de que j superou o 
seu problema.
Ela sorriu, brejeiramente.
- Est querendo dizer que quer que eu volte para receber o diploma de formatura?
- Mais ou menos isso. Vai voltar?
- Se quiser...  claro que sim. No lhe dei a menor oportunidade de ajudar-me. Mas sei que 
 um mdico maravilhoso. Se um dia eu precisar de ajuda de verdade, pode ter a certeza que virei procur-lo.
Ela estendeu a mo e Judd apertou-a. Ela tinha um aperto de mo firme e afetuosa. Ele 
tornou a sentir aquela corrente compulsiva que o contato dos dois gerava, admirando-se de ela no sentir coisa alguma.
- Eu virei ento na sexta-feira.
- Est certo.
Judd ficou observando-a sair pela porta que dava para o corredor, e depois afundou-se numa 
poltrona. Ele nunca se sentiu to sozinho em toda a sua vida. Mas no podia ficar sentado ali, sem fazer nada. Tinha que haver uma resposta. E se McGreavy no pretendia 
descobri-la, ele tinha que faz-lo antes que McGreavy o destrusse. O Tenente McGreavy suspeitava de que ele cometera dois assassinatos. Ele no podia provar que 
no os cometera. Podia ser preso a qualquer momento, o que significaria a destruio de sua vida profissional. Alm disso, estava apaixonado por uma mulher casada, 
a quem iria ver s mais uma vez. Esse era o lado negro da situao. Mas havia tambm o lado bom. Judd esforou-se por pensar nos aspectos favorveis. E no encontrou 
absolutamente nenhum.



Captulo 5


O resto do dia se passou como se ele estivesse debaixo dgua. Uns poucos de pacientes 
fizeram referncias  morte de Carol, mas a maioria estava to absorvida em seus prprios egos que no conseguiam pensar em outra coisa alm dos seus problemas pessoais. 
Judd procurou se concentrar,    mas seus pensamentos constantemente se afastavam dos pacientes, em busca das respostas para o que acontecera. Mais tarde ele ouviria 
as gravaes, para verificar o que perdera.
s sete horas da noite, depois de acompanhar o ltimo paciente at  porta, Judd abriu o 
armrio embutido de bebidas e serviu-se de uma dose pura de  scotch. Sentiu um choque ao tom-la, recordando-se subitamente de que no comera coisa alguma ao caf 
nem ao almoo. A idia de comer deixou-o enjoado. Afundou numa poltrona e pensou nos dois crimes. No havia nada nas fichas dos seus pacientes que pudesse levar 
algum a cometer assassinato. Um chantagista talvez pudesse roubar as gravaes. Mas os chantagistas so covardes, aproveitando-se da fraqueza dos outros. Se Carol 
tivesse surpreendido um chantagista arrombando o consultrio e ele resolvesse mat-la, teria agido rapidamente, desferindo um nico golpe. Jamais a teria torturado. 
No, tinha que haver outra explicao.
Judd ficou sentado ali por um longo tempo, repassando lentamente os acontecimentos dos 
dois ltimos dias. Finalmente suspirou e desistiu. Olhou no relgio e ficou surpreso ao descobrir que era to tarde.
Ao sair do consultrio j passava das nove horas. Uma rajada de vento gelado atingiu-o 
quando saiu para a calada. Comeara outra vez a nevar. A neve rodopiava pelo cu, desmanchando os contornos de todas as coisas. A cidade parecia pintada numa tela 
cujas tintas no tinham ainda secado e escorria lentamente, fundindo os edifcios e as ruas nos mesmos tons aguados, brancos e cinzentos. Um grande cartaz branco 
e vermelho, do outro lado da Lexington, anunciava: 
        "FALTAM APENAS 6 DIAS PARA O NATAL". 
"Natal"... Judd afastou seus pensamentos do Natal e comeou a caminhar.
A rua estava deserta,  exceo de um pedestre bem distante, seguindo apressado para casa, 
ao encontro da esposa ou da namorada. Judd descobriu-se procurando imaginar o que Anne estaria fazendo naquele momento. Ela provavelmente estava em casa com o marido, 
conversando sobre o dia no escritrio, interessada, apaixonada. Ou ento eles tinham ido para a cama e... "Pare com isso"!, ordenou Judd a si mesmo.
Como no havia carro algum na rua varrida pelo vento frio, Judd comeou a atravess-la 
antes de chegar  esquina, dirigindo-se para a garagem onde deixara o carro durante o dia. Ao chegar ao meio da rua ouviu um barulho atrs de si e virou-se. Uma 
imensa limusine preta, de faris apagados avanava em sua direo. Parecia que os pneus no conseguiam aderir muito bem ao asfalto, coberto de uma fina camada de 
neve. Estava a menos de trs metros de distncia. "O bbado idiota", pensou Judd. "Est derrapando e vai acabar se matando". Judd virou-se e pulou de volta para 
o meio-fio, onde estaria seguro. A frente do carro virou atrs dele, e o motor foi acelerado. S tarde demais  que Judd compreendeu que o motorista estava deliberadamente 
tentando atropel-lo.
A ltima coisa que se lembrou foi de algo duro batendo em seu peito e de um estrondo que 
parecia o de uma trovoada. A rua escura iluminou-se subitamente de fogos de artifcio, que pareciam explodir dentro de sua cabea. Judd subitamente soube a resposta 
a tudo. Sabia por que John Hanson e Carol Roberts tinham sido assassinados. Teve uma sensao de jbilo. Precisava dizer a McGreavy. 
Mas logo todas as luzes se apagaram e restou apenas o silncio da fria escurido.
Pelo lado de fora, o 19 Distrito parecia um prdio escolar antigo, castigado pelo tempo, de 
tijolos vermelhos, reboco na fachada, as cornijas embranquecidas pelos dejetos de muitas geraes de pombos. O 19 Distrito era responsvel pela manuteno da ordem 
pblica numa vasta rea de Maniatam, da rua 59  rua 86, da Quinta Avenida at o East River.
O telefonema do hospital, informando do atropelamento seguido de fuga do motorista, 
chegou  mesa telefnica da delegacia alguns minutos depois das dez horas da noite, sendo transferido para a sala dos detetives. O 19 Distrito estava enfrentando 
uma noite das mais atarefadas. Por causa do tempo aumentava consideravelmente os nmeros de estrupos e assaltos. As ruas desertas haviam-se transformado numa terra-de-ningum 
congelada, onde os saqueadores se punham  espreita dos infelizes extraviados que se aventurassem por seu territrio.
Quase todos os detetives estavam fora, atendendo a chamados. O nico que se encontrava 
naquele momento na sala dos Detetives era Frank Angeli, que estava interrogando, justamente com um sargento, um suspeito de incndio criminoso.
Foi Angeli que atendeu ao telefone. Era uma enfermeira, que estava cuidando da vtima de 
um atropelamento no hospital municipal. O paciente pedira para falar com o Tenente McGreavy. Mas McGreavy, naquele momento, estava na Sala dos Arquivos. Quando a 
enfermeira disse a Angeli o nome do paciente, ele declarou que iria imediatamente para o hospital.
Angeli estava desligando quando McGreavy entrou. Angeli relatou-lhe rapidamente o 
telefonema.
-  melhor irmos imediatamente para o hospital - disse Angeli.
- Ele no vai sair de l. Antes quero conversar com o capito da delegacia em cuja jurisdio 
ocorreu o acidente.
Angeli ficou observando McGreavy discar. O Capito Bertelli teria falado com McGreavy a 
respeito da conversa que tivera naquela manh com Angeli? A conversa fora breve e incisiva.
- O Tenente McGreavy  um bom polcia - dissera Angeli -, mas tenho a impresso de que 
est influenciado pelo o que aconteceu h cinco anos.
O Capito Bertelli fitou-o longamente, sem nada dizer, com uma expresso fria.
- Est por acaso acusando-o de querer incriminar o Dr. Stevens?
- No o estou acusando de nada, Capito. Achei apenas que o senhor deveria ser informado 
da situao.
- Pois j estou informado.
E a reunio assim se encerrara.
A conversa de McGreavy ao telefone demorou trs minutos. McGravy resmungou por 
diversas vezes e tomou anotaes, enquanto Angeli caminhava impaciente de um lado para outro. 
Dez minutos depois, os dois detetives estavam numa radiopatrulha a caminho do hospital.
A enfermaria de Judd ficava no sexto andar, no final de um longo e sombrio corredor, que 
tinha o cheiro adocicado e enjoativo de todos os hospitais. A enfermeira que telefonara os 
acompanhava at o quarto de Judd.
- Qual  o estado dele, enfermeira? - indagou McGreavy.
- O Doutor  que poder dizer-lhes - falou ela, formalmente.
Logo em seguida, num impulso, acrescentou:
-  um milagre que o homem no tenha sido morto. Possivelmente sofreu uma contuso, tem 
algumas escoriaes nas costelas e o brao esquerdo est machucado.
- Ele est consciente? - indagou Angeli.
- Est. A grande dificuldade  mant-lo na cama.
Ela virou-se ento para McGreavy e acrescentou:
- Ele insiste em falar-lhe de qualquer maneira.
Entraram na enfermaria. Havia l seis camas, todas ocupadas. A enfermeira indicou um leito 
no fundo, cercado por uma cortina. McGreavy e Angeli foram at l.
Judd estava na cama, aconchegado entre muitos travesseiros. O rosto estava plido e na testa 
havia um emplastro adesivo. O brao esquerdo estava numa tipia.
- Soube que sofreu um acidente - disse McGreavy.
- No foi acidente - disse Judd. - Algum tentou matar-me.
A voz era fraca e trmula.
- No sei, mas foi isso mesmo o que aconteceu - respondeu Judd, virando-se depois para 
McGreavy. - Os assassinos no estavam querendo matar John Hanson e Carol Roberts. Eles queriam a mim.
McGreavy ficou surpreso.
- O que o leva a pensar assim?
- Hanson foi morto porque estava usando a minha capa amarela. Devem ter me visto entrando 
no edifcio com a capa. Quando Hanson saiu com ela, pensaram que era eu.
-  possvel - comentou Angeli.
- Claro que  possvel - disse McGreavy. - E, quando descobriram que tinham matado o 
homem errado, eles foram at seu consultrio, rasgaram suas roupas e verificam que o senhor era na realidade, uma linda moa negra. Ficaram ento furiosos e o espancaram 
at a morte.
- Carol foi morta porque a encontraram no lugar onde eu deveria estar - explicou Judd.
McGreavy meteu a mo no bolso do casaco e tirou algumas anotaes.
- Acabei de falar com o capito da delegacia em cuja jurisdio o acidente ocorreu.
- No foi acidente.

- Segundo o relatrio da polcia, Dr. Stevens, o senhor atravessou a rua descuidadamente, 
fora do lugar.
- No havia nenhum carro e por isso...
- Havia um carro - corrigiu Mcgreavy. - S que no o viu. Estava nevando e a visibilidade era 
pssima. O senhor surgiu no meio da rua inesperadamente. O motorista pisou no freio e derrapou, e o carro o atingiu. Ele entrou em pnico e fugiu.
- No foi isso que aconteceu. E, alm do mais, os faris do carro estavam apagados.
- E acha que isso  prova que era o mesmo homem que matou John Hanson e Carol Roberts?
- Algum tentou matar-me - repetiu Judd, insistente.
McGreavy sacudiu a cabea. 
- No vai adiantar nada, Doutor.
- O que no vai adiantar?
- Espera mesmo que eu saia por a  procura de um assassino imaginrio, enquanto o senhor 
fica inteiramente a salvo? 
McGreavy fez uma pausa. Sua voz subitamente spera.
- Sabia que a sua recepcionista estava grvida, Doutor?
Judd fechou os olhos e deixou a cabea afundar novamente nos travesseiros. "Ento era isso". 
que Carol desejava falar-lhe. Ele j imaginava. E agora McGreavy ia pensar "... Judd voltou a abrir os olhos".
- No, eu no sabia.
A cabea de Judd comeou a latejar novamente. A dor estava voltando. Ele engoliu em seco, 
procurando dominar a nusea. Queria chamar a enfermeira, mas no ia dar aquela satisfao a 
McGreavy, de jeito nenhum.
- Andei examinando os arquivos da polcia - disse McGreavy. - Sabe que eu descobri que a 
sua linda recepcionista era uma vigarista antes de ir trabalhar em seu consultrio.
A cabea de Judd passou a latejar ainda mais forte. A dor tornou-se insuportvel.
- Sabia disso, Doutor? No precisa responder. Eu responderei pelo senhor. Sabia sim, porque 
a tirou de um tribunal noturno h quatro anos, quando ela estava sendo julgada por prostituio. 
No acha que  um tanto estranho um mdico respeitvel contratar uma vigarista para ser 
recepcionista de seu elegante consultrio?
- Nenhuma mulher nasce vigarista - disse Judd, com a voz cansada. - Eu estava tentando 
ajudar uma garota de dezesseis anos a ter uma oportunidade na vida.
- E aproveitar para ter tambm um lombo negro  sua disposio, no  mesmo?
- Seu bastardo de mente suja!
McGreavy sorriu, sem qualquer humor.
- Para onde levou Carol depois que a recolheu no tribunal noturno?
- Para o meu apartamento.
- E ela dormiu l?
- Dormiu.
McGreavy sorriu novamente.
-  um homem incrvel, Doutor! Pega uma jovem prostituta bonita e a leva para seu 
apartamento, para passar a noite. O que est procurando? Uma parceira para o xadrez? Se no se deitou com ela, Doutor, ento  porque talvez seja um homossexual. 
E adivinha a quem isso o liga? Isso mesmo, a John Hanson. Se se deitou com Carol, ento  possvel que tenha continuado a lev-la para a cama, at que ela engravidasse. 
E como pode ter o descaramento de ficar deitado a e contar-me uma histria da carochinha sobre um manaco que gosta de atropelar as pessoas e fugir em seguida, 
que se transforma num assassino e sai matando as pessoas a torto e a direito?
McGreavy virou-se bruscamente e saiu da enfermaria, o rosto vermelho de raiva. O latejar 
na cabea de Judd transformara-se numa agonia insuportvel, Angeli observava-o, preocupado.
- Est se sentindo melhor, Doutor?
- Tem que me ajudar! Algum est querendo matar-me!
O apelo soou como um lamento fnebre aos ouvidos de Judd.
- Quem teria motivos para mat-lo, Doutor?
- No sei.
- Tem algum inimigo?
- No.
- Dormiu recentemente com a esposa ou a namorada de algum?
Judd sacudiu a cabea, e no mesmo instante arrependeu-se do movimento.
-  herdeiro provvel de alguma fortuna? Tem parentes que queira tir-lo do caminho?
- No.
Angeli suspirou.
- Ento aparentemente no h motivo algum para que algum queira assassin-lo. E o que me 
diz dos seus pacientes? Acho melhor que nos fornea uma relao, a fim de que possamos investig-lo.
- No posso fazer uma coisa dessas!
- Tudo o que estou pedindo  que nos fornea os nomes deles.
- Lamento, mas no  possvel - disse Judd, falando com imenso esforo. - Se eu fosse um 
dentista ou calista, no haveria o menor problema. Ser que no pode compreender? As pessoas que me procuram tm problemas, alguns bastante srios. Se vocs comearem 
a interrog-las, no apenas iriam deix-las abaladas como tambm destruiriam a confiana que elas depositam em mim. Eu no teria mais condies de trat-las. Por 
isso  que no posso fornecer a relao dos meus pacientes.
Judd voltou a afundar nos travesseiros, exausto. Angeli fitou-o em silncio por um minuto 
antes de perguntar:
- Como se chama o homem que pensa que todo mundo est querendo mat-lo?
- Um paranico.
Judd viu a expresso no rosto de Angeli e acrescentou rapidamente:
- No est pensando que eu...?
- Ponha-se no meu lugar, Doutor. Se eu estivesse agora nessa cama e comeasse a falar-lhe 
do jeito que me est falando, Doutor, o que iria pensar a meu respeito?
Judd fechou os olhos novamente, numa defesa contra as pontadas de dor em sua cabea. 
Ouviu a voz de Angeli acrescentar:
- McGreavy est-me esperando l fora.
Judd abriu os olhos.
- Espere... D-me uma oportunidade de provar que estou dizendo a verdade.
- Como?
- Quem quer que esteja querendo matar-me, ir tentar-lo novamente. Quero que algum polcia 
seja designado para acompanhar-me. Assim poder prender o assassino, em sua prxima tentativa.
- Dr. Stevens, se algum deseja mat-lo, nem todos os polcias do mundo juntos o poderiam 
impedir. Se no o pegar hoje, ir peg-lo amanh. Se no o pegar aqui, ir peg-lo em algum outro lugar. No importa que seja um rei ou um presidente, no importa 
que seja um simples Joo-ningum. A vida  um fio muito curto. Basta uma frao de segundo para romp-lo.
- Ento quer dizer que no h nada, absolutamente nada, que possa fazer?
- Posso-lhe dar alguns conselhos. Ponha fechaduras novas nas portas de seu apartamento, 
verifique sempre se as janelas esto bem trancadas. No deixe ningum entrar em seu apartamento, a menos que o conhea. Nem mesmo entregadores, a no ser que tenha 
encomendado pessoalmente alguma coisa.
Judd assentiu, com a garganta seca e ardendo.
- O prdio em que mora tem porteiro e ascensorista, Doutor. Pode confiar neles?
- O porteiro trabalha no prdio h dez anos, o ascensorista h oito. Eu lhes confiaria a minha 
vida.
Angeli assentiu, aprovadoramente.
- timo. Pea-lhes para ficarem atentos. Assim sendo, ser difcil algum entrar no prdio 
sem ser visto. E o que me diz do consultrio? Pretende contratar uma nova recepcionista?
Judd pensou numa estranha sentada  mesa de Carol e sentiu um tremor de dio impotente 
perpassar-lhe o corpo.
- No imediatamente.
- Talvez pudesse contratar um homem, Doutor.
- Vou pensar no assunto.
Angeli virou-se para sair, mas parou no meio do caminho e disse um tanto hesitante:
- Tenho um a idia, mas  um tiro no escuro.
- E qual ?
Judd odiou a ansiedade que havia em sua voz.
- Esse homem que matou o antigo parceiro de McGreavy...
- Ziffren.
- Ele era realmente desequilibrado?
- Era. Mandaram-no para o hospital Estadual Matteawan, para criminosos desequilibrados.
- Talvez ele o culpe por ter sido enfurnado num hospcio. Vou verificar se ainda est l. 
Telefone-me pela manh.
- Obrigado.
- No precisa agradecer.  meu trabalho. Mas, se o senhor estiver envolvido nesses crimes, 
pode ter a certeza de que ajudarei McGreavy a agarr-lo.
Angeli virou-se para sair, mas parou novamente.
- No precisa dizer a McGreavy que vou verificar se Ziffren ainda est no hospcio.
- Nada direi.
Os dois homens sorriram um para o outro. Angeli partiu. Judd ficou sozinho novamente.
Se a situao era terrvel naquela manh, agora era ainda pior. Judd sabia que j teria sido 
preso por homicdio se fosse por uma coisa: o carter de McGreavy. O detetive queria vingana, to intensamente que pretendia providenciar todas as provas necessrias 
a uma condenao antes de efetuar a priso. "Ser que o seu atropelamento fora, de fato, um acidente?", pensou Judd. "Havia bastante neve na rua e o carro poderia 
ter deslizado acidentalmente, indo atingi-lo. Mas por que ento os faris estavam apagados? E de onde o carro surgira to subitamente"?
Judd estava convencido de que fora atacado por um assassino.... e de que seria atacado 
novamente. E com esse pensamento, adormeceu.
Cedo, na manh seguinte, Peter e Norah Hadley foram ao hospital visitar Judd. Souberam do 
acidente pelos noticirios matutinos. Peter era da idade de Judd, mais baixo e terrivelmente magro. 
Haviam sido criados na mesma cidadezinha do Nebraska e tinham cursado juntos a faculdade de medicina.
Norah era inglesa. Tinha cabelos louros e era rechonchuda, com seios um pouco grandes 
demais para o seu 1,60 metros de altura. Era animada e jovial. Depois de cinco minutos de conversa com ela, as pessoas ficavam com a impresso de que a conheciam 
h muitos anos.
- Voc est com um aspecto horrvel - disse Peter, examinando Judd criticamente.
-  a sua caracterstica que mais aprecio, Doutor: a maneira como conforta os doentes.
A cabea de Judd no latejava mais e a dor do corpo desaparecera quase que completamente. 
Norah entregou-lhe um buqu de cravos.
- Ns lhe trouxemos algumas flores, querido.
Ela inclinou-se e beijou-o no rosto.
- Como aconteceu? - indagou Peter.
Judd hesitou.
- Um carro me atropelou e fugiu em seguida.
- Tudo acontece ao mesmo tempo, no ? Li no jornal o que aconteceu com a pobre Carol.
- Foi terrvel - disse Norah - Eu gostava muito dela.
Judd sentiu um n na garganta.
- Eu tambm gostava.
- H alguma possibilidade de apanhar o desgraado que a matou? - perguntou Peter.
- Eles esto trabalhando no caso.
- O jornal desta manh disse que um tal Tenente McGreavy est prestes a efetuar uma 
priso. Sabe de alguma coisa a esse respeito?
- Mais ou menos - disse Judd secamente. - McGreavyz deu-me algumas informaes.
- Nunca se tem idia de como os polcias so maravilhosos at que se precisa deles - 
comentou Norah.
- O Dr. Harris deixou-me dar uma olhadela nas suas radiografias - disse Peter. - Houve 
algumas escoriaes srias, mas nenhuma fratura. Dentro de poucos dias poder sair daqui.
Judd sabia que no tinha tempo a perder.
Passaram a meia hora seguinte numa conversa superficial, evitando cuidadosamente qualquer 
referncia  morte de Carol Roberts, Perter e Norah no sabiam que John Hanson fora paciente de Judd. Por algum motivo especial, McGreavy no fornecera tal informao 
aos jornais.
Quando eles se levantaram para ir embora, Judd pediu para falar a ss com Peter. Enquanto 
Norah esperava l fora, Judd relatou a Peter as suas concluses a respeito de Harrison Burke.
- Lamento muito, Judd. Quando o encaminhei para vocs, sabia que sua parania estava 
muito avanada, mas esperava que ainda houvesse tempo de ajud-lo.  claro que voc tem de tomar uma providncia imediata. Quando pretende pedir o internamento dele?
- Assim que sair daqui.
Mas Judd sabia que estava mentindo. No queria que Harrison Burke fosse internado 
imediatamente. Ainda no. Queria primeiro descobrir se fora Burke quem cometera os dois 
assassinatos.
- Se houver alguma coisa que eu possa fazer por voc, companheiro,  s telefonar.
Peter saiu do quarto.
Judd ficou deitado, imvel, planeando o que iria fazer. Como no havia nenhum motivo 
racional para que algum quisesse mat-lo, no restava a menor dvida de que os crimes tinham sido cometidos por algum mentalmente desequilibrado, algum que imaginava 
ter motivos de ressentimentos contra ele. As nicas duas pessoas que se enquadravam nessa categoria eram Harrison 
Burke e Ziffren, o homem que matara o companheiro de McGreavy. Se Burke no tivesse um libi para a manh em que Hanson fora assassinado. Judd pediria ao Detetive 
Angeli que investigasse o caso. Se Burke tinha libi, ele ento iria concentrar-se em Ziffren. Judd sentiu que se desvanecia a depresso que o dominava at aquele 
momento. Estava fazendo alguma coisa. Subitamente teve uma vontade desesperada de deixar o hospital.
Tocou a campainha, chamando a enfermeira, a quem disse que desejava falar com o Dr. 
Harris. Dez minutos depois, Seymour Harris entrou no quarto. Era quase um ano, com olhos azuis de um brilho intenso e tufos de cabelo negros nas faces. Judd conhecia-o 
h bastante tempo e sentia por ele o maior respeito.
- Ora, ora, a Bela Adormecida j despertou! Voc est com um aspecto horrvel!
Judd j estava comeando a ficar cansado de ouvir aquela frase. Mentiu deliberadamente:
- Pois estou me sentindo muito bem. E quero sair daqui.
- Quando?
- Agora. O Dr. Harris assumiu uma expresso de censura.
- Voc acaba de ser internado. Por que no fica aqui por alguns dias? Eu lhe mandarei 
algumas enfermeiras ninfomanacas para lhe fazerem companhia.
- Obrigado, Seymour, mas preciso realmente sair daqui.
O Dr. Harris suspirou.
- Est certo. Voc  que  o mdico, Doutor. Pessoalmente, eu no deixaria o meu gato sair 
na rua no estado em que voc est.
Ele lanou um olhar compreensivo para Judd e acrescentou:
- Posso ajudar em alguma coisa?
Judd sacudiu a cabea.
- Vou pedir que lhe tragam as suas roupas.
Trinta minutos depois, a jovem no balco de recepo do hospital chamou um txi para Judd. 
s dez horas e quinze minutos, ele estava de volta ao seu consultrio


Captulo 6


A primeira paciente de Judd para aquele dia, Teri Washburn, estava  espera no corredor. 
Vinte anos atrs, Teri fora uma das maiores estrelas do firmamento de Hollywood. Mas sua carreira malograra da noite para o dia, ela se casara com madeireiro de 
Orgon e sumira. Desde ento, Teri se casara cinco ou seis vezes. No momento vivia em Nova York com seu ltimo marido, um importador. Ela levantou a cabea com uma 
expresso furiosa quando Judd apareceu no corredor.
- Ento...
O discurso de censura que ela ensaiara acabou quando viu o rosto de Judd.
- Mas o que lhe aconteceu, Doutor? Parece ter sido lanado para dentro de uma misturadora 
de cimento.
- Sofri um pequeno acidente. Desculpe o atraso.
Ele abriu a porta e introduziu Teri na sala de recepo. A cadeira e mesa vazias de Carol eram 
como fantasmas a espreit-lo.
- Li a notcia a respeito de Carol - disse Teri, com alguma excitao na voz. - Foi um crime 
sexual?
- No - respondeu Judd bruscamente.
Ele abriu a porta de sua sala e pediu:
- Por favor, d-me dez minutos para resolver alguns problemas urgentes.
Entrou no seu gabinete. Consultou a agenda e comeou a telefonar para diversos pacientes, 
cancelando as consultas para aquele dia. S no conseguiu falar com trs pacientes. O brao e o peito doam a cada movimento, a cabea comeou a latejar novamente. 
Pegou dois comprimidos de Darvan numa gaveta e engoli-os com um copo de gua. Depois foi at  porta da recepo, abriu-a e chamou Teri. Concentrando-se para tirar 
do pensamento tudo que no fossem os problemas de sua paciente, pelos prximos cinqenta minutos. Teri deitou-se no div, a saia levantada. Comeou imediatamente 
a falar.
Vinte anos atrs, Teri Washburn fora uma beldade deslumbrante. Ainda restava alguns 
vestgios dessa beleza. Ela possua os olhos maiores, mais suaves e mais inocentes que Judd j vira em toda a sua vida. Havia algumas rugas nos cantos da boca, mas 
os lbios ainda eram extremamente sensuais. Os seios eram firmes e arredondados por baixo do vestido estampado Pucci, bem justo. 
Judd suspeitava de que ela tomava injees de silicone, mas preferia esperar que ela mencionasse o fato. O resto do corpo de Teri ainda estava em boa forma e as 
pernas eram particularmente deslumbrantes.
Mais cedo ou mais tarde, a maioria das pacientes de Judd julgavam estarem apaixonadas por 
ele. Era a transferncia natural do relacionamento paciente-mdico para  paciente-protetor-amante. 
Mas o caso de Teri era diferente. Desde o primeiro minuto em que entrara em seu consultrio, Teri estava tentando ter um romance com ele. Procurara seduzi-lo por 
todos os meios que conhecia - e Teri era, de fato, perita nessa arte. Judd finalmente advertira-a de que, a menos que se comportasse, teria que encaminh-la a outro 
mdico. Desde ento, Teri vinha-se comportando de forma mais comedida. Procurava sond-lo, descobrir o seu calcanhar-de-aquiles. Um eminente mdico ingls  que 
encaminhara Teri a Judd, depois de um desagradvel escndalo internacional em Antibes. Um colunista francs acusara Teri de passar um fim-de-semana no iate de um 
famoso armador grego, de quem ela estava noiva tendo-se deitado com os trs irmos do armador, enquanto ele voava para Roma a fim de tratar de negcios. O escndalo 
fora rapidamente abafado e o colunista publicara uma 
retratao, sendo em seguida despedido do jornal. Na primeira sesso com Judd, Teri se gabara de que o caso era verdadeiro.
-  incontrolvel - dissera ela. - Sinto necessidade de sexo o tempo todo. Jamais fico 
satisfeita.
Ela esfregara as mos nos quadris, erguendo a saia e fitando Judd com uma expresso 
inocente:
- Entende o que estou querendo dizer, no , querido?
Desde a primeira sesso Judd descobrira muitas coisas a respeito de Teri. Ela nascera numa 
pequena cidade mineira da Pensilvnia.
- Meu pai era um Polaco estpido. Todos os sbados de noite se embriagava e dava uma 
surra na minha me.
Aos treze anos Teri tinha um corpo de mulher e o rosto de um anjo. Descobriu que podia 
ganhar alguns nqueis indo para trs dos depsitos de carvo com os mineiros. No dia em que o pai descobrira, aparecera na pequena cabana em que moravam gritando 
incoerentemente, em polons, expulsando de l a me de Teri. Trancara a porta, tirara o cinto grosso e comeara a espancar Teri. 
Ao acabar, violentara Teri.
Judd ficara em silncio, observando Teri descrever a cena, o rosto desprovido de qualquer 
emoo.
- Foi a ltima vez em que vi o meu pai e a minha me.
- Fugiu de casa, no ?
Teri virara no div, surpresa.
- Como?
- Depois que seu pai a violentou...
- Se eu fugi?
Teri jogara a cabea para trs, rindo a valer.
- Mas eu gostei! Foi a cadela da minha me que me expulsou de casa!
Judd ligou o gravador para iniciar a nova sesso e indagou:
- Sobre o que gostaria de falar?
- De trepar. Por que no o analisamos, Doutor, e descobrimos por que voc  to puro?
Judd ignorou o comentrio.
- Por que acha que a morte de Carol pode ter sido uma agresso sexual?
- Porque tudo me faz pensar em sexo, querido.
Ela remexeu-se no div e a saia levantou-se ainda mais. 
- Abaixe a saia, Teri.
Ela fitou-o com uma expresso inocente.
- Oh, desculpe... Perdeu uma grande festa de aniversrio na noite de sbado, Doutor.
- Fale-me a esse respeito.
Ela hesitou, com uma nota inesperada de preocupao em sua voz:
- No vai detestar-me se eu contar?
- J lhe disse que no precisa de minha aprovao para nada, Teri. A nica pessoa de quem 
deve querer aprovao  de voc mesma. O certo e o errado so regras que fabricamos para 
podermos relacionar-nos com as outras pessoas. Sem regras, no poderia haver tal relacionamento. 
Mas no se esquea de que as regras so artificiais.
Houve um longo silncio.
- Foi uma festa com msica ao vivo. O meu marido contratou um conjunto de seis msicos.
Judd ficou esperando. Ela virou-se para fit-lo.
- Tem certeza que no perder o respeito por mim?
- Quero ajud-la, Teri. Todos ns j fizemos coisas de que nos envergonhamos, mas isso no 
significa que tenhamos de continuar a faz-las.
Teri examinou-o atentamente.
- J lhe disse que desconfiava de que meu marido, Harry,  impotente?
- J.
Ela falava sobre isso constantemente.
- Ele no fez nada comigo desde que nos casamos. Tem sempre alguma desculpa... Pois 
bem...
Ela fez uma pausa, torcendo a boca numa expresso amargurada.
- Pois bem... sbado  noite eu me entreguei a todos os seis msicos, enquanto Harry olhava.
Ela comeou a chorar, Judd entregou-lhe um leno de papel e ficou calado, observando-a.
Ningum jamais dera algo a Teri Washburn sem cobrar bem alto. Ao chegar a Hollywood, 
ela arrumara um emprego de garonete num drive-in, gastando a maior parte do que ganhava com um professor de arte dramtica de terceira classe. Uma semana depois 
o professor convidara-a a morar com ele, obrigando-a a fazer todas as tarefas domsticas e restringindo as aulas ao quarto. 
Algumas semanas depois, Teri compreendera que jamais conseguiria um lugar de atriz daquele jeito, mesmo que o professor quisesse arrum-lo. Deixara-o, ento, e conseguira 
um emprego de caixa na drugstore de um hotel em Beverly Hills. Na vspera do Natal aparecera um executivo da indstria cinematogrfica, querendo comprar um presente 
de ltimo minuto para a esposa. Ele dera o seu carto a Teri, pedindo que lhe telefonasse. Uma semana depois, Teri fazia um teste para o cinema. 
Ela era desajeitada e no tinha a menor experincia, mas trs fatores estavam a seu favor. Possua um rosto e um corpo sensacionais, era extremamente fotognica 
e o executivo tornou-se seu amante.
Teri Washburn aparecera em pequenas pontas numa dzia de filmes, naquele primeiro ano. 
Comeara a receber correspondncia dos fs. Suas partes nos filmes foram aumentando. Um ano depois seu benfeitor morrera de um ataque do corao. Teri ficara com 
medo de que o estdio fosse despedi-la. Em vez disso, porm, o novo executivo a chamara ao seu gabinete e informara que tinha grandes planos para ela. Teri ganhara 
um novo contrato, um salrio maior e um novo apartamento, que tinha um quarto todo espelhado. Os papis de Teri foram aumentando gradativamente, at que ela se tornou 
a estrela principal de filmes de classe B. E, finalmente, com o pblico sempre aumentando as bilheteiras dos seus filmes, Teri Washburn tornara-se uma estrela de 
filmes de classe A.
Tudo isso acontecera muito tempo atrs. E, pensando em todos esses fatos, Judd sentia pena 
dela, ao v-la deitada no div do seu consultrio, soluando.
- Quer um copo de gua, Teri?
- No, obrigada. Eu... eu estou bem.
Ela tirou um leno do bolso e assoou o nariz.
- Desculpe eu ter-me comportado como uma idiota - disse ela, sentando-se.
Judd continuou calado, esperando que ela recuperasse o controlo.
- Por que  que eu me caso com homens como Harry?
-  uma pergunta da maior importncia. Tem alguma idia da resposta?
- Mas como diabo eu posso saber! Voc  que  o psiquiatra e tem que me dizer! Acha que 
se eu soubesse antes como era, iria casar-me com homens como Harry?
- Qual  a sua opinio?
Teri ficou chocada. 
- Est achando que eu me casaria, mesmo que soubesse? - Ela levantou-se, furiosa. - Seu filho 
da puta nojento! Est pensando que eu gostei de trepar com todos os msicos?
- E gostou?
Num acesso de raiva. Teri pegou um vaso e arremessou-o contra Judd. O vaso foi-se espatifar 
em cima da mesa.
- Isso responde  sua pergunta.
- No. Esse vaso custou 200 dlares. Vou pr na sua conta.
Teri fitou-o em silncio por um minuto, desesperada. E finalmente sussurrou:
- Ser que gostei?
- Voc  quem pode dizer.
A voz dela ficou ainda mais baixa.
- Eu devo estar doente. Oh, Deus, como eu devo estar doente! Por favor, Judd, ajude-me!
Judd levantou-se e aproximou-se dela.
- Voc  que tem de ajudar-se a si mesma, Teri.
Ela assentiu, com uma expresso aturdida.
- Quero que v para casa e pense como se sente, Teri. No enquanto est fazendo essas 
coisas, mas antes de faz-las. Pense nos motivos que a levam a ter vontade de faz-las. Quando souber disso, saber uma poro de coisas a respeito de si mesma.
Teri relaxou visivelmente. Tornou a tirar o leno da bolsa e assuou o nariz.
- Voc  um homem maravilhoso, Charlie Brown - disse ela, pegando as luvas e a bolsa. - At 
a prxima semana?
Judd abriu a porta do corredor e Teri saiu. Ele sabia a resposta ao problema de Teri, mas ela 
teria que chegar l por si mesma. Teria que aprender que no se pode comprar o amor, que se trata de uma coisa que tem de ser dada gratuitamente. E Teri no podia 
aceitar esse fato enquanto no comeasse a acreditar que era digna de merecer o amor. At que isso acontecesse, Teri continuaria a procurar comprar o amor, usando 
a moeda de que dispunha: seu corpo. Judd sabia a agonia que ela estava enfrentando, o desespero infinito do auto-desprezo. Sentiu pena dela. Mas a nica maneira 
que tinha de ajud-la era mostrar-se impessoal e indiferente. Judd sabia que, para os seus pacientes, aparentava sempre ser remoto e alheio aos problemas de cada 
um, dispensando a sua sabedoria de uma terapia. Na verdade Judd se preocupava intensamente com os problemas de seus pacientes. Eles ficariam surpresos se soubessem 
com quanta freqncia os demnios que investiam contra os 
baluartes de suas emoes apareciam nos pesadelos de Judd.
Durante os seis primeiros meses de sua carreira com psiquiatra, enquanto se submetia aos 
necessrios dois anos de anlise para se tornar psicanalista, Judd comeara a ter dores de cabea terrveis. Assumira empaticamente os problemas dos seus pacientes 
e levara quase um ano para aprender a canalizar e a controlar o seu envolvimento emocional.
E agora, depois de guardar a gravao da sesso com Teri Wasburn. Judd voltou a 
concentrar-se em seu prprio dilema. Foi at o telefone e discou para as Informaes, pedindo o telefone do 19 Distrito.
A telefonista transferiu a ligao para a Sala dos Detetives. Ele ouviu a voz grave de 
McGreavy ao telefone.
- Tenente McGreavy falando.
- O Detetive Angeli, por gentileza.
- Espere um momento.
McGreavy largou o telefone em cima da mesa. Um momento depois a voz de Angeli soou ao 
telefone:
- Detetive Angeli.
- Judd Stevens. Ser que j tem aquela informao?
Houve um instante de hesitao.
- J verifiquei - disse Angeli cuidadosamente.
- Tudo o que precisa dizer  sim ou no.
O corao de Judd estava disparado. Custou-lhe um grande esforo formular a pergunta 
seguinte:
- Ziffren ainda est em Matteawan?
Pareceu decorrer uma eternidade antes que Angeli respondesse:
- Sim, ele ainda est l.
Uma onda de desapontamento invadiu Judd.
- Entendo...
- Sinto muito.
- De qualquer forma, obrigado.
E, lentamente, Judd desligou.
Assim, s restava Harrison Burke, um paranico irremedivel, que julgava que todos 
querendo mat-lo. Ser que Burke decidira atacar primeiro? John Hanson deixara o consultrio de Judd s 10:50 de segunda-feira sendo assassinado alguns minutos depois. 
Judd precisava descobrir se Harrison Burke estava em seu consultrio nessa ocasio. Ele procurou o telefone de Burke e discou.
- International Steel
A voz possua o timbre remoto e impessoal de um autmato.
- O Sr. Harrison Burke, por gentileza.
- Sr. Harrison Burke... Um momento, por favor
Judd estava contando que a secretria de Burke atendesse ao telefone. Se ela tivesse sado 
por um momento da sala e o prprio Burke atendesse...
- Gabinete do Sr. Burke.
Era voz de mulher.
- Aqui  o Dr. Judd Stevens. Ser que poderia fornecer-me algumas informaes?
- Mas claro que sim, Dr. Stevens!
Havia um tom de alvio na voz dela, misturado com alguma apreenso. Ela devia saber que 
Judd era o analista de Burke. Ser que esperava que Judd a ajudasse? O que Burke teria feito com ela?
-  sobre a conta do Sr. Burke... - comeou Judd.
- A conta?
Ela no fez o menor esforo para disfarar o desapontamento. Judd continuou rapidamente:
- Minha recepcionista foi... no est mais comigo e estou procurando pr tudo em ordem. 
Verifiquei que ela cobrou uma consulta do Sr. Burke s nove e meia da manh da ltima 
segunda-feira e gostaria que visse na agenda dele se realmente veio ao meu consultrio.
- Espere um momento, por favor.
A voz dela era visivelmente desaprovadora. Judd podia adivinhar o que ela estava sentindo. 
O patro estava desmoronando e o analista preocupava-se apenas com o dinheiro que lhe pagava. Ela voltou ao telefone alguns minutos depois.
- Infelizmente a sua recepcionista cometeu um engano, Dr. Stevens. O Sr. Burke no podia 
ter ido ao seu consultrio na manh de segunda-feira.
- Tem certeza? - insistiu Judd. - Est anotado aqui. De nove e meia at...
- No importa o que a sua recepcionista tenha anotado, Dr. Stevens.
Ela estava agora visivelmente irritada com a insensibilidade dele.
- O Sr. Burke passou toda manh de segunda-feira numa reunio de diretoria, que comeou 
s oito horas.
- Ele no poderia ter sado sem ser visto durante uma hora?
- No, Doutor. O Sr. Burke nunca sai do escritrio durante o dia.
O tom de acusao na voz dela era evidente. Ser que no entende que ele est doente? O 
que est fazendo para ajud-lo? 
- Quer que eu chame o Sr. Burke, Doutor?
- No  necessrio. Obrigado.
Judd teve vontade de acrescentar alguma coisa que pudesse tranqiliz-la, mas no havia nada 
que ele pudesse dizer. Por isso, desligou rapidamente.
Judd no tinha mais para onde se virar. Se nem Zifren nem Harrison Burke tinham tentado 
mat-lo... ento no havia mais ningum que tivesse um motivo para faz-lo. Ele estava de volta ao ponto de partida. Alguma pessoa - ou pessoas - assassinaram a 
sua recepcionista e um dos seus pacientes. O seu atropelamento podia ter sido deliberado ou acidental. No momento em que ocorrera, parecera-lhe um ato deliberado. 
Mas, recordando agora o fato imparcialmente, Judd chegou a concluso de que estava bastante perturbado pelos acontecimentos recentes. Poderia ter transformado um 
simples acidente em algo sinistro. A verdade pura e simples  que no havia ningum que tivesse motivos para assassin-lo. Ele possua um excelente relacionamento 
com todos os seus pacientes, no tinha quaisquer problemas nas relaes com os amigos. Ao que soubesse, nunca prejudicara ningum. 
O telefone tocou. Ele imediatamente reconheceu a voz baixa e meio rouca de Anne.
- Est ocupado?
- No. Posso falar.
A voz dela era preocupada.
- Li no jornal que foi atropelado. Quis telefonar-lhe antes, mas no sabia onde encontr-lo.
Judd procurou fazer com que sua voz soasse jovialmente.
- No foi nada srio. Mas servir para fazer com que eu passe a atravessar as ruas com mais 
cuidado.
- Os jornais dizem que o motorista fugiu depois do acidente.
-  verdade.
- Descobriram quem era?
- No. Provavelmente era algum garoto numa farra. 
Numa limusine preta com os faris apagados? 
- Tem certeza? - indagou Anne.
A pergunta apanhou-o de surpresa.
- Como assim?
- No sei muito bem - disse Anne, a voz hesitante. -  que... Carol foi assassinada. E agora 
isso.
Ento ela tambm juntara os acontecimentos.
- At parece... que h um manaco  solta, ao seu redor.
- Se isso  verdade - assegurou Judd - a polcia ir apanh-lo.
- Est correndo algum perigo?
Judd ficou enternecido com a preocupao dela.
-  claro que no.
Houve um silncio constrangedor. Havia tanta coisa que Judd queria dizer, s que no podia. 
Ele no podia confundir um telefonema cordial com outra coisa qualquer. Anne estava demonstrando apenas a preocupao natural de um paciente para com o seu mdico. 
Ela era do tipo que telefonaria para qualquer pessoa conhecida que estivesse em dificuldades. No havia mais nada alm disso.
- Irei v-la na prxima sexta-feira? - indagou Judd.
- Claro.
Havia um tom estranho na voz dela. Ser que pensava em mudar de idia.
- Ento o encontro est confirmado - disse ele rapidamente.
S que no seria um encontro, mas sim uma consulta profissional.
- Est. At l, Dr. Stevens.
- At l, Sra. Blake. Obrigado pelo telefonema. Muito obrigado mesmo.
Ele desligou. E ficou pensando em Anne. Ser que o marido dela tinha idia de como era um 
homem de sorte?
E por falar nisso, como seria o marido dela? Pelo pouco que Anne falara. Judd formara a 
imagem de um homem atraente e atencioso. Era um desportista, inteligente e bem sucedido nos negcios. Doava dinheiro para as artes. Parecia o tipo de homem que Judd 
apreciaria ter como amigo. Em outras circunstncias.
Qual poderia ser o problema de Anne, que ela receava discutir com o marido? Ou com seu 
analista? Em se tratando de uma mulher com o carter de Anne, provavelmente era algum sentimento de culpa originado por um romance que tivera antes ou depois de 
se casar. Judd no podia imagin-la tendo romances ligeiros, que no deixavam marca alguma. Talvez ela lhe contasse tudo na prxima sexta-feira. Quando a veria pela 
ltima vez.
O resto da tarde passou rapidamente. Judd recebeu os poucos pacientes cujas consultas no 
conseguira cancelar. Quando o ltimo partiu, ele pegou a gravao da ltima sesso de Harrison Burke e, enquanto escutava, tomou algumas anotaes.
Ao acabar, desligou o gravador. No havia qualquer alternativa. Tinha que telefonar pela 
manh para o presidente da companhia de Burke e inform-lo do estado de seu vice-presidente. 
Olhou pela janela e ficou surpreso ao ver que a noite j cara. Eram quase oito horas. Agora que no mais estava concentrado em seu trabalho, Judd sentiu-se tenso 
e exausto. As costelas doam e o brao latejava. Iria para casa e tomaria um bom banho quente.
Guardou todas as fitas no armrio embutido na parede. Exceto a de Burke, que trancou 
numa gaveta de uma mesinha lateral. Iria entreg-lo a um psiquiatra designado pelo Tribunal. Vestiu o casaco e estava se encaminhando para a porta quando o telefone 
tocou. Atendeu-o.
- Dr. Stevens falando.
Ningum disse nada. Judd ouviu uma respirao pesada, anasalada.
- Al?
O silncio continuou, Judd desligou. Ficou imvel por um momento, franzindo o rosto. 
Nmero errado, concluiu finalmente. Apagou as luzes do consultrio, trancou as portas e seguiu para o corredor dos elevadores. Todos os ocupantes das outras salas 
h muito que tinham ido embora. Era cedo demais para o pessoal da faxina noturna. Fora Bigelow, o vigia noturno, o prdio estava inteiramente vazio.
Judd foi at os elevadores e apertou o boto. O indicador de andar no se mexeu. Apertou 
novamente o boto. Nada aconteceu.
E, nesse momento, todas as luzes do corredor se apagaram.


Captulo 7


Judd ficou parado diante do elevador. A escurido o envolvia como se fosse algo fsico. 
Sentiu o corao quase parar e, em seguida, disparar. Um medo sbito, atvico, dominou seu corpo. 
Ele tateou nos bolsos,  procura de uma caixa de fsforos. Deixara-a no consultrio. Talvez as luzes estivessem acessas nos andares inferiores. Andando lenta e cautelosamente, 
ele encaminhou-se para a porta que dava para a escada. Abriu-a. A escada tambm estava s escuras.  distncia, l embaixo, viu o feixe de luz de uma lanterna subindo. 
Judd sentiu-se subitamente aliviado. Era Bigelow, o vigia noturno.
- Bigelow! Bigelow! Sou eu, o Dr. Stevens!
Sua voz ricocheteou nas paredes de concreto, ecoando lugrubemente pela escada. A pessoa 
que segurava a lanterna continuou a subir, em silncio, inexoravelmente.
- Quem est a? - gritou Judd.
A nica resposta foi o eco de suas prprias palavras.
E Judd soube subitamente quem estava ali, subindo a escada. Deviam ser pelo menos dois. 
Um cortara a luz, no poro, enquanto o outro bloqueava a escada para impedir a sua fuga.
A luz da lanterna estava chegando perto, apenas dois ou trs andares abaixo. O corpo de Judd 
ficou gelado de medo. O corao batia-lhe descompassadamente, as pernas estavam fracas. Judd virou-se e subiu rapidamente os poucos degraus de volta ao seu andar. 
Abriu a porta e ficou parado, escutando. E se algum estivesse esperando ali em cima, no corredor s escuras?
O som de passos, subindo a escada, estava agora mais perto. A boca seca, Judd virou-se e 
percorreu o corredor escuro. Passou pelos elevadores e comeou a contar as portas. Ao chegar ao seu consultrio, ouviu a porta da escada se abrir novamente. As chaves 
escorregaram dos seus dedos nervosos e caram no cho. Judd tateou freneticamente  procura delas, encontrou-as, abriu a porta da sala de recepo e entrou. Deu 
duas voltas na chave. Ningum podia abrir aquela porta sem uma chave especial.
Ouviu passos que se aproximavam, no corredor l fora. Judd entrou em sua prpria sala e 
apertou o interruptor. Nada aconteceu. No havia luz alguma em todo o prdio. Ele trancou a porta que dava para a sala de recepo e foi at o telefone. Discou para 
a telefonista de auxlio. A campainha tocou trs vezes antes que a telefonista atendesse. Era o nico vnculo de Judd com o mundo exterior. 
- Telefonista,  uma emergncia. Aqui  o Dr. Stevens. Quero falar com o Detetive Frank 
Angeli, no 19 Distrito. Por favor, depressa! - Pois no! O nmero do seu telefone, por favor?
Judd disse-o.
- Um momento por favor.
Judd ouviu algum experimentando a porta que dava do corredor diretamente para a sua 
sala. No poderiam entrar por ali, porque a porta no tinha nenhuma maaneta pelo lado de fora.
- Depressa, telefonista! 
- Um momento, por favor.
A voz da telefonista era impessoal, sem nenhuma pressa. Houve um zumbido na linha e 
depois a telefonista da polcia disse:
- 19 Distrito.
O corao de Judd deu um salto.
- Quero falar com o Detetive Angeli.  urgente!
L fora, no corredor, algo estava acontecendo. Judd podia ouvir os sons de vozes afastadas. 
Algum se juntara ao primeiro homem. O que estariam planeando? Uma voz familiar soou ao telefone:
- O Detetive Angeli no est. Aqui  o companheiro dele, Tenente McGreavy. Pode...
- Aqui  Judd Stevens. Estou em meu consultrio. As luzes esto apagadas e algum est 
tentando arrombar a porta para matar-me!
Houve um silncio profundo do outro lado. Finalmente McGreavy disse:
- Olhe, Doutor, por que no vem at aqui e conversamos...
- Mas no posso ir at a! Algum est tentando assassinar-me!
Houve outro silncio profundo e quase interminvel do outro lado. McGreavy no acreditava 
nele e no ia ajud-lo. Judd ouviu a porta l fora se abrir, em seguida vozes soaram na sala de 
recepo. Eles j estavam na sala de recepo! Eles no teriam podido entrar se no tivessem uma chave. Mas ele podia ouvi-los aproximando-se da porta de sua sala.
A voz de McGreavy estava soando ao telefone, mas Judd nem escutou. Era tarde demais! 
Judd reps o fone no gancho. Agora no tinha mais importncia alguma que McGreavy concordasse em vir. Os assassinos j estavam ali. A vida  um fio muito fino e 
basta uma frao de segundo para romp-lo. O medo que dominara Judd transformou-se numa raiva cega. Ele se recusava a ser trucidado como Carol e John Hanson. Ia 
lutar at o fim. Tateou na escurido em busca de uma possvel arma. Um cinzeiro... um esptula... Eram objetos inteis. Os assassinos estariam com revlveres. Era 
um pesadelo kafkiano. Ele estava sendo condenado sem razo alguma por carrascos sem rostos.
Ouviu-os junto  porta interna da sala de recepo e compreendeu que s lhe restava um ou 
dois minutos de vida. Com uma calma estranha e impessoal, como se fosse o seu prprio paciente, Judd examinou os seus pensamentos finais. Pensou em Anne e uma sensao 
terrvel de perda o dominou. Pensou em seus pacientes e de quanto precisavam dele. Harrisom Burke. Com uma pontada sbita, ele recordou-se de que ainda no dissera 
ao superior de Burke que era preciso intern-lo. Ele deixaria as fitas gravadas onde pudessem ser... O corao de Judd deu um salto. 
Talvez ele tivesse uma arma com que lutar! Ele ouviu a maaneta girando. A porta estava trancada  chave, mas era frgil. Judd tateou na escurido rapidamente, at 
 mesa onde trancara a fita da ltima sesso de Burke. Ouviu o rangido da porta sendo empurrada com fora. Depois ouviu algum mexendo na fechadura. "Por que simplesmente 
no derrubam a porta?", pensou ele. Em algum ponto, no fundo da sua mente, sentiu que a resposta era importante. Mas no tinha tempo para pensar nisso agora. Com 
os dedos trmulos, Judd abriu a gaveta na qual guardara a fita. A presso na porta aumentou, Judd proferiu uma prece rpida, silenciosa. E disse em voz alta:
- Sinto muito as luzes terem-se apagado, Harrison, mas tenho certeza de que daro um jeito 
nisso em poucos minutos. Por que no se deita e procura relaxar?
O barulho na porta cessou subitamente. Judd ajeitou a fita no gravador. Apertou o boto. 
Nada aconteceu. Mas  claro! Toda a energia do prdio fora desligada. Judd ouviu os homens 
recomearem a mexer na fechadura. Sentiu-se desesperado e disse bem alto:
- Assim  melhor. Procure ficar o mais confortvel possvel.
Ele procurou a caixa de fsforos em cima da mesa e acabou encontrando-a. Acendeu um 
fsforo. Havia um boto onde estava escrito bateria. Girou o boto. Apertou novamente o boto de play. Nesse momento houve um sbito clique na fechadura e a porta 
se abriu. A ltima defesa de Judd fora superada!
Judd ficou paralisado, sem coragem de se mexer, o corao batendo forte.
E ento a voz de Burke soou na sala:
- E isso  tudo o que tem a dizer? Nem mesmo est querendo ouvir as minhas provas! Como 
 que posso saber que o senhor no  um deles?
A voz de Judd tambm saiu do gravador:
- Sabe perfeitamente que no sou um deles. Sou seu amigo. Estou tentando ajud-lo... 
Fale-me das provas que descobriu.
- Arrombaram minha casa ontem  noite - disse a voz de Burke. - Queriam matar-me. Mas 
sou mais esperto do que eles. Estou dormindo agora no escritrio e instalei trancas duplas nas portas, para que no possam me apanhar.
Os sons na sala de recepo haviam cessado. A voz de Judd soou novamente:
- Comunicou o arrombamento  polcia?
- Mas  claro que no! A polcia est do lado deles. Tem ordens para atirar em mim. Mas no 
se atrevero a faz-lo enquanto houver outras pessoas por perto. Por isso  que agora fico sempre no meio de uma multido.
- Fico contente de que me tenha dado essa informao.
- O que pretende fazer com ela?
- Escutei atentamente tudo o que disse. Est tudo aqui...
Nesse momento, estourou um brado de alerta na mente de Judd: as prximas palavras na fita 
eram "na fita gravada".
Ele inclinou-se rapidamente para o aparelho e desligou-o, dizendo em voz alta:
- ...na minha mente. E vamos encontrar a melhor maneira de usar essa informao.
No tinha como tocar o gravador novamente, pois no sabia onde se iniciava a frase seguinte. 
Sua nica esperana era de que os homens l fora estivessem de fato convencidos de que estava com um paciente. Mas mesmo que acreditassem, ser que isso iria det-los?
- Caso como esse so mais comuns do que imagina, Harrison - disse Judd.
Ele soltou uma exclamao de impacincia e acrescentou:
- Desejaria que a luz voltasse logo de uma vez. Sei que seu motorista est l embaixo 
esperando e, com certeza, vai subir para ver o que est acontecendo.
Judd ficou imvel, escutando atentamente. Ouviu cochichos na sala de recepo. O que ser 
que eles estavam decidindo? Da rua l embaixo se elevou subitamente o gemido insistente de uma sirene que se aproximava. Os sussurros cessaram. Judd ficou esperando 
pelo rudo da porta externa se fechando, mas nada ouviu. Ser que eles estavam esperando l fora? O gemido de sirene ficou mais forte. Veio para diante do prdio.
E, de repente, todas as luzes se acenderam novamente.


Captulo 8


- Aceita um drinque?
McGreavy sacudiu a cabea com uma expresso carrancuda, examinando Judd. Enquanto 
McGreavy o observava sem fazer qualquer comentrio, Judd serviu-se de uma dose dupla de scotch. 
Suas mos ainda estavam tremendo.  medida que o calor do usque comeou a se espalhar pelo seu corpo, ele foi relaxando.
McGreavy entrara em seu consultrio dois minutos depois de as luzes terem voltado a se 
acender. Com ele estava um impassvel sargento de polcia, que tomava notas taquigrficas das declaraes de Judd.
- Vamos repassar toda a histria, Dr. Stevens - pediu McGreavy.
Judd respirou fundo e ps-se a contar tudo novamente, procurando manter a voz calma e 
baixa:
- Fechei o consultrio e segui para o elevador. As luzes do corredor se apagaram. Achei que 
as luzes dos andares inferiores talvez estivessem funcionando e comecei a descer a escada.
Judd hesitou, revivendo todo o medo que sentira.
- Vi algum subindo a escada com uma lanterna. Gritei-lhe. Pensava que fosse Bigelow, o 
vigia noturno. No era.
- E quem era, ento?
- Eu j lhe disse que no sei. Ningum me respondeu.
- E o que o faz pensar que estavam subindo para mat-lo?
Uma resposta irritada aflorou nos lbios de Judd, mas ele se conteve. Era fundamental que 
McGreavy acreditasse nele.
- Eles me seguiram at aqui.
- Acha que havia dois homens querendo mat-lo?
- Pelo menos dois. Ouvi-os sussurrando na sala de recepo.
- Disse que trancou a porta que dava para o corredor ao entrar na sala de recepo. No foi 
isso mesmo?
- Foi.
- E que, quando entrou aqui nesta sala, trancou a porta que d para a sala de recepo.
- Exatamente.
McGreavy foi at a porta que dava para a sala de recepo.
- Eles tentaram forar a porta?
- No.
Judd recordou-se de que ficara surpreso com isso.
-  preciso uma chave especial para se abrir do corredor a porta da sala de recepo, no ?
Judd hesitou. Sabia aonde McGreavy estava querendo chegar.
- , sim.
- E quem tinha as chaves que abriam aquela porta?
Judd sentiu seu corpo ficar vermelho.
- Carol e eu.
A voz de McGravy era afvel.
- E o pessoal da faxina? Como  que entra aqui?
- Tnhamos um acerto especial. Carol chegava mais cedo trs vezes por semana e deixava o 
pessoal da faxina entrar. Eles acabavam de limpar tudo antes da chegada do meu primeiro paciente.
- Parece-me um tanto inconveniente. Por que no lhes permitia entrar aqui livremente, como 
acontece em todos os outros escritrios?
- Porque os meus arquivos so altamente confidenciais. Prefiro a inconvenincia a ter 
estranhos por aqui, sem ningum de confiana presente.
McGravy olhou para o sargento, para certificar-se de que estava anotando tudo. Satisfeito, 
voltou a concentrar-se em Judd.
- Quando entramos na sala de recepo, a porta estava aberta. No tinha sido arrombada, mas 
sim aberta normalmente.
Judd no disse nada. McGreavy continuou:
- Acabou de dizer-nos que somente o senhor e Carol tinham chaves daquela porta. E ns 
estamos com a chave de Carol. Pense bem, Dr. Stevens. Quem mais tinha uma chave daquela porta?
- Ningum.
- Ento como acha que os homens conseguiram entrar?
Subitamente Judd compreendeu.
- Eles tiraram uma cpia da chave de Carol quando a mataram.
-  possvel - admitiu McGreavy, exibindo um sorriso frio. - Se tiraram mesmo uma cpia, 
vamos encontrar vestgios de parafina na chave. Mandarei fazer um teste no laboratrio.
Judd assentiu. Teve a sensao de obter uma vitria, mas a satisfao foi de curta durao.
- Na sua opinio, Dr. Stevens, dois homens, e vamos admitir por enquanto que no havia 
mulher alguma envolvida, tiraram uma cpia da chave para poderem entrar em seu consultrio e mat-lo. Certo?
- Certo.
- Disse h pouco que trancou a porta interna ao passar para a sua sala. Certo?
- Certo.
A voz de McGreavy era quase humilde:
- Mas encontramos a porta aberta tambm.
- Eles deviam ter tambm uma chave dessa porta.
- E por que no o mataram depois de abri-la?
- Eu j lhe expliquei: eles ouviram as vozes no gravador e...
- Est querendo-me dizer que dois assassinos desesperados prepararam tudo, apagaram as 
luzes, encurralaram-no aqui dentro, conseguiram entrar... e depois sumiram no ar sem tocar num s fio de seu cabelo?
A voz de McGravy tinha um tom inconfundvel de desprezo. Judd sentiu uma raiva fria 
irromper dentro de si.
- O que est querendo dizer?
- Vou trocar em midos, Doutor. No creio que ningum tenha estado aqui e no acredito 
que estejam querendo mat-lo.
- No precisa aceitar a minha palavra to-somente - disse Judd furioso. - E o que me diz das 
luzes? E o que me diz do vigia noturno, Bigelow? - Ele est l no saguo.
O corao de Judd parou por uma batida.
- Morto?
- No estava quando nos abriu a porta. Houve um defeito na casa de fora e Bigelow desceu 
ao poro para concertar. Tinha acabado o servio quando chegamos.
Judd fitou-o por um longo tempo em silncio, completamente aturdido. Finalmente exclamou:
- Oh!
McGreavy encaminhou-se para a porta, acrescentando:
- E faa-me um favor: no me telefone novamente. Pode deixar que eu voltarei a procur-lo.
O sargento fechou seu bloco ruidosamente e acompanhou-o.
Os efeitos do usque se dissiparam. A euforia desapareceu e Judd mergulhou numa profunda 
depresso. No tinha a menor idia do que fazer agora. Estava mergulhado num quebra-cabeas que no tinha nenhuma chave para ser decifrado. Sentia-se como um garoto 
que gritava "lobo". S que os lobos eram fantasmas mortais e invisveis, que pareciam desaparecer toda vez que McGreavy se aproximava. Fantasmas ou... Havia uma 
outra possibilidade. Era to terrvel que Judd no podia sequer admiti-la. Mas precisava faz-lo.
Tinha que enfrentar a possibilidade de ele ser um paranico.
Uma mente excessivamente tensa pode gerar iluses que lhe parecem reais. Ele andava 
trabalhando demais! H anos que no tirara frias! Era bem possvel que as mortes de Hanson e Carol tivesse sido o agente catalizador que empurrara sua mente em 
algum precipcio emocional, no qual os fatos mais insignificantes assumem propores extremas e despropositadas. As pessoas que sofrem de parania vivem num mundo 
em que as coisas comuns do cotidiano constituem terrores incrveis. O acidente com o carro, por exemplo. Se fosse uma tentativa deliberada de mat-lo, o motorista 
do carro certamente teria saltado para se certificar de que o trabalho fora feito. E os dois homens que haviam aparecido ali naquela noite. Ele nem sequer se apercebeu 
se eles estavam armados. A primeira suposio de um paranico no seria a de que tinham vindo mat-lo? O mais lgico seria imaginar que eram apenas ladres. Ao ouvirem 
as vozes em sua sala, tinham tratado de fugir. Se fossem mesmo assassinos, teriam escancarado a porta e tratado de mat-lo. Mas como ele podia descobrir a verdade? 
Judd sabia que era intil apelar novamente  polcia. No havia ningum a quem pudesse recorrer...
Uma idia comeou a tomar forma em sua mente. Era uma conseqncia do seu desespero. 
Mas, quanto mais a examinava, mais achava que no tinha outra sada. Pegou o catlogo telefnico e comeou a folhear as pginas amarelas.


Captulo 9 


s quatro horas da tarde do dia seguinte Judd deixou seu consultrio e seguiu para um 
endereo no West Side. Era uma casa de apartamentos antiga e decadente, escurecida pelo passar do tempo. Ao parar o carro em frente ao prdio, Judd comeou a sentir 
apreenses. Talvez tivesse anotado o endereo errado. Mas logo uma placa numa janela do primeiro andar chamou sua ateno:

NORMAN Z. MOODY
Investigador Particular
Satisfao Garantida

Judd saltou do carro. Era um dia frio, com muito vento, anunciando a neve que no tardaria 
a cair. Ele atravessou rapidamente a calada gelada e entrou no vestbulo do prdio.
O lugar tinha o cheiro ranoso de muitas refeies cozinhadas e de urina. Judd apertou o 
boto marcado "Norman Z. Moody - 1". Um momento depois soou uma campainha. Ele passou para um corredor escuro e logo encontrou o apartamento 1. Uma placa na porta 
dizia:

MORMAN Z. MOODY
Investigador Particular
TOQUE A CAMPAINHA E ENTRE

Judd tocou a campainha e entrou.
Evidentemente Moody no era um homem dado a gastar dinheiros com luxos desnecessrios. 
O escritrio parecia ter sido mobiliado por um rato do campo, desses que gostam de pegar e guardar tudo o que se encontra, cego e com um problema de tireide. Bugigangas 
se acumulavam em todos os centmetros disponveis na sala. A um canto havia um biombo japons, bastante avariado. Perto, um abajur de p empilhado e, em frente, 
uma mesa escalavrada no estilo dinamarqus moderno. 
Jornais e revistas velhas estavam empilhados por toda a parte.
Subitamente abriu-se uma porta interna e Norman Z. Moody apareceu. Ele devia ter cerca 
de 1,65 metros de altura e pesava aproximadamente 150 quilos. Sacudia-se todo ao andar fazendo Judd pensar num Buda animado. O rosto era redondo e jovial, com olhos 
azuis grandes, claros e francos. Era totalmente calvo e sua cabea tinha um formato de ovo. Era impossvel definir-lhe a idade.
- Sr. Stevenson?
- Dr. Stevens.
- Sente-se, sente-se.
Buda com um sotaque arrastado dos sulistas.
Judd olhou em redor, procurando um lugar onde sentar-se. Removeu uma pilha de revistas 
de mudismo e de aperfeioamento corporal de cima de uma poltrona de couro de aspecto 
escrofuloso, com muitas tiras rasgadas, e sentou-se cautelosamente.
Moody sentou seu corpo imenso numa cadeira de balano de tamanho descomunal.
- Muito bem... O que posso fazer pelo senhor?
Judd compreendeu que cometera um erro. Pelo telefone, fornecera seu nome completo a 
Moody. Um nome que estivera nas primeiras pginas de todos os jornais de Nova York nos ltimos dias. E conseguira escolher o nico detetive particular de toda a 
cidade que ainda no ouvira falar nele. Judd procurou rapidamente algum pretexto para sair dali imediatamente.
- Quem me recomendou?
Judd hesitou, no querendo ofend-lo.
- Encontrei seu nome nas pginas amarelas.
Moody riu.
- No sei o que faria sem as pginas amarelas. A maior inveno do mundo desde o usque 
de milho.
Ele soltou outra risadinha brusca. Judd levantou-se. No havia a menor dvida de que estava 
mesmo tratando com um idiota completo.
- Lamento ter tomado o seu tempo, Sr. Moody. Gostaria de pensar mais um pouco antes de...
- Claro que compreendo. Mas ter que me pagar pela entrevista.
- No h problema.
Judd meteu a mo no bolso e tirou algumas notas.
- Quanto ?
- Cinqenta dlares.
- Cinqenta...?
Judd engoliu em seco, furioso, mas separou algumas notas e colocou-as na mo de Moody, 
que contou o dinheiro cuidadosamente.
- Muito obrigado - disse Moody.
Judd encaminhou-se para a porta, sentindo-se um tolo.
- Doutor...
Judd virou-se, Moody estava sorrindo, com uma expresso benevolente, enfiando o dinheiro 
no bolsinho do colete.
- J que gastou os seus cinqenta dlares, poderia muito bem sentar-se de novo e contar-me 
o seu problema. Eu sempre digo que nada alivia mais que pr para fora as coisas que nos esto oprimindo.
A ironia da observao, partindo daquele gordo tolo, quase fez Judd rir. Ele devotaria toda 
a sua vida a ouvir as pessoas que estavam precisando desabafar. O que tinha a perder? Talvez 
conversar com um estranho pudesse ajudar. Lentamente ele voltou para a poltrona e sentou-se.
- Parece que est carregando todo o peso do mundo, Doutor. Eu sempre digo que quatro 
ombros valem mais do que dois.
Judd no tinha muita certeza de quantos aforismos de Moody conseguiria suportar. Moody 
observava-o atentamente.
- O que o trouxe aqui, Doutor? Mulheres? Ou dinheiro? Eu sempre digo que, removendo-se 
as mulheres e o dinheiro, quase todos os problemas do mundo esto resolvidos.
Moody continuou a olhar para Judd, esperando por uma resposta.
- Eu... eu acho que algum est querendo matar-me.
Os olhos azuis piscaram.
- Acha?
Judd ignorou a pergunta.
- Talvez pudesse fornecer-me o nome de algum especializado na investigao desse tipo de 
coisas.
- Mas  claro que posso: Norman Z. Moody. O melhor do pas.
Judd suspirou de desespero.
- Por que no me conta tudo, Doutor? Vamos ver se duas cabeas juntas conseguem pensar 
melhor.
Judd no conseguiu conter o sorriso. Moody parecia-se tanto com ele prprio! "Apenas". 
deite-se e diga qualquer coisa que lhe passe pela cabea ". Por que no? Judd respirou fundo e". 
relatou a Moody, o mais concisamente possvel, os acontecimentos dos ltimos dias. Ele estava, na realidade, falando para si mesmo, traduzindo em palavras todas 
as coisas atordoantes que haviam ocorrido. Evitou cuidadosamente qualquer referncia s suas apreenses a respeito da sua prpria sanidade mental. Quando Judd acabou, 
Moody fitou-o com uma expresso jovial.
- Est com um problema e tanto, Doutor. Ou algum est mesmo querendo mat-lo ou ento 
o senhor est com medo de se transformar num paranico esquizofrnico.
Judd ficou surpreso. Tinha que reconhecer que Norman Z. Moody marcara o primeiro ponto.
- Disse que h dois detetives trabalhando no caso, Doutor. Lembra-se dos nomes deles?
Judd hesitou. Estava relutante em se comprometer mais a fundo com aquele homem gordo. 
Tudo o que realmente queria agora era sair dali. Mas acabou dizendo:
- Frank Angeli e Tenente McGreavy.
Houve uma mudana quase imperceptvel na expresso de Moody.
- Que razo algum poderia ter para mat-lo, Doutor?
- No tenho a menor idia. Pelo que sei, no tenho nenhum inimigo.
- Ora, deixe disso. Todo mundo tem inimigos. Eu sempre digo que os inimigos so o sal do 
po da vida.
Judd procurou no estremecer.
- Casado?
- No.
-  bicha, por acaso?
Judd suspirou.
- Escute, j conversei tudo isso com a polcia e...
- Eu sei. S que agora est-me pagando para ajud-lo - disse Moody, imperturbvel. - Deve 
dinheiro a algum?
- S as contas mensais normais.
- O que me diz dos seus pacientes?
- O que deseja saber a respeito deles?
- Eu sempre digo que, quando se quer encontrar conchas  preciso ir  praia. Seus pacientes 
so todos pirados, no  mesmo?
- No - disse Judd rispidamente. - So pessoas com problemas.
- Problemas emocionais que no podem resolver sozinhos. Algum deles poderia ter algo 
contra o senhor? No me estou referindo a um motivo real de queixa, mas talvez algum alimente um ressentimento imaginrio.
-  possvel. S que a maioria dos meus pacientes est-se tratando comigo h um ano ou 
mais. E nesse tempo pude conhec-los to bem quanto um ser humano pode conhecer a outro.
- Eles nunca ficam com raiva do senhor? - indagou Moody, com uma expresso inocente.
- Algumas vezes. Mas no estamos procurando algum que possa ter raiva de mim e sim um 
paranico homicida que j matou pelo menos duas pessoas e fez mais de uma tentativa para me matar.
Judd hesitou, mas depois viu-se obrigado a acrescentar:
- Se eu tenho um paciente nessas condies e no sei, ento o senhor est olhando para mais 
um incompetente psicanalista que j existiu.
Judd ergueu os olhos e viu que Moody o examinava atentamente.
- Eu sempre digo que devemos tratar primeiro das coisas que vm em primeiro lugar - disse 
Moody, jovialmente. - E a primeira coisa que temos de descobrir  se algum est mesmo tentando liquid-lo ou se o senhor est ficando maluco. No  mesmo, Doutor?
Ele abriu um sorriso largo, que iluminava qualquer possibilidade de insulto em suas palavras.
- E como vamos descobrir?
-  bem simples, Doutor. Seu problema  que est rebatendo bolas que descrevem uma curva 
e no sabe se h algum que as lana. Em primeiro lugar, vamos descobrir se est mesmo havendo um jogo. Depois descobriremos quem so os jogadores. Tem carro?
- Tenho.
Judd j esquecera completamente a idia de sair dali e ir procurar outro detetive particular. 
Sentia agora que, por baixo do rosto inocente e afvel de Moody e de suas mximas de algibeira havia uma capacidade tranqila e inteligente.
- Acho que est com os nervos abalados, Doutor. Quero que tire uns dias de frias.
- Quando?
- A partir de amanh.
- Mas isso  impossvel! Tenho pacientes marcados e...
Moody interrompeu-o:
- Cancele todas as consultas.
- Mas de que vai adiantar...
- Eu por acaso lhe digo como deve cuidar dos seus negcios? Quando sair daqui, quero que 
v direto a uma agncia de viagens. Pea que lhe faam uma reserva...
Moody pensou por um momento antes de continuar:
- ...No Grossinger's.  uma bela viagem de carro atravs das montanhas Catskills. O prdio 
em que mora tem garagem?
- Tem.
- Pois ento pea que preparem seu carro para a viagem. No v querer enguiar no meio do 
caminho!
- No posso deixar para a prxima semana? Amanh tenho um dia cheio...
- Depois que fizer a reserva, v direto para seu consultrio e ligue para todos os seus 
pacientes. Diga-lhes que se trata de uma emergncia e que estar de volta dentro de uma semana.
- Mas no posso realmente fazer isso.  fora de...
-  melhor telefonar para Angeli. No quero que a polcia comece a procur-lo depois de 
partir.
- Mas por que tenho de viajar?
- Para proteger os seus cinqenta dlares. O que me faz lembrar de uma coisa: vou precisar 
de mais duzentos como sinal. Cobro cinqenta dlares por dia mais as despesas.
Moody ergueu o corpo imenso da cadeira de balano.
- Quero que saia bem cedo amanh, para que chegue antes do anoitecer. Pode partir por volta 
das sete horas da manh?
- Creio que sim. O que irei encontrar quando chegar l em cima?
- Com um pouco de sorte, talvez consiga marcar um ponto no jogo em que est metido.
Cinco minutos depois, Judd voltava a seu carro, pensativo. Dissera a Moody que no poderia 
partir assim de repente, cancelando as consultas com to pouca antecedncia. Mas sabia que era exatamente isso o que iria fazer. Estava literalmente pondo a sua 
vida nas mos daquele falstaff do mundo da investigao particular. Ao arrancar, ele olhou novamente para a placa que estava pendurada na janela: 
"SATISFAO GARANTIDA". 
" bom que seja mesmo", pensou Judd, sombriamente.
Os planos para a viagem foram executados sem qualquer contratempo. Judd parou numa 
agncia de viagens de Madison Avenue. Reservaram-lhe um quarto no Grossinger's e forneceram-lhe um mapa rodovirio da regio e diversos folhetos coloridos sobre 
as montanhas Catskills. Em seguida ele ligou para o servio de recados telefnicos e pediu que telefonassem para todos os pacientes e cancelassem as consultas, at 
nova comunicao. Depois telefonou para o 19 Distrito e pediu para falar com o Detetive Angeli.
- Angeli est em casa, doente - disse uma voz impessoal. - Quer o nmero da casa dele?
- Quero.
Momentos depois, Judd estava falando com Angeli. Pela voz dele, devia estar com um 
tremendo resfriado.
- Cheguei  concluso que estou precisando sair da cidade por alguns dias - disse Judd. - Vou 
partir amanh de manh. Mas antes queria inform-lo.
Houve um silncio prolongado do outro lado, enquanto Angeli pensava no assunto.
- At que no  m idia, Doutor. Para onde pretende ir?
- Pensei em ficar no Grossinger's.
- Est certo. No se preocupe. Resolverei tudo com McGreavy.
Angeli hesitou por um instante.
- J soube o que aconteceu em seu consultrio ontem  noite.
- Est querendo dizer que ouviu a verso de McGreavy, no ? - Conseguiu ver os dois 
homens que tentaram mat-lo?
"Ento pelo menos Angeli acreditava nele".
- No.
- No h o que possa dizer para ajudar-nos a encontr-los? Cor, idade, altura?
- Lamento, mas no vi nada. Estava tudo escuro.
Angeli fungou.
- Est bem. Continuarei a procurar. Talvez eu j tenha alguma notcia quando voltar. Tome 
cuidado, Doutor.
- Certo - disse Judd, agradecido, desligou logo.
Em seguida, ele telefonou para o presidente da companhia em que Burke trabalhava e 
explicou-lhe rapidamente a situao. No havia outra alternativa seno intern-lo o mais depressa possvel. Judd ligou depois para Peter, explicou-lhe que tinha 
de sair da cidade por uma semana e pediu-lhe que tomasse as providncias necessrias com relao a Burke. Peter concordou.
As cartas estavam na mesa.
O que mais perturbava Judd era que no podia ver Anne na prxima sexta-feira. Talvez nunca 
mais tornasse a v-la.
Judd pensou em Norman Z. Moody ao voltar para seu apartamento. Tinha a impresso que 
sabia qual o plano de Moody. Fazendo com que Judd comunicasse a todos os seus pacientes que estava de partida, Moody queria certificar-se de que, se um deles fosse 
o assassino, e se  que existisse mesmo um assassino, ele iria ser atacado. Tratava-se de uma armadilha. E o prprio Judd era a isca.
Moody determinara que ele deixasse o endereo para onde estava indo com seu servio de 
recados telefnicos e com o porteiro do prdio em que morava. Era para que todos pudessem saber onde Judd se encontrava.
Quando Judd estacionou diante do seu prdio, Mike estava parado ali para cumpriment-lo.
- Vou viajar amanh de manh, Mike. Poderia pedir que preparassem o carro e enchessem o 
tanque?
- Pode deixar que eu cuido de tudo, Dr. Stevens. A que horas vai precisar do carro?
- Pretendo sair s sete horas da manh.
Judd sentiu que Mike o observava enquanto entrava no prdio. Subiu para o seu apartamento 
e trancou todas as portas, verificando cuidadosamente as janelas. Tudo parecia estar em ordem.
Tomou duas plulas de codena, despiu-se e entrou num banho quente, massageando 
cuidadosamente o corpo dolorido, sentindo que as tenses iam-se esvaindo das costas e do pescoo. 
Ficou por muito tempo estendido na banheira cheia de gua quente, pensando. Por que Moody o alertara para providenciar a fim de que o carro no enguiasse na estrada? 
Porque seria o local mais provvel para atacarem-no, em algum ponto da estrada deserta nas Catskills? E o que Moody poderia fazer se Judd fosse ento atacado? Moody 
recusara-se a lhe contar qual era o seu plano - se  que tinha algum plano. Quanto mais Judd pensava no caso, mais convencido ficava de que estava indo direto para 
uma armadilha. Moody dissera que estava armando para os perseguidores de Judd. Mas no importava quantas vezes Judd assim o dissesse a si mesmo, a resposta parecia 
ser sempre a mesma: a armadilha parecia preparada para apanh-lo. Mas por qu? Que interesse Moody poderia ter em v-lo morto? "Meu Deus", continuou pensando Judd, 
"escolhi um nome ao acaso nas pginas amarelas do Catlogo Telefnico de Manhattam e j estou comeando a pensar que ele quer que eu seja assassinado! Sou de fato 
um paranico"!
Ele sentiu que os olhos comeavam a se fechar. As plulas e o banho quente haviam atuado 
eficientemente. Cansado, ele saiu da banheira, enxugou cuidadosamente o corpo dolorido com uma toalha felpuda e vestiu um pijama. Foi para a cama e fixou o relgio 
eltrico para despertar as seis da manh. E caiu na cama num sono profundo de exausto .
Judd acordou instantaneamente quando o despertador tocou, s seis horas da manh. E, como 
se no houvesse decorrido tempo algum, seu primeiro pensamento foi: "No acredito numa srie de coincidncias e no creio que um dos meus pacientes seja um manaco 
homicida. Portanto, ou sou um paranico ou estou-me tornando um". O que ele precisava era de consultar outro psicanalista. 
Telefonaria para o Dr. Robbie. Sabia que isso significaria o fim de sua carreira profissional, mas no havia outra alternativa. Se estava sofrendo de parania, teria 
que ser internado. Ser que Moody desconfiava de que estava tratando com um desequilibrado mental? Ser que fora por isso que sugeria que tirasse uma semana de frias? 
No porque pensasse que algum estava querendo matar Judd, mas porque estava vendo todos os sinais de um colapso nervoso? Talvez a melhor coisa a fazer fosse mesmo 
aceitar o conselho de Moody e passar alguns dias nas Catskills. Sozinho, sem nenhuma das presses que o estavam atormentando, ele poderia avaliar a si mesmo com 
toda a calma, procurar descobrir quando a sua mente comeara a engan-lo, quando comeara a perder o contato com a realidade. Quando voltasse, marcaria uma consulta 
com o Dr. Robbie e entregar-se-ia aos seus cuidados.
Foi uma deciso difcil, mas Judd sentiu-se melhor depois de tom-la. Vestiu-se, arrumou uma mala com roupas suficientes para cinco dias e depois foi para o elevador.
Eddie ainda no entrara de servio e o elevador estava ligado ao automtico. Judd desceu at 
a garagem, no subsolo. Procurou Wilt, o garagista, mas ele no estava por ali. A garagem estava deserta.
Judd localizou o seu carro estacionado a um canto, encostado na parede de cimento. Foi at 
l, ps a valise no banco de trs, abriu a porta da frente e sentou-se ao volante. Ao estender a mo para a chave de ignio um homem surgiu ao lado do carro, como 
que materializado no ar. O corao de Judd disparou.
-  bastante pontual, Doutor.
Era Moody.
- No sabia que viria desejar-me boa viagem.
O rosto de Moody se iluminou. Suas feies de querubim se abriram num sorriso largo.
- Eu no tinha coisa melhor para fazer e no consegui dormir.
Judd sentiu-se subitamente agradecido pela maneira hbil como Moody estava controlando 
a situao. Ele no fizera qualquer referncia ao provvel desequilbrio mental de Judd, insinuando apenas que ele fosse para as montanhas e descansasse um pouco. 
Logo, o mnimo que Judd poderia fazer era continuar a aparentar que estava tudo normal.
- Cheguei  concluso de que estava certo e vou at as Catskills para ver se consigo marcar 
um ponto no jogo.
- No precisa ir a lugar nenhum para isso, Doutor. O ponto j foi marcado.
Judd fitou-o com uma expresso aturdida.
- No estou entendendo...
-  simples. Eu sempre digo que se deve comear a cavar quando se quer chegar ao fundo 
de alguma coisa.
- Sr. Moody...
Moody apoiou-se na porta do carro.
- Sabe o que me estava despertando curiosidade em seu probleminha, Doutor?  que parecia 
que a cada cinco minutos algum estava tentando mat-lo... talvez. E esse "talvez" me fascinava. No havia nada que pudssemos fazer enquanto no descobrssemos 
se algum estava realmente querendo transform-lo num cadver ou se simplesmente o senhor estava ficando maluco.
- Mas as Catskillls... - disse Judd, debilmente.
- Ora, Doutor, Jamais pensei que fosse mesmo para as Catskills.
Moody abriu a porta do carro.
- Saia, Doutor.
Aturdido, Judd saiu do carro.
- A viagem foi apenas publicidade. Eu sempre digo que  preciso jogar sangue na gua 
primeiro quando se quer apanhar um tubaro.
Judd continuava a fit-lo, sem entender nada.
- Infelizmente nunca conseguiria chegar s Catskills - disse Moody, gentilmente.
Ele foi at a frente do carro e levantou o cap. Judd prostrou-se ao seu lado. Havia trs 
bastes de dinamite ligados ao distribuidor. Dois fios soltos pendiam da ignio.
- Ia explodir assim que ligasse o carro - disse Moody.
- Mas como pde...
Moody sorriu.
- Eu j lhe disse que sou dado a insnia. Cheguei aqui por volta da meia-noite. Dei algum 
dinheiro ao vigia noturno para sair, e divertir-se um pouco e fiquei esperando nas sombras. E vou ter que dar mais vinte dlares ao vigia noturno. No quis que o 
negcio sasse barato.
Judd sentiu uma afeio sbita por aquele homem gordo.
- E viu quem foi?
- No. Colocaram a dinamite antes de eu chegar. s seis horas da manh achei que ningum 
ia aparecer e resolvi dar uma olhada.
Ele apontou para os fios soltos e acrescentou:
- Seus amigos so realmente espertos. Ligaram um segundo fio de maneira que a dinamite 
explodisse tambm se o senhor levantasse o cap totalmente. A mesma coisa aconteceria se ligasse a ignio. H dinamite bastante para destruir metade da garagem.
Judd sentiu-se subitamente nauseado o estmago embrulhado. Moody fitou-o com uma 
expresso de simpatia.
- Anime-se, Doutor. Pense no progresso que j fizemos. J sabemos duas coisas. Em primeiro 
lugar, temos certeza agora de que no est pirado. Em segundo lugar...
Moody fez uma pausa, o sorriso desaparecera-lhe do rosto.
- ...Sabemos tambm que algum est ansioso por assassin-lo, Dr. Stevens.


Captulo 10


Eles estavam sentados na sala de estar do apartamento, conversando. O corpo imenso de 
Moody se esparramava sobre o sof. Moody guardara todas as peas da bomba desarmada na mala do prprio carro.
- No deveria t-la deixado no lugar, para que a polcia pudesse examinar? - perguntou Judd.
- Eu sempre achei que a coisa que mais confunde no mundo  o excesso de informaes.
- Mas isso iria provar ao tenente McGreavy que estou dizendo a verdade!
- Iria mesmo?
Judd compreendeu imediatamente. McGravy certamente iria pensar que fora ele prprio quem 
colocara os bastes de dinamite. No obstante, parecia-lhe estranho que um detetive particular 
ocultasse informaes  polcia. Sua impresso era de que Moody se parecia com um iceberg. A maior parte do homem estava oculta sob a superfcie, por trs daquela 
fachada de gordo bonacho de cidade pequena. Naquele momento, ouvindo Moody falar, Judd sentiu-se exultante. Ele no era um insano e o mundo estava subitamente repleto 
de terrveis coincidncias. Havia um assassino  solta. Um assassino de carne e osso. E, por alguma razo ignorada, ele escolhera Judd como seu alvo. 
"Meu Deus", pensou Judd, "como nossos egos podem ser facilmente destrudos"! Alguns minutos atrs ele estava pronto a acreditar que era um paranico. A sua dvida 
para com Moody era incalculvel.
- ...Afinal, o senhor  mdico - estava dizendo Moody. - Eu sou apenas um velho detetive. 
E sempre digo que se deve ir  colmia quando se quer uma abelha.
Judd estava comeando a compreender o jargo de Moody.
- Quer saber a minha opinio sobre o tipo do homem ou homens que estamos procurando?
- Isso mesmo. Estamos s voltas com um manaco homicida que fugiu de um hospcio ou 
temos que procurar mais fundo?
- Temos que ir mais fundo - disse Judd rapidamente.
- O que o leva a pensar assim, Doutor?
- Antes de mais nada, porque foram dois homens que tentaram arrombar meu consultrio 
ontem  noite.. Eu ainda poderia engolir a histria de luntico, mais dois lunticos trabalhando juntos  demais!
Moody assentiu, aprovando o raciocnio.
- Entendido. Continue.
- Em segundo lugar, porque uma mente desequilibrada pode ter uma obsesso, mas age de 
acordo com um padro determinado. No sei por que John Hanson e Carol Roberts foram 
assassinados. Mas, a menos que eu esteja completamente errado, estou marcado para ser a terceira e ltima vtima.
- O que o leva a pensar que ser o ltimo?
- Porque se houvesse outros para serem assassinados, eles teriam ido apanh-los assim que 
fracassaram na primeira tentativa de matar-me. Em vez disso, porm, eles esto-se concentrando exclusivamente na tentativa de liquidar-me.
- Sabe, Doutor, acho que tem uma inclinao natural para o trabalho de detetive.
Judd franziu o rosto.
- Mas h diversas coisas que no fazem o menor sentido.
- Tais como?
- Em primeiro lugar, o motivo. No sei de ningum que...
- Falaremos disso depois. O que mais?
- Se algum est realmente to ansioso por matar-me, j poderia t-lo feito facilmente. 
Quando aquele carro me atropelou, tudo que o motorista precisava fazer era dar macha  r e passar com o carro por cima de mim. Eu estava desmaiado.
- Ah!  nesse ponto que o Sr. Benson entra na histria.
Judd fitou-o, sem entender.
- O Sr. Benson  a testemunha do acidente - explicou Moody, benevolente. - Descobri o 
nome dele no relatrio da polcia sobre o acidente e fui procur-lo assim que o senhor saiu do meu escritrio. O txi custou-me trs dlares e cinqenta, Certo?
Judd assentiu, aturdido demais para conseguir falar.
- O Sr. Benson... Devo dizer que ele  peleiro. Tem coisas muito bonitas. Se quiser comprar 
algo para a sua namorada, fale comigo que lhe arranjarei um desconto especial. Seja como for, na tera-feira, o dia do acidente, ele estava saindo de um prdio onde 
a sua cunhada trabalha. Tinha levado alguns remdios para o seu irmo Matthew, que  vendedor de Bblias e estava muito gripado. 
A cunhada ia levar os remdios para casa.
Judd controlou a impacincia. Se Norman Z. Moody sentisse vontade de recitar toda a 
Declarao de Independncia, ele escutaria sem reclamar.
- O Sr. Benson deixou os remdios com a cunhada e estava saindo do prdio quando a 
limusine avanou em sua direo.  claro que ele no sabia na ocasio, que se tratava do senhor, Doutor.
Judd simplesmente assentiu.
- O carro andava um pouco de lado. Do ponto em que estava, Benson teve a impresso que 
derrapava. Quando viu o carro atropel-lo, saiu correndo em sua direo. A limusine recuou para atropel-lo novamente. O motorista viu ento o Sr. Benson e fugiu 
em disparada.
Judd engoliu em seco.
- Ento quer dizer que se o Sr. Benson por acaso no estivesse por perto...
- Isso mesmo. Ns dois no nos teramos conhecido. Os rapazes no esto brincando em 
servio. Esto mesmo a fim de liquid-lo, Doutor.
- O que me diz do ataque ao meu consultrio? Porque  que eles simplesmente no 
derrubaram a porta?
Moody ficou em silncio por um momento.
- No d para entender. Eles poderiam ter arrombado a porta e matado o senhor e quem quer 
que estivesse em sua companhia, sem que ningum os visse. Mas foram embora quando pensaram que o senhor no estava sozinho. Isso no combina com o resto da histria.
Moody ficou novamente em silncio, mordendo o lbio inferior.
- A menos...
- A menos o qu?
Uma expresso especulativa surgiu no rosto de Moody.
- Por enquanto vou guardar s para mim. Tive uma idia, mas no faz sentido enquanto no 
encontrarmos um motivo.
Judd sacudiu os ombros, desolado.
- No sei de ningum que tenha motivo para matar-me.
Moody pensou no assunto por um momento.
- Ser que no partilhou nenhum segredo com o tal de Hanson e com Carol Roberts, Doutor? 
Algo que somente os trs soubessem?
Judd sacudiu a cabea.
- Os nicos segredos que tenho so segredos profissionais, a respeito dos meus pacientes. E 
no h absolutamente nada nos casos deles que possa justificar um homicdio. Nenhum de meus pacientes  agente secreto, espio estrangeiro ou foragido da justia. 
So pessoas comuns, donas-de-casa, profissionais liberais, altos funcionrios de grandes organizaes, pessoas com problemas que no conseguem enfrentar sozinhas.
Moody fitou-o com uma expresso inocente.
- Tem certeza de que no h nenhum manaco homicida entre os seus pacientes, Doutor?
A voz de Judd era firme:
- Certeza absoluta. Ontem talvez eu no tivesse muita certeza. Para dizer a verdade, estava 
comeando a pensar que eu prprio sofria de parania e que o senhor procurava confirmar essa teoria naquele nosso primeiro encontro.
Moody sorriu.
- A idia me passou pela cabea. Depois que me telefonou marcando o encontro, andei 
fazendo umas averiguaes. Telefonei para dois mdicos, amigos meus. O senhor tem uma reputao e tanto, Doutor.
Ento o "Sr. Stevenson" fazia parte da fachada de caipira que Moody assumia.
- Se formos procurar a polcia agora com o que j sabemos - disse Judd -, poderemos, pelo 
menos, conseguir com que eles se ponham  procura de quem est por trs disso tudo.
Moody fitou-o com uma expresso um tanto surpresa.
- Acha mesmo? Mas no temos muita coisa para falar, no  mesmo, Doutor?
Era verdade.
- No quero que fique desanimado. Acho que estamos realmente progredindo. J 
conseguimos diminuir consideravelmente o nosso campo de busca.
Quando Judd falou, havia um tom de frustrao em sua voz:
- Claro. J sabemos agora que pode ser qualquer pessoa dos Estados Unidos.
Moody ficou imvel por um momento, contemplando o teto. Finalmente sacudiu a cabea 
e murmurou:
- Famlias...
- Famlias? - Acredito quando me diz que conhece os seus pacientes por dentro e por fora, 
Doutor. Se me diz que eles no poderiam cometer os crimes, eu tenho que acreditar. Afinal de contas,  a sua colmia, e  quem cuida das abelhas.
Ele recostou-se no sof e acrescentou:
- Mas diga-me uma coisa: costuma entrevistar as famlias dos seus pacientes?
- No. s vezes a famlia nem mesmo sabe que o paciente est sendo submetido  psicanlise.
Moody exibiu uma expresso de satisfao.
- A est!
- Est pensando que um parente de algum dos meus pacientes esteja tentando me matar?
-  possvel.
- Nenhum teria mais motivos que qualquer um dos meus pacientes. Provavelmente at menos.
Moody levantou-se com bastante dificuldade.
- Nunca se sabe, no  mesmo, Doutor? Vou dizer o que gostaria que fizesse: arrume-me uma 
lista de todos os pacientes que teve nas ltimas quatro ou cinco semanas.  impossvel?
Judd hesitou.
- No - disse ele finalmente.
- Est pensando nessa histria do relacionamento confidencial entre mdico e paciente? Creio 
que est na hora de contornar um pouco essa regra. A sua vida est em jogo.
- Acho que est na pista errada. O que tem acontecido no possui a menor relao com meus 
pacientes ou suas famlias. Se houvesse algum caso de insanidade nas famlias dos meus pacientes, eu j teria descoberto na psicanlise.
Judd sacudiu a cabea e acrescentou:
- Lamento, Sr. Moody, mas tenho que proteger os meus pacientes.
- Disse que no havia em seu arquivo nada de importante.
- Nada que seja importante para ns.
Judd pensou em algumas das revelaes que constavam em seus arquivos. John Hanson 
apanhando marinheiros nos bares de invertidos da Terceira Avenida. Teri Washburn fazendo amor com todos os msicos do conjunto que fora tocar em seu apartamento. 
Evelyn Warshak, prostituta de catorze anos...
- Lamento - disse ele novamente - mas no posso mostrar-lhe os meus arquivos...
Moody sacudiu os ombros.
- Est certo. Mas sendo assim, ter de fazer uma parte do trabalho para mim.
- O que deseja que eu faa?
- Pegue as gravaes de todas as pessoas que se deitaram em seu div no ltimo ms. Oua 
atentamente cada uma. S que desta vez no deve escutar como mdico e sim como detetive. Procure alguma coisa que lhe parea estranha e inexplicvel.
-  o que sempre fao. Meu trabalho  justamente esse.
- Pois faa-o novamente. E fique bastante atento. No quero perd-lo at que este caso esteja 
resolvido.
Pegou o sobretudo, lutando para entrar dentro dele. Parecia executar os passos de um bal 
de elefante. Diz-se que os homens gordos tm movimentos graciosos, pensou Judd. Mas o Sr. Moody no se inclua nessa categoria.
- Sabe o que eu acho mais estranho em toda essa histria, Doutor?
- O que ?
-  o fato de dois homens terem tentado arrombar o seu consultrio. Talvez um homem 
pudesse ter essa nsia incontrolvel de mat-lo... mas porqu dois?
- No sei.
Moody ficou pensativo por um longo tempo. Exclamou de repente:
- Por Deus!
- O que ?
- Acabo de ter uma idia. Se eu estiver certo, pode ser que haja mais de dois homens nessa 
histria.
Judd mostrou-se incrdulo.
- Est querendo dizer que pode haver todo um bando de manacos atrs de mim? Mas isso 
no faz sentido!
Havia uma expresso de excitamento crescente no rosto de Moody.
- Doutor, tenho a impresso de que sei quem  o juiz neste jogo. Ainda no sei como nem 
porqu..,. mas talvez eu possa saber quem.
- Quem?
Moody sacudiu a cabea.
- O senhor me mandaria para um hospcio se eu lhe dissesse. Eu sempre digo que se precisa 
ter certeza de que a arma est de fato carregada antes de se comear a disparar. Quero antes praticar um pouco de tiro ao alvo. Se eu tiver certeza de que estou 
na trilha certa, virei contar-lhe tudo.
- Espero que esteja - disse Judd, ansioso.
- No, Doutor. Se aprecia a sua vida, um pouco que seja, deve rezar para que eu esteja 
errado.
E com isso Moody partiu.
Judd tomou um txi e seguiu para o seu consultrio.
Era meio-dia de sexta-feira. Faltando apenas trs dias para o Natal, as ruas estavam apinhadas 
de pessoas que faziam compras de ltima hora, encolhendo-se contra o vento gelado que soprava no rio Hudson. As vitrinas das lojas eram festivas e iluminadas, com 
rvores de Natal e figuras esculpidas da Natividade, Paz na Terra. Nata, Elizabeth e o filho que no chegara a nascer. Se conseguisse sobreviver, no estaria longe 
o dia que alcanaria a sua prpria paz, libertando-se de um passado morto e enterrado. Ele sabia que, com Anne, teria... Judd conteve-se firmemente. De que adiantava 
fazer fantasias com uma mulher casada que estava perto de ir para longe com o marido, a quem ela amava?
O txi parou diante do edifcio em que ficava seu consultrio e Judd saltou, olhando 
nervosamente ao redor. Mas o que ele devia procurar? No tinha a menor idia de qual seria a arma assassina e nem de quem a estaria empunhando.
Chegando ao consultrio, Judd trancou cuidadosamente a porta externa, depois foi ao 
armrio embutido onde guardava as gravaes das sesses e abriu-o. As fitas estavam arquivadas cronologicamente, sob o nome de cada paciente. Ele tirou as mais recentes 
e levou-as para o gravador. Com todas as consultas daquele dia canceladas, poderia concentrar-se inteiramente em tentar descobrir alguma pista que pudesse envolver 
amigos e parentes dos seus pacientes. Judd tinha a impresso de que a sugesto de Moody era intil, mas passara a ter respeito bastante pelo detetive particular 
para ignor-la.
Ao colocar a primeira fita no gravador, recordou-se da ltima vez em que usava o gravador. 
"Ser que fora mesmo apenas na noite anterior"? A recordao produziu nele uma sensao aguda de pesadelo. Algum planeara assassin-lo naquela sala, o mesmo lugar 
em que haviam assassinado Carol.
Judd compreendeu subitamente que nem se lembrara dos pacientes da clnica gratuita onde 
trabalhava uma vez por semana. Provavelmente porque os assassinos tinham aparecido no seu 
consultrio e no no hospital. Mesmo assim... Ele foi at  parte do armrio embutido onde estava escrito "CLNICA", examinou as fitas e selecionou meia dzia. Ps 
a primeira no gravador.
Rose Graham.
- ...um acidente, Doutor. Nancy chora demais. Est sempre gemendo. Assim, quando bato 
nela,  para o seu prprio bem, entende?
- J procurou alguma vez descobrir por que Nancy chora tanto? - indagou a voz de Judd.
-  porque ela  mimada. O pai estragou-a completamente e depois foi embora e nos deixou. 
Nancy sempre se julgou a filhinha do papai. Mas como Harry poderia am-la, se nos abandonou desse jeito?
- Voc e Harry nunca se casaram, no ?
- Bem... ns vivamos maritalmente.  assim que chamam, no ? amo-nos casar.
- H quanto tempo viviam juntos?
- Quatro anos.
- Quanto tempo depois de Harry t-la abandonado  que voc quebrou o brao de Nancy?
- Acho que uma semana depois. Eu no tinha inteno de machuc-la. Mas ela no parava de 
se lamuriar e acabei pegando a vara da cortina e batendo nela.
- Acha que Harry amava Nancy mais do que a voc?
- No. Harry era louco por mim.
- Ento por que acha que ele a deixou?
- Porque ele era homem. E sabe como os homens so? Uns animais! Todos vocs! Deviam 
ser massacrados como porcos!
Soluos.
Judd desligou o gravador e ficou pensando em Rose Graham. Ela era uma misantropa 
psicopata e quase matara de pancada a filha de seis anos, em duas ocasies. Mas os padres dos crimes no se ajustavam  psicose de Rose Grahan.
Ele ps outra fita de pacientes da Clnica no gravador.
Alexandre Fallon.
- A polcia diz que atacou o Sr. Champion com uma faca, Sr. Fallon?
- Fiz apenas o que me mandaram.
- Algum o mandou matar o Sr. Champiom?
- Ele me disse para faz-lo.
- Ele quem?
- Deus.
- Porque  que Deus o mandou matar o sr. Champion?
- Porque Champion  um homem do diabo. Ele  um ator. Eu o vi no palco. Beijou aquela 
mulher, aquela atriz, na frente de todo o mundo. Beijou-a e...
Silncio.
- Continue.
- Segurou-lhe... a teta.
- E isso o perturbou?
- Mas claro que sim! Deixou-me transtornado. Ser que no compreende o que aquilo 
significava? Que ele tinha um conhecimento carnal dela! Quando sa do teatro, a sensao que tive foi de que acabara de voltar de Sodoma e Gomorra. Eles tinham que 
ser punidos.
- E ento decidiu mat-lo?
- No fui eu quem decidiu. Deus  quem o fez. Eu apenas executei as Suas ordens.
- Deus lhe fala com muita freqncia?
- Somente quando h trabalho Seu para ser feito. Ele me escolheu como Seu instrumento 
porque sou puro. Sabe o que me torna puro? E sabe o que  a coisa mais purificadora do mundo? 
Exterminar os maus.
Alexandre Fallon. Trinta e cinco anos. Assistente de padeiro. Fora enviado para um hospcio 
durante seis meses e depois solto. Ser que Deus lhe ordenara que destrusse Hanson, um 
homossexual, e Carol, uma antiga prostituta, alm de Judd, o benfeitor de ambos? Judd concluiu que era improvvel. Os processos mentais de Fallon obedeciam a espasmos 
breves e dolorosos. Quem quer que tivesse planeado os crimes, era inegavelmente uma pessoa altamente eficiente e organizada.
Ele tocou diversas fitas dos pacientes da clnica, mas nenhuma delas se ajustava ao padro 
que estava procurando. No, no era nenhum paciente da clnica.
Repassou ento os pacientes do consultrio e um nome logo lhe despertou a ateno.
Skeet Gibson.
Ps a fita no gravador.
- Bom dia, Doutor. O que acha desse lindo dia que lhe preparei especialmente?
- Estou-me sentindo bem hoje.
- Se eu me estivesse sentindo melhor, eles certamente me iriam trancafiar. Foi ao meu 
espetculo ontem  noite?
- No me foi possvel. Lamento.
- Foi um estouro. Jack Gould chamou-me de "o maior comediante do mundo". E quem sou 
eu para discutir com um gnio Jack Gould? Devia ter ouvido o pblico. Eles aplaudiram freneticamente. Sabe o que isso prova?
- Que eles sabem ler os cartes de "Aplausos"?
-  muito esperto, seu diabo!  disso que eu gosto: um "espreme-crnios" que tem senso de 
humor. O ltimo que eu tive era um chato! Tinha uma barba imensa que realmente me incomodava.
- Por qu?
- Porque era uma mulher.
Risadas. - Eu o peguei desta vez, no ? Agora falando srio, uma das razes pelas quais 
estou-me sentindo to bem hoje  que acabei de investir um milho de dlares para ajudar as crianas em Biafra.
- No  de admirar que se sinta bem.
- Pode apostar que sim. A histria saiu nas primeiras pginas dos jornais do mundo inteiro.
- E isso  muito importante?

- Como assim? Quantos caras acha que podem investir tanto dinheiro assim? Tem que 
comear a tocar a sua buzina, Peter Pan. Estou na maior satisfao de poder investir um dinheiro desses.
- Est falando o tempo todo em investir. O que quer dizer  doar, no ?
- D tudo no mesmo. A gente emprega um milho de dlares e logo esto todos nos beijando 
os ps. Eu j lhe disse que hoje  meu aniversrio de casamento?
- No. Parabns!
- Obrigado. Quinze anos espetaculares. Acho que nunca conheceu Sally.  a rapariga mais 
maravilhosa que j caminhou por esta terra de Deus. Sabe como os parentes da mulher podem ser um incmodo, no ? Pois Sally tem dois irmos, Ben e Charley. Eu j 
lhe falei a respeito deles. Ben  o principal redator do meu programa de televiso e Charley  meu produtor. Eles so uns gnios! 
J tem sete anos que estou no ar. E em nenhum momento deixamos de estar entre os dez programas de maior audincia. Fui muito esperto em casar-me e entrar numa famlia 
como essa, no acha? A maioria das mulheres fica gorda e desleixada depois que agarra o marido. Mas Sally, graas a Deus, est mais esbelta agora do que no dia em 
que nos casamos. Que mulher! Tem um cigarro a, Doutor?
- Tome. Pensei que tivesse parado de fumar.
- Eu apenas quis demonstrar para mim mesmo que ainda tinha a velha fora de vontade, e por 
isso parei. Mas agora voltei a fumar porque quero... Fiz ontem um novo contrato com a televiso. E realmente passei-os para trs. Minha hora j acabou?
- Ainda no. Por que est to inquieto, Skeet?
- Para lhe dizer a verdade, queridinho, estou em to boa forma que nem mesmo sei por que 
continuo a vir aqui!
- No tem problemas?
- Eu? O mundo  minha ostra e eu sou "Diamond Jim Brady". Tenho que agradecer-lhe, 
Doutor. Ajudou-me de verdade.  o meu homem. Tenho a impresso de que o senhor ganha tanto dinheiro que at me d vontade de estabelecer-me por conta prpria no 
seu ramo. O que acha da idia? Isso me lembra a histria de um cara que vai consultar um "espreme-crnios", mas est to nervoso que apenas se deita no div e no 
diz coisa alguma. Ao final de uma hora, o mdico diz que so cinqenta dlares. A mesma cena se repete durante dois anos inteirinhos, sem que o cara fale coisa alguma. 
Mas, finalmente, o cara resolve abrir a boca: "Doutor, posso fazer-lhe uma pergunta?" 
Diz o mdico: "Mas  claro!" E o camaradinha diz: "No gostaria de ter um scio?" 
Risadas.
- Tem uma aspirina ou algo assim?
- Claro! Est com outra das suas dores de cabea?
- No  nada que eu no possa controlar, companheiro... Obrigado. Isso vai resolver.
- O que acha que provoca essas suas dores de cabea?
- Apenas a tenso normal do show-business... Esta tarde vamos fazer a leitura do script do 
prximo programa.
- E isso o deixa nervoso?
- A mim? Mas claro que no! Por que eu deveria ficar nervoso? Se as minhas piadas so 
horrveis, eu fao uma carranca e pisco para o pblico e eles engolem direitinho. No importa o quo nojento seja um programa, o velho Skeet sempre sai cheirando 
como uma rosa!
- Por que acha que tem essas dores de cabea todas as semanas?
- Como diabo eu vou saber? O senhor que  mdico  que deve dizer-me. Eu no lhe pago 
para passar uma hora sentado em cima desse traseiro gordo a me fazer perguntas estpidas. Meu Deus, se um idiota como voc no pode curar uma simples dor de cabea, 
ento eles no deveriam deix-lo  solta confundindo a vida das pessoas. Onde  que conseguiu o seu diploma de mdico? 
Numa escola de veterinria? Eu no lhe confiaria os meus gatos! No passa de um miservel 
charlato! A nica razo que me fez procur-lo foi a insistncia de Sally. S assim consegui me livrar dela. Conhece a minha definio de Inferno?  estar casado 
com uma mulher feia e esqueltica durante quinze anos. Se est procurando mais alguns otrios para explorar, fale com os dois irmos de Sally, Ben e Charley. Ben 
 o principal redator do meu programa, mas no sabe qual  a ponta do lpis com que se pode escrever. E Charley  ainda mais estpido. Eu gostaria de que todos cassem 
mortos. S esto a fim de me explorar. E pensa que eu gosto de voc? Muito pelo contrrio. 
No passa de um nojento!  um presunoso, sentado a a olhar tudo de cima. No tenho nenhum problema, no ? E sabe porqu? Porque no existe de verdade. Tudo o 
que  passar o dia arriado nesse traseiro gordo a roubar o dinheiro das pessoas doentes. Pois bem, seu filho da puta, eu vou destru-lo. Vou denunci-lo  Associao 
Mdica Americana...
Silncio.
- Eu gostaria de no ter que ir  maldita leitura...
Silncio. 
- Continue firme aqui, queridinho. At a prxima semana.
Judd desligou o gravador. Skeet Gibson, atualmente o mais famoso comediante da Amrica, 
devia ter sido internado dez anos atrs. Suas diverses eram espancar coristas jovens e louras e provocar brigas de bar. Skeet era um homem pequeno, mas comeara 
a vida como lutador de boxe e sabia como machucar os outros. Um dos seus desportos preferidos era entrar num bar de efeminados, atrair um homossexual inocente para 
o banheiro e ali espanc-lo impiedosamente. Skeet fora agarrado pela polcia por diversas vezes, mas os incidentes tinham sido sempre abafados. Afinal de contas 
ele era o maior comediante da Amrica. Skeet era paranico o bastante para querer matar, e era bem capaz de matar num acesso de raiva. Mas Judd no achava que ele 
fosse capaz de executar um plano de vingana a sangue-frio. E Judd tinha certeza de que essa era a chave para a soluo do problema. Quem quer que estava querendo 
mat-lo, no agia no auge de alguma emoo, mas metodicamente e com sangue-frio. Era um louco. Que no se comportava como tal. 


Captulo 11


O telefone tocou. Era o servio de recados. Eles haviam conseguido falar com todos os seus 
pacientes,  exceo de Anne Blake. Judd agradeceu  telefonista e desligou.
"Ento Anne viria naquele dia"! Judd ficou perturbado ao perceber como se sentia 
irracionalmente feliz pela perspectiva de v-la novamente. Mas tinha que lembrar-se de que ela s estava vindo porque ele lhe pedira, como mdico. O quanto ele sabia 
a respeito dela... e quo pouco!
Ele ps uma das fitas das sesses de Anne no gravador e ficou escutando. Era uma das 
primeiras visitas dela.
- Est  vontade, Sr Blake?
- Estou sim, obrigada.
- Relaxada?
- Sim.
- Est com os punhos cerrados.
- Talvez eu esteja um pouco tensa.
Um longo silncio.
- Fale-me a respeito da sua vida em casa. Est casada h seis meses, no ?
- , sim.
- Continue.
- Sou casada com um homem maravilhoso. Moramos numa linda casa.
- Como  a casa?
- No estilo rural francs...  uma propriedade antiga, adorvel! H um caminho longo e 
sinuoso que leva at a casa. No alto do telhado fica um galo de bronze muito velho e engraado, sem cauda. Creio que algum caador arrancou-a com um tiro h muito 
tempo atrs. A propriedade possui cinco acres, a maior parte coberta de bosques. Costumo dar longos passeios.  como murar no campo.
- Gosta do campo?
- Muito.
- Seu marido tambm gosta?
- Creio que sim.
- Um homem no costuma comprar uma propriedade de cinco acres a menos que goste.
- Ele me ama. De qualquer maneira, teria comprado a casa para mim.  um homem muito 
generoso.
- Vamos falar a respeito dele.
Silncio.
- Ele  bem-apessoado?
- Anthony  bem bonito!
Judd sentiu uma ponta de cimes, irracional e nada profissional.
- So compatveis fisicamente?
Era como lngua apalpando um dente dolorido.
- Somos.
Judd sabia como ela deveria ser na cama: excitante, feminina, entregando-se toda. "Cus", 
pensou ele, "mude logo de assunto"!
- Quer ter filhos?
- Quero.
- Seu marido tambm quer?
- Claro que sim.
Um longo silncio, durante o qual s se ouvia o roar da fita no gravador. Depois:
- Sra. Blake, veio procurar-me porque disse ter um problema desesperador. Tem relao com 
seu marido, no ?
Silncio.
- Vou pressupor que sim. Pelo que me disse antes, a senhora e seu marido se amam. Ambos 
so fieis, ambos querem filhos. Vivem numa linda casa e seu marido  um homem de boa aparncia e bem-sucedido nos negcios. Ele lhe faz todas as vontades. E est 
casada h apenas seis meses. 
Infelizmente est parecendo a velha piada: "Mas qual  o meu problema, Doutor?" 
Silncio novamente. S se ouvia o zumbido impessoal da fita. Finalmente ela falou:
- ...  um pouco difcil para mim falar a esse respeito. Pensei que poderia conversar com um 
estranho, mas...
Judd recordou-se neste ponto, nitidamente, de como ela se virava no div para fit-lo com 
aqueles olhos grandes e enigmticos. Ela comeara ento a falar mais depressa, procurando superar as barreiras que a mantinham em silncio.
- ... mas vejo agora que  muito mais difcil.  que ouvi algumas coisas e... Provavelmente 
eu tirei as concluses erradas.
-  alguma coisa relacionada com a vida pessoal do seu marido? Mulher?
- No.
- Com a vida profissional dele?
- Sim...
- Acha que seu marido mentiu a respeito de alguma coisa? Tentou ficar com a parte do leo 
em algum negcio?
- Mais ou menos isso.
Judd pisava em terreno mais firme.
- E isso afetou a confiana que a senhora depositava nele. Mostrou-lhe um lado de seu 
marido que nunca tinha visto antes.
- Eu... eu... eu no posso falar sobre isso. Sinto que sou desleal para com ele s em ter vindo 
aqui. Por favor, Dr. Stevens, no me pergunte mais nada hoje.
E assim terminara aquela sesso, Judd desligou o gravador.
Ento o marido de Anne fizera algum negcio no muito honesto! Talvez ele sonegasse os 
impostos. Ou tivesse levado algum a falncia. Era natural que Anne ficasse transtornada. Ela era uma mulher sensvel. Sua f no marido ficaria abalada.
Judd pensou no marido de Anne como um possvel suspeito. Ele estava no negcio de 
construes. Judd no o conhecia pessoalmente. Mas, qualquer que fosse o problema dele, nem com muita imaginao se podia aceitar que inclusse John Hanson, Carol 
Roberts ou o prprio Judd. E o que dizer da prpria Anne? Ela no poderia ser uma psicopata? Uma manaca homicida? Judd recostou-se na cadeira e procurou analis-la 
objetivamente.
Ele nada sabia a respeito de Anne, exceto o que ela prpria lhe contara. Seus antecedentes 
podiam ser fictcios, ela poderia ter inventado tudo. Mas o que teria a ganhar com isso? Se era 
alguma charada elaborada para encobrir um assassinato, teria que haver uma motivao. A lembrana do rosto e da voz de Ann dominaram a mente de Judd, e ele compreendeu 
que ela no poderia estar envolvida naquilo. Ele era capaz de apostar a sua prpria vida. A ironia da situao f-lo sorrir.
Judd pegou as fitas de Teri Washburn. Talvez houvesse nelas alguma coisa que tivesse 
deixado escapar.
Recentemente Teri andara tendo algumas sesses extras, a seu prprio pedido. Ser que ela 
estaria sofrendo alguma nova presso que no lhe contara? Devido  incessante preocupao de Teri com sexo, era muito difcil determinar acuradamente nos seus progressos. 
Mas por que ela pedira subitamente, e com insistncia, para passar mais tempo com ele?
Judd pegou uma das fitas ao acaso e colocou-a no gravador.
- Vamos falar a respeito dos seus casamentos, Teri. J se casou cinco vezes, no ?
- Seis. Mas quem se vai importar em contar?
- Foi fiel aos seus maridos?
Risadas.
- Est querendo demais de mim. No h um nico homem capaz de satisfazer-me.  um 
problema fsico.
- Como assim?
-  a maneira como eu sou feita. Tudo o que sou  um buraco quente que tem que ser 
enchido o tempo todo.
- Acredita mesmo nisso?
- Que o buraco tem que estar sempre cheio?
- Que voc  diferente, fisicamente, das outras mulheres?
- Mas claro que sou. Foi o prprio mdico do estdio quem me disse.  um problema 
glandular ou algo assim.
Uma pausa.
- Ele era uma pssima trepada.
- J verifiquei todos os seus exames. Fisiologicamente seu corpo  normal, sob todos os 
aspectos.
- Ao inferno com os exames, Charley. Por que no descobre por si mesmo?
- J esteve apaixonada alguma vez, Teri?
- Posso estar apaixonada por voc.
Silncio.
- No me olhe desse jeito! No posso fazer nada. Eu j lhe disse que sou assim.  a maneira 
como sou constituda. Estou sempre faminta.
- Acredito em voc. Mas no  seu corpo que est faminto e sim as suas emoes.
- Nunca ningum trepou com as minhas emoes. Quer experimentar?
- No.
- O que quer ento?
- Ajud-la.
- Por que no vem at aqui e senta-se ao meu lado?
- Basta por hoje.
Judd desligou o gravador. Recordou-se do dilogo que haviam travado quando Teri falara 
de sua carreira como grande estrela e ele perguntara por que ela deixara Hollywood.
- Dei uma trepada num palhao antiptico, numa festa em que estavam todos bbados. 
Acontece que ele era o chefo e mandou que me expulsassem de Hollywood com um chute no meu traseiro polaco.
Judd no insistira no assunto porque, na ocasio, estava mais interessado nos antecedentes 
familiares de Teri. O assunto nunca mais voltara  baila. Agora ele sentia uma dvida inquietante. 
Deveria ter sondado mais um pouco. Nunca tivera por Hollywood um interesse diferente do que o que o Dr. Louis Leaky ou Margaret Mead pudessem ter pelos nativos da 
Patagnia. Quem poderia saber alguma coisa a respeito de Teri Washburn, a antiga e glamurosa estrela?
Norah Hadley era fantica por cinema. Judd vira, certa vez, pilhas de revistas de cinema na 
casa deles e zombara de Peter por causa disso. Norah passara a noite inteira defendendo Hollywood. 
Judd pegou o telefone e discou.
Norah atendeu.
- Ol - disse Judd.
- Judd!
A voz dela era cordial e afetuosa.
- Est telefonando para dizer que vir ao nosso jantar, no ?
- Falaremos disso daqui a pouco.
-  melhor que voc venha. Prometi a Ingrid. Ela  linda!
Judd no tinha a menor dvida de que era mesmo, mas no da mesma maneira como Anne!
- Se voc romper outro compromisso com ela, teremos que entrar em guerra com a Sucia.
- Isso no acontecer novamente.
- Voc j se recuperou do acidente?
- J.
- Foi uma coisa horrvel...
Havia um tom hesitante na voz de Norah.
- Judd... sobre o dia de Natal. Peter e eu gostaramos que viesse cear conosco. Por favor...
Judd sentiu a contrao familiar no peito. Todos os anos acontecia a mesma coisa. Peter e 
Norah eram os seus melhores amigos e detestavam v-lo passar todos os natais sozinho, caminhando entre estranhos, perdendo-se no meio da multido desconhecida, impelindo 
seu corpo a manter-se em movimento at ficar exausto demais para pensar. Era como se ele estivesse celebrando alguma terrvel missa negra para os mortos. Permitia 
que a dor se apossasse dele e o dilacerasse, penitenciando-se em algum ritual antigo sobre o qual no tinha o menor controle. "Voc est dramatizando as coisas", 
disse Judd para si mesmo.
- Judd...
- Desculpe, Norah. Talvez no prximo Natal...
Ela procurou no demonstrar desapontamento.
- No h problema. Direi a Peter.
- Obrigado.
Judd recordou-se subitamente do motivo pelo qual telefonara. - Norah, voc sabe quem  Teri 
Washburn? 
- A Teri Washburn? A estrela? Por que est perguntando?
- Eu... eu a vi em Madison Avenue esta manh.
- Em pessoa? Est falando srio?
Norah parecia uma criana ansiosa.
- Como ela parece? Velha? Jovem? Gorda? Magra?
- Est muito bem. Ela foi uma grande estrela, no foi?
- Se foi? Ela foi a maior de todas... e em todos os sentidos, se entende o que estou querendo 
dizer.
- Por que ser que ela deixou Hollywood?
- No foi exatamente assim. Ela no deixou Hollywood.
Ento Teri lhe contara a verdade. Judd sentiu-se um pouco melhor.
- Vocs, mdicos, vivem com a cabea enterrada na areia. Teri Washburn esteve envolvida 
num dos maiores escndalos da histria de Hollywood.
-  mesmo? O que houve?
- Ela assassinou o amante.


Captulo 12


Comeara outra vez a nevar. Os rudos do trfego vinham flutuando da rua, quinze andares 
abaixo, abafados pelos flocos brancos que danavam no vento gelado. Numa sala acesa, do outro lado da rua, Judd pde ver o rosto vago de uma secretria.
- Tem certeza, Norah?
- Quando se trata de Hollywood, querido, voc est falando com uma enciclopdia 
ambulante. Teri estava vivendo com o chefo dos Continental Studios, mas dormia tambm com um assistente do diretor. Uma noite ela o surpreendeu enganando-a e apunhalou-o. 
O chefo do estdio usou de toda a sua influncia, subornando muita gente para abafar o caso. A morte foi classificada de acidental. Cumprindo sua parte no acordo, 
Teri deixou Hollywood e nunca mais voltou l.
Judd ficou olhando para o telefone, aturdido.
- Voc ainda est-me ouvindo, Judd?
- Estou.
- O que houve? Voc parece preocupado...
- Onde foi que ouviu tudo isso?
- Onde foi que ouvi? Mas saiu em todos os jornais e nas revistas de cinema! Todo mundo 
soube da Histria.
Menos Judd.
- Obrigado, Norah. D lembranas minhas a Peter.
Ele desligou. Ento fora aquele o "pequeno incidente"! Teri Washburn assassinara um homem 
e nunca lhe dissera coisa alguma a esse respeito. E se ela j cometera um assassinato...
Pensativo, Judd pegou num bloco e escreveu: "Teri Washburn". O telefone tocou. Ele 
atendeu.
- Dr. Stevens falando.
- Estou telefonando apenas para verificar se est bem.
Era o Detetive Angeli. Sua voz ainda estava rouca do resfriado. Um sentimento de gratido 
dominou Judd. Algum estava do seu lado.
- Alguma novidade?
Judd hesitou. No via nenhuma vantagem em guardar segredo a respeito da bomba.
- Eles tentaram novamente.
Judd contou a Angeli a respeito de Moody e da bomba que haviam colocado em seu carro.
- Creio que agora McGravy deve ficar convencido.
- E onde est a bomba? - indagou Angeli, excitado.
- Foi desmontada.
- Foi o qu? - indagou Angeli, incrdulo. - E quem a desmontou?
- Moody. Ele achou que no tinha nenhuma importncia.
- No tinha importncia? Para que diabo ele pensa que serve o Departamento de Polcia? 
Poderamos dizer quem colocara a bomba s de olharmos para ela! Temos um arquivo completo no M. O.
- M. O.?
- Modus Operandi. As pessoas criam hbitos.  provvel que continuem a fazer uma coisa 
da mesma maneira com a fizeram pela primeira vez. Mas creio que no preciso dizer isso.
- No - disse Judd, pensativo.
 claro que Moody devia saber disso. Ser que ele tinha alguma razo para no querer 
mostrar a bomba a McGravy?
- Como foi que contratou Moody, Dr. Stevens?
- Encontrei o nome dele nas pginas amarelas.
Soava ridculo, Judd pde ouvir Angeli engolir em seco.
- Ento quer dizer que no sabe absolutamente nada a respeito dele.
- S sei que confio nele. Por que...
- Neste momento, Doutor, acho que no deveria confiar em ningum.
- Mas Moody no poderia de jeito nenhum estar ligado s pessoas que querem matar-me. 
Afinal de contas, escolhi o nome dele ao acaso, nas pginas amarelas.
- No me importa como o descobriu. Algo est-me parecendo suspeito nessa histria. Moody 
diz que preparou uma armadilha para apanhar quem quer que estivesse tentando liquid-lo. Mas s puxou a armadilha depois que tinham mordido a isca, de forma que 
ningum foi apanhado. E depois ele lhe mostrou uma bomba em seu carro, que poderia ter sido colocada por ele mesmo. E assim ganha a sua confiana. No  isso, Doutor?
- Creio que se podem ver as coisas por esse ngulo. Mas...
- Talvez o seu amigo Moody esteja sendo sincero, mas talvez ele possa estar metido com os 
assassinos. De qualquer maneira, gostaria que continuasse a trat-lo como se de nada desconfiasse, at que possamos descobrir tudo.
Moody contra ele? Era difcil de acreditar. Mas Judd recordou-se das suas dvidas iniciais, 
quando pensara que Moody o estivesse enviando para uma emboscada.
- O que acha que devo fazer? - indagou Judd.
- Que tal o senhor sasse da cidade? Mas sair mesmo!
- No posso deixar meus pacientes.
- Dr. Stevens...
- Alm do mais, isso no resolveria coisa alguma, no  mesmo? Eu nem saberia do que 
estaria fugindo. E, quando voltasse, tudo recomearia.
Houve um momento de silncio do outro lado.
- Talvez tenha razo.
Angeli deixou escapar um suspiro, seguido por um prolongado acesso de tosse.
- Quando espera receber mais notcias de Moody?
- No sei. Ele pensa que tem uma idia de quem est por trs de tudo.
- J lhe ocorreu que a pessoa que est por trs desses acontecimentos pode pagar Moody 
muito mais do que o senhor? Se Moody lhe pedir para ir encontr-lo, telefone-me antes. Ficarei em casa, de cama, por mais um ou dois dias. Mas acontea o que acontecer, 
Doutor, no se v encontrar com ele sozinho!
- Acho que est fazendo uma tempestade num copo dgua. S porque Moody removeu a 
bomba do meu carro...
-  mais do que isso, Dr. Stevens. Tenho o pressentimento de que o senhor escolheu o 
homem errado.
- Eu telefonarei assim que receber notcias dele - prometeu Judd.
Ele desligou, um pouco abalado. Ser que Angeli no estava sendo excessivamente 
desconfiado? Era verdade que Moody poderia ter mentido a respeito da bomba, a fim de conquistar a sua confiana. O prximo passo seria ento bem fcil. Tudo o que 
ele teria de fazer seria telefonar para Judd e marcar um encontro em algum lugar deserto, sob o pretexto de que descobrira alguma prova importante. E ento... Judd 
estremeceu. Ser que ele se enganara a respeito do carter de Moody? Recordou a sua reao ao ver Moody pela primeira vez. Julgara-o ineficiente e pouco inteligente. 
Depois compreendera que essa fachada simplria servia apenas para ocultar um crebro gil e esperto. Mas isso no significava que Moody fosse digno de confiana 
absoluta. E, contudo... Judd ouviu algum abrir a porta da sala de recepo e olhou para o relgio. Anne!, pensou. Guardou rapidamente as fitas, foi at a porta 
que dava diretamente de sua sala para o corredor e abriu-a.
Anne estava parada no corredor. Usava um elegante vestido azul-marinho e um chapeuzinho 
que emoldurava seu rosto de forma impecvel. Estava imersa em seus pensamentos, sem perceber que Judd a observava. Ele estudou-a longamente, impregnando-se de sua 
beleza, tentando encontrar alguma imperfeio, alguma razo para dizer a si mesma que ela no seria a mulher ideal para ele, que algum dia encontraria uma outra 
bem melhor. A raposa e as uvas. Freud no era o pai da psiquiatria. 
Esopo o era.
- Ol - disse ele finalmente.
Ela ergueu os olhos, surpresa por um momento. Depois sorriu.
- Ol.
- Entre, por favor, Sra. Blake.
Ela passou por ele e entrou na sala, o corpo firme roando em Judd. Depois virou-se e fitou-o 
com aqueles incrveis olhos violeta.
- J descobriram o motorista que o atropelou?
Havia preocupao no rosto dela, um interesse genuno. Judd sentiu novamente o desejo 
intenso de contar-lhe tudo. Mas sabia que no podia faz-lo. Na melhor das hipteses, seria um truque barato para conquistar-lhe a simpatia. Na pior, poderia envolv-la 
num perigo desconhecido.
Ele f-la sentar-se. Anne examinava-lhe atentamente o rosto.
- Parece cansado. No deveria ter voltado a trabalhar to cedo!
"Oh, meu Deus!", pensou Judd, ele no conseguiria suportar qualquer manifestao de 
simpatia. No naquele momento. E no partindo de Anne.
- Eu estou bem. Cancelei todas as consultas para hoje, mas meu servio de recados no 
conseguiu localiz-la.
Uma expresso ansiosa surgiu no rosto dela. Com certeza receava ser uma intrusa. Anne, uma 
intrusa...
- Lamento muito. Se quiser que eu v agora...
- Por favor, no se v - disse Judd rapidamente. - estou contente de que no tenham 
conseguido localiza-la.
Aquela seria a ltima vez que iria v-la. Judd acrescentou:
- Como est se sentindo?
Ela hesitou, ia dizer alguma coisa, mas depois mudou de idia e murmurou:
- Um pouco confusa...
Anne fitava-o de maneira estranha. Havia algo em seu olhar que foi atingir uma corda sensvel h muito esquecida por Judd, s que ele no conseguia recordar de pronto 
o que significava. Mas sentiu que dela flua um grande afeto, um anseio fsico intenso. E subitamente Judd compreendeu o que estava fazendo: atribua as suas prprias 
emoes a Anne. Por um instante ele se deixara enganar, como qualquer estudante inexperiente de psiquiatria.
- Quando  que embarca para a Europa? 
- Na manh de Natal.
- Vai sozinha com seu marido?
Judd sentiu-se um idiota rematado, que s sabia dizer banalidades. Babbitt, num dia de folga.
- Que lugares vo visitar?
- Estocolmo, Paris, Londres e Roma.
"Eu adoraria mostrar-lhe Roma", pensou Judd. Ele passara um ano na capital italiana, como 
interno num hospital americano. Havia ali um fantstico restaurante, bastante antigo, chamado 
Cyble, perto dos jardins de Tivoli. Ficava no alto de uma colina, junto a um antigo templo pago, onde se podia ficar sentado ao sol, contemplando as centenas de 
pombos que escureciam o cu sobre os penhascos ensolarados.
E Anne estava a caminho de Roma com o marido!
- Ser uma segunda lua-de-mel - disse ela.
Havia alguma tenso na voz dela, mas to pouco perceptvel que Judd talvez a estivesse 
imaginando. Um ouvido menos treinado no a teria notado. Judd examinou-a com mais ateno. 
Exteriormente ela aparentava calma, mas por baixo ele podia sentir nitidamente a tenso que a 
dominava. Se aquela era a imagem de uma jovem apaixonada, de partida para a Europa, numa 
segunda lua-de-mel, ento algum pedao do quadro estava faltando.
E subitamente Judd compreendeu o que era.
Anne no estava absolutamente entusiasmada. Ou, se estava, isso era abafado por alguma 
outra emoo mais forte. Tristeza? Arrependimento?
Judd compreendeu que ela o olhava fixamente.
- Quanto... quanto tempo vo ficar fora?
Babbitt atacava novamente.
Um sorriso aflorou aos lbios de Anne, como se ela soubesse o que Judd estava pensando.
- No tenho certeza. Os planos de Anthony so indefinidos.
- Entendo.
Judd baixou os olhos para o tapete, desesperado. Ele precisava pr um ponto final quela 
cena. No podia deixar que Anne partisse com a impresso de que ele era um idiota completo. Tinha que mand-la embora imediatamente.
- Sra Blake... - Sim?
Judd procurou manter-se jovial:
- Na verdade pedi-lhe que voltasse sob um falso pretexto. No havia necessidade de ver-me 
novamente. Eu apenas queria... dizer-lhe adeus.
Estranhamente, de maneira desconcertante, ela pareceu perder um pouco da tenso.
- Eu sei. Eu queria tambm dizer-lhe adeus.
Havia algo na voz dela que novamente tocou algum ponto sensvel de Judd. Anne comeou 
a levantar-se.
- Judd...
Ela fitou-o, os olhos dos dois se encontraram. Judd viu nos olhos de Anne o que ela devia 
estar vendo nos olhos dele. Era o reflexo de uma corrente, um impulso to forte que era quase fsico. 
Ele aproximou-se dela, mas parou no meio do caminho. No podia deixar que ela ficasse envolvida no perigo que o rondava. Quando Judd finalmente falou, sua voz estava 
quase controlada:
- Mande-me um carto-postal de Roma.
Ela continuou a fit-lo, em silncio, por um longo momento.
- Por favor, Judd, tome cuidado.
Ele assentiu, sem confiar em si o suficiente para falar.
E Anne se foi.
O telefone tocou trs vezes antes que Judd ouvisse. Ele atendeu.
-  o senhor, Doutor?
Era Moody. Sua voz quase saa pelo telefone, de to excitada.
- Est sozinho?
- Estou.
Havia algo estranho no tom de voz de Moody, algo que Judd no conseguia identificar 
imediatamente. Seria cautela? Medo?
- Lembra-se de que eu lhe disse que tinha um palpite sobre quem estava por trs de toda essa 
histria, Doutor?
- Sim.
- Pois eu acertei em cheio.
Judd sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- Sabe quem matou Hanson e Carol?
- Sei. Sei quem foi e sei o motivo. O senhor ser o prximo, Doutor.
- Diga-me...
- No pelo telefone.  melhor encontrarmo-nos em algum lugar. Venha sozinho.
Judd olhou para o telefone em sua mo.
"VENHA SOZINHO"!
- Est-me ouvindo, Doutor?
- Estou - disse Judd rapidamente.
O que fora mesmo que Angeli dissera? "Acontea o que acontecer, Doutor, no v se". 
encontrar com ele sozinho "!".
- Por que no podemos nos encontrar em meu consultrio? - perguntou Judd, procurando 
ganhar tempo.
- Acho que estou sendo seguido. Mas consegui despist-los. Estou telefonando da Five Star 
Meat Packig Company. Fica na Rua 23, a oeste da Dcima Avenida, perto das docas.
Judd ainda achava impossvel acreditar que Moody lhe estivesse preparando uma armadilha. 
Resolveu experiment-lo.
- Levarei Angeli comigo.
A voz de Moody soou rspida:
- No traga ningum! Venha sozinho!
No havia mais dvidas.
Judd pensou no Buda gordo que estava do outro lado da linha. Seu amigo franco estava-lhe 
cobrando cinqenta dlares por dia mais despesas para atra-lo para uma armadilha. Judd conseguiu manter a voz sob controle:
- Est certo. Irei imediatamente.
Ele tentou disparar o ltimo tiro.
- Tem mesmo certeza de que sabe quem est por trs de tudo isso, Moody?
- Absoluta, Doutor. J ouviu falar em Don Vinton?
E, com isso, Moody desligou.
Judd ficou imvel, procurando controlar o turbilho de emoes que o agitavam. Procurou 
o telefone da casa de Angeli e discou. A campainha tocou cinco vezes e Judd entrou em pnico, com medo de que Angeli tivesse sado. Ser que deveria ir encontrar-se 
com Moody sozinho?
Mas finalmente ele ouviu a voz fanhosa de Angeli:
- Al?
-  Judd Stevens. Moody acabou de telefonar. 
- E o que disse ele
Judd hesitou, sentindo um ltimo vestgio de uma lealdade irracional e de - por que no? - 
afeio pelo gordo simptico que estava planeando assassin-lo a sangue-frio.
- Ele me pediu que fosse encontr-lo na Five Star Meat Packing Company. Fica na Rua 23, 
perto da Dcima Avenida. Mandou que eu fosse sozinho.
Angeli riu, asperamente.
- Era o que eu j esperava. No saia desse consultrio, Doutor. Vou entrar em contato com 
o Tenente McGreavy. Ns dois iremos apanh-lo.
- Est bem.
Judd desligou. Norman Z. Moody, O Buda jovial das pginas amarelas. Judd sentiu uma 
tristeza sbita, inexplicvel. Gostava de Moody. Confiava nele.
E Moody estava  sua espera, para mat-lo.


Captulo 13


Vinte minutos depois, Angeli e o Tenente McGravy chegavam ao consultrio de Judd. Os 
olhos de Angeli estavam vermelhos e lacrimejantes. Sua voz era rouca. Judd sentiu um 
arrependimento momentneo por t-lo tirado da cama. O comprimento de McGreavy foi um aceno brusco, nada amistoso.
- Falei com o Tenente McGreavy sobre o telefonema de Norman Moody - informou Angeli.
- Pois vamos logo descobrir que diabo est acontecendo - disse McGreavy rispidamente.
Cinco minutos aps eles seguiam rapidamente num carro da polcia sem identificao para 
West Side. Angeli estava ao volante. A nevasca ligeira cessara e os raios dbeis do sol de fim de tarde haviam desistido de penetrar a capa de nuvens que cobria 
o cu de Manhattam. Houve um rudo distante de trovoada e, logo em seguida, um relmpago riscou o cu. Gotas de chuva comearam a bater no pra-brisas. O carro continuou 
a avanar e os edifcios altos foram cedendo lugar para as casas de cmodos de aspecto desolador, espremidas umas contra as outras, como que procurando abrigo contra 
o frio intenso.
O carro entrou na Rua 23, seguindo para oeste, na direo do rio Hudson. Passaram por 
terrenos baldios, cheios de lixo, lojas e bares miserveis, atravessando depois quarteires em que s se viam garagens e armazns de companhias de transporte. Ao 
se aproximarem da esquina da Dcima Avenida, McGreavy disse a Angeli que parasse. 
- Vamos saltar aqui.
Ele virou-se para Judd.
- Moody disse se haveria algum com ele?
- No.
McGreavy desabotoou o casaco e transferiu o revlver do coldre para o bolso. Angeli fez o 
mesmo.
- Fique atrs de ns - disse McGreavy a Judd.
Os trs homens comearam a andar, as cabeas baixas contra a chuva e o vento. no meio do 
quarteiro viram um prdio quase em runas, com uma placa desbotada em cima da porta, onde estava escrito:
 FIVE STAR MEAT PACKING COMPANY 
No havia por ali ningum carro ou caminho, nenhuma luz acesa, nenhum sinal de vida.
Os dois detetives aproximaram-se da porta, um de cada lado. McGreavy experimentou a 
porta. Estava trancada. Ele olhou ao redor, mas no havia nenhuma campainha. Ficaram escutando. 
O silncio s era quebrado pelo rudo da chuva.
- Parece que est fechada - disse Angeli.
- Provavelmente no deve haver ningum - comentou McGreavy.
- Na sexta-feira anterior ao Natal, a maioria das companhias encerra o expediente ao 
meio-dia.
- Deve haver alguma entrada de carga.
Judd seguiu os dois detetives, avanando cautelosamente em direo aos fundos do prdio, 
evitando as poas de gua.
Chegaram a um beco onde puderam divisar uma plataforma de embarque, com diversos 
caminhes estacionados diante dela.
No havia ali a menor atividade. Avanaram at a plataforma.
- Muito bem - disse McGreavy para Judd. - Pode comear a cham-lo.
Judd hesitou, sentindo-se irracionalmente triste por estar traindo Moody. Depois gritou bem 
alto:
- Moody!
A nica resposta foi o miado de um gato, perturbado em sua busca de um abrigo seco.
- Sr. Moody.
Em cima da plataforma havia uma imensa porta corredia de madeira, que comunica o interior 
do armazm com o local em que os caminhes eram carregados. No havia degraus para se subir na plataforma. McGreavy iou-se para cima com uma agilidade surpreendente 
para algum do seu tamanho. Angeli segui-o e depois foi a vez de Judd. Angeli aproximou-se da porta corredia e empurrou-a. A imensa porta se abriu, com um guincho 
alto e estridente de protesto. O gato reagiu esperanoso, esquecendo-se da busca de um abrigo. Dentro do armazm estava escuro como breu.
- Trouxe uma lanterna? - perguntou McGreavy a Angeli.
- No.
- Merda!
Cautelosamente, eles foram avanando pela escurido. Judd tornou a gritar.
- Sr. Moody! Sou eu, Judd Stevens!
No havia o menor barulho, a no ser os rangidos das pranchas de madeira que os trs 
homens pisavam. McGreavy tateou os bolsos e tirou uma caixa de fsforos. Acendeu um e 
levantou-o. A luz fraca e vacilante projetou um brilho amarelado no que parecia ser uma imensa caverna vazia. O fsforo se apagou.
- Descubram o maldito interruptor! - disse McGreavy. - Era o meu ltimo fsforo.
Judd ouviu Angeli tateando as paredes,  procura do interruptor de luz. Judd continuou em 
frente. No podia ver os dois.
- Moody! - gritou ele novamente.
Ouviu a voz de Angeli do outro lado:
- Encontrei um interruptor.
Houve um clique. Nada aconteceu.
- A chave geral deve estar desligada - disse McGreavy.
Judd esbarrou numa parede. Ao estender as mos para equilibrar-se, seus dedos seguraram 
uma tranca de porta. Levantou-a e puxou. Uma porta macia se abriu e um sopro de ar gelado 
atingiu-o.
- Encontrei uma porta - gritou ele.
Ele passou pelo umbral e avanou cautelosamente. Ouviu a porta se fechar atrs de si e o 
corao disparou. Ali dentro estava ainda mais escuro, e ele parecia avanar para a mais profunda das trevas.
- Moody! Moody!
Silncio total. Moody tinha que estar ali, em algum lugar! Se ele no estivesse, Judd sabia o 
que McGreavy iria pensar. Seria o menino gritando "lobo" novamente.
Judd deu outro passo para a frente e subitamente sentiu uma carne fria encostar-se em seu 
rosto. Deu um pulo para o lado, em pnico. Os cabelos da nuca se arrepiaram. Sentiu o cheiro forte de sangue de morte em seu redor. Havia um demnio naquela escurido, 
espreitando para atac-lo. 
Judd comeou a suar frio. O corao batia to depressa que era difcil respirar. Com dedos trmulos, ele procurou uma caixa de fsforos nos bolsos do sobretudo. 
Encontrou-a e acendeu um fsforo. Viu ento um gigantesco olho morto diante do seu rosto. Levou um segundo para se recuperar do choque e compreender que estava diante 
de uma carcaa de uma vaca, pendurada num gancho. Judd ainda se apercebeu de outras carcaas de outros animais e os contornos de porta na outra extremidade antes 
de o fsforo se apagar. A porta provavelmente dava para um escritrio. Moody talvez estivesse l, esperando-o.
Judd avanou pela caverna escura, na direo da porta. Sentiu de novo a carne gelada de um 
animal morto roar em seu corpo. Deu um passo para o lado, rapidamente, e seguiu em direo  porta do escritrio.
- Moody!
"O que ser que estava detendo Angeli e McGreavy?", pensou Judd. Ele passou pelos animais 
abatidos, com a sensao de que algum, com um senso de humor macabro, estava-lhe pregando uma pea terrvel, tpica de um manaco. Mas no conseguia imaginar quem, 
nem por qu. Ao se aproximar da porta, Judd colidiu com outra carcaa de animal.
Parou por um momento, para se orientar. Resolvera acender o ltimo fsforo que lhe restava. 
E descobriu,  sua frente, espetado no gancho de carne e sorrindo obscenamente, o corpo de Norman Z. Moody. O fsforo se apagou.


Captulo 14


O pessoal da percia terminou seu trabalho e se foi. O corpo de Moody foi removido e todos 
partiram,  exceo de Judd, McGreavy e Angeli. Estavam estes na pequena sala do gerente, 
decorada com uma coleo impressionante de calendrios de nus, uma velha escrivaninha, uma cadeira giratria e dois arquivos de ao. As luzes estavam acesas e um 
aquecedor eltrico funcionava no mximo.
O gerente, um certo Paul Moretti, fora localizado numa festa pr-natalina e de l arrancado 
para responder a algumas perguntas. Ele explicara que havia liberado os empregados ao meio-dia, j que a semana de feriados estava comeando. Trancara tudo e, ao 
que sabia, no ficara ningum no interior do armazm. O Sr. Moretti estava ligeiramente embriagado. Quando McGreavy compreendeu que ele no poderia ajudar em mais 
nada, mandou que o levassem para casa. Judd mal se apercebera do que acontecia. Seus pensamentos estavam concentrados em Moody. Lembrava-se de como ele fora jovial 
e cheio de vida e indignava-o o seu cruel assassinato. E Judd atribua a culpa a si mesmo. 
Se ele no houvesse envolvido Moody no caso, o gordo detetive ainda estaria vivo.
Era quase meia-noite. Judd, exausto, j repetira dez vezes a histria do telefonema de Moody. 
McGreavy, encolhido dentro de seu sobretudo, fitava-o insistentemente, mastigando sem parar um charuto. Finalmente ele perguntou a Judd:
- Costuma ler histrias de detetives?
Judd ficou surpreso
- No. Por qu?
- Vou-lhe dizer. Acho que  bom demais para ser verdadeiro, Sr. Stevens. Acreditei, desde 
o incio, que o Senhor estava enterrado nesse assunto at o pescoo. E eu lhe disse isso. O que 
aconteceu, ento? Subitamente transformou-se de assassino provvel em possvel vtima. Primeiro alega que um carro tentou atropel-lo deliberadamente...
- E ele foi mesmo atropelado - recordou Angeli.
- Um recruta poderia facilitar explicar o que houve. Isso pode ter sido arrumado por algum 
que esteja trabalhando com o nosso Doutor.
McGreavy voltou a dirigir-se a Judd:
- Em seguida telefona para o Detetive Angeli com uma histria delirante sobre dois homens 
que estariam tentando arrombar seu consultrio para mat-lo.
- E arrombaram mesmo - disse Judd.
- No, no arrombaram coisa alguma. Usaram uma chave especial. E o senhor disse que s 
existiam duas chaves: a sua e a de Carol Roberts.
- Exatamente. Mas eu j lhe expliquei que, provavelmente, eles tiraram uma cpia da chave 
de Carol.
- Eu me lembro perfeitamente do que explicou. Mandei fazer um teste de parafina. A chave 
de Carol nunca foi copiada, Doutor.
Ele fez uma pausa para deixar que a informao fosse absorvida.
- E como a chave dela est em meu poder... s resta a sua, no  mesmo, Doutor?
Judd estava aturdido demais para falar.
- Como eu no aceitasse a teoria do manaco  solta, Doutor, o senhor resolveu contratar um 
detetive particular pelas pginas amarelas e logo depois, convenientemente, ele descobre uma bomba instalada em seu carro. Chega ento  concluso de que j est 
na hora de jogar outro cadver no meu caminho e conta a histria a Angeli; uma histria sobre um telefonema que recebeu de Moody. 
Ele descobrira quem era o maluco que est tentando mat-lo. Mas veja o que acontece? Ns 
chegamos aqui e descobrimos que Moody est pendurado num gancho de carne!
Judd ficou vermelho de raiva.
- Mas no sou responsvel pelo que aconteceu!
McGreavy lanou-lhe um olhar duro.
- Sabe qual  a nica razo de ainda no estar preso, Doutor?  no conseguir at agora 
encontrar um motivo para este quebra-cabeas. Mas encontrarei, Doutor.  uma promessa.
Ele levantou-se. Subitamente Judd recordou-se de uma coisa:
- Espere um instante! E o que me diz de Don Vinton?
- O que h com ele?
- Moody disse-me que era o homem que estava por trs de tudo isso.
- Conhece algum chamado Don Vinton, Doutor?
- No. Mas... achei que a polcia deveria conhecer.
- Nunca ouvi falar nele!
McGreavy virou-se para Angeli, que sacudiu a cabea negativamente.
- Muito bem. Mande um pedido de informao a respeito de Don Vinton para o FBI, Interpol 
e para os chefes de polcia das principais cidades americanas.
Ele virou-se em seguida para Judd:
- Satisfeito?
Judd assentiu. Quem quer que estivesse por trs de tudo aquilo, no poderia deixar de ter uma 
ficha criminal. No deveria ser difcil identific-lo.
Ele pensou novamente em Moody, seus aforismos de alegria e sua mente gil. Deviam t-lo 
seguido at ali. Era pouco provvel que tivesse falado com outra pessoa a respeito do encontro, porque ressaltara insistentemente a necessidade de segredo. Mas, 
pelo menos, eles sabiam agora o nome do homem que estava procurando. 
Praemonitus, praemunitas.
Um homem prevenido vale por dois.
O assassinato de Norman Z. Moody foi estampado nas primeiras pginas dos jornais da 
manh seguinte. Judd comprou um jornal a caminho do consultrio. Ele era mencionado, de 
passagem, como uma testemunha que estava junto com a polcia quando o corpo fora encontrado. 
McGreavy conseguira manter os fatos completos fora do conhecimento da imprensa. Isso significava que estava jogando com as cartas coladas no peito. Judd ficou imaginando 
o que Anne iria pensar.
Era sbado, e Judd costumava fazer uma ronda na clnica. Mas ele providenciara para que 
algum o substitusse. Foi para o consultrio, subindo sozinho no elevador e certificando-se de que ningum estava  espreita no corredor. At quando uma pessoa 
poderia viver assim,  espera de que, a qualquer momento, um assassino o atacasse?
Por meia dzia de vezes, durante a semana, ele estendeu a mo para pegar o telefone, 
pensando em ligar para Angeli e perguntar-lhe a respeito de Don Viton. Mas em todas as vezes conteve a sua impacincia. Angeli, certamente, iria telefonar-lhe assim 
que soubesse de alguma coisa. 
Por mais que pensasse a esse respeito, Judd no conseguia encontrar uma motivao para os atos de Don Viton. Talvez fosse um paciente que ele tratara h muitos anos, 
do tempo em que ainda era interno. Algum que achava que Judd o desdenhara ou prejudicara, de alguma forma. Mas Judd no conseguia lembrar-se de nenhum paciente 
chamado Vinton. 
Ao meio-dia ele ouviu um barulho na porta do corredor. Era Angeli. Judd nada pde deduzir 
de sua expresso, a no ser que estava mais plido. Parecia extremamente cansado. O nariz estava vermelho e ele fungava constantemente. Entrou na sala de Judd e 
afundou-se pesadamente numa cadeira.
- J recebeu alguma resposta a respeito de Don Vinton? - indagou Judd, ansiosamente.
 Angeli assentiu.
- Recebemos teletipos do FBI, dos chefes de polcia das principais cidades americanas e da 
Interpol.
Judd esperou, contendo a respirao.
- Ningum jamais ouviu falar de Don Vinton.
Judd fitou Angeli, incrdulo. Sentiu subitamente um peso imenso no estmago.
- Mas isso  impossvel! Algum tem que conhec-lo! Um homem capaz de fazer tudo isso 
no pode ter surgido do nada!
- Foi o que McGreavy disse - respondeu Angeli, a voz cansada. - Doutor, eu e meus homens 
passamos a noite inteira verificando cada Don Vinton que existe em Manhattam e nas localidades prximas. Investigamos at mesmo Nova Jersey e Connecticut.
Ele tirou um papel todo escrito do bolso e mostrou-o a Judd.
- Descobrimos dezessete Dons Vinton no catlogo telefnico. Mas reduzimos a lista a cinco 
possveis suspeitos e verificamos um por um. Um  paraltico. Outro  padre.  O terceiro  
vice-presidente de um banco. O quarto  bombeiro que estava de servio quando ocorreram dois dos trs crimes. S deixei fora o ltimo da lista, que  dono de uma 
loja de animais domsticos e deve ter mais de oitenta anos.
A garganta de Judd estava seca. Ele compreendeu o quanto confiara em que se descobrisse 
alguma coisa por aquele meio. Certamente Moody no lhe teria fornecido o nome se no tivesse certeza. E ele no dissera que Don Vinton era um simples cmplice, mas 
sim um homem que estava por trs de tudo. Era inconcebvel que a polcia no tivesse a ficha de um homem assim. Moody fora assassinado porque descobrira a verdade. 
E agora que Moody estava fora do caminho, Judd ficava completamente sozinho. O cerco estava-se fechando.
- Lamento muito - disse Angeli.
Judd olhou para Angeli e lembrou-se de que o detetive passara a noite inteira fora de casa, 
apesar de estar com um forte resfriado. Disse, agradecido:
- Muito obrigado por tentar.
Angeli inclinou-se para a frente.
- Tem certeza de que ouviu bem o nome que Moody lhe disse pelo telefone?
- Tenho.
Judd fechou os olhos, concentrando-se. Ele perguntara a Moody se tinha certeza de que sabia 
quem realmente estava por trs de tudo. Ouviu novamente a voz de Moody: - Absoluta. J ouviu falar em Don Vinton? - Era isso mesmo: Don Vinton. Judd abriu os olhos.
- Tenho.
Angeli suspirou.
- Ento chegamos a um beco sem sada.
Ele soltou uma risada e acrescentou:
- Sem nenhum trocadilho.
Ele espirrou novamente e Judd comentou:
-  melhor voltar para a cama.
Angeli levantou-se.
- , acho que tem razo.
Judd hesitou antes de perguntar:
- H quanto tempo trabalha com McGreavy?
- Este  o nosso primeiro caso juntos. Por qu?
- Acha que ele  capaz de querer incriminar-me de qualquer maneira?
Angeli espirrou novamente.
- Acho que est certo, Doutor. O melhor mesmo  eu voltar para a cama.
Ele encaminhou-se para a porta, mas Judd disse antes que Angeli deixasse a sala:
- Talvez eu tenha uma pista.
Angeli parou e virou-se.
- Continue.
Judd falou-lhe a respeito de Teri. Acrescentou que iria tambm investigar alguns antigos 
amiguinhos de John Hanson.
- No parece muito promissor - disse Angeli, com franqueza. - Mas acho que  melhor do que 
nada.
- Estou cansado de ser um alvo passivo. Vou comear a reagir, saindo atrs deles.
- De que forma? Estamos enfrentando sombras.
- Quando as testemunhas descrevem um suspeito, a polcia manda um desenhista fazer um 
esboo de todas as feies e traos descritos, no  mesmo?
Angeli assentiu.
-  um esboo de identidade, um retrato falado.
Judd comeou a andar de um lado para o outro, irrequieto.
- Pois vou lhe dar um esboo da personalidade do homem que est por trs de tudo.
- Como pode faz-lo? Nunca o viu. Ele pode ser qualquer pessoa.
- No, no pode. Estamos procurando algum muito especial.
- Algum que  insano.

- A insanidade  uma coisa muito ampla. No tem qualquer definio mdica. A insanidade 
 simplesmente a capacidade da mente se ajustar-se  realidade. Se no conseguimos ajustar, ou nos escondemos da realidade ou nos colocamos acima da vida, onde somos 
super seres que no precisam acatar as regras da sociedade.
- Ento o nosso homem se julga um super ser.
- Exatamente. Numa situao de perigo, Angeli, temos sempre trs opes. Fugir, chegar 
a um compromisso construtivo ou atacar. O nosso homem prefere atacar.
- Ento ele  um luntico.
- No. Os lunticos raramente matam. Eles s se conseguem concentrar em algo por um 
espao de tempo muito curto. Estamos tratando de algum muito mais complexo. Ele pode sofrer de alguma perturbao de origem psicossomtica, hipofrnica, esquizofrnica, 
ciclide, ou uma combinao de todas elas. Podemos tambm estar enfrentando um problema de fuga, uma amnsia precedida por atos irracionais. Mas, seja como for, 
a aparncia e o comportamento dele parecero a todos perfeitamente normal.
- Ento no temos nada em que nos basear para continuarmos.
- Est enganado. At que j temos muita base. Posso fornecer-lhe uma descrio fsica do 
homem que estamos procurando.
Judd cerrou os olhos, concentrou-se
- Dom Vinton  de estrutura mdia, corpo bem proporcionado, e constituio atltica. 
Veste-se impecavelmente e  meticuloso em tudo o que faz. No possui o menor talento artstico. 
No pinta, no escreve, no toca piano.
Angeli ficou boquiaberto. Judd continuou falando mais rapidamente agora:
- No pertence a nenhum clube ou organizao social. A no ser que os esteja dirigindo.  
um homem que tem de estar no comando, implacvel e impaciente. Joga alto. Por exemplo: jamais esteve implicado em roubos midos. Se tem ficha na polcia,  por assalto 
a banco, seqestro ou homicdio.
A agitao na mente de Judd aumentava  medida que a imagem se ia definindo com nitidez 
em sua mente.
- Quando o pegarem, provavelmente iro descobrir que foi rejeitado pelo o pai ou pela me 
quando criana.
Angeli interrompeu-o:
- Doutor, no quero esvaziar seu balo, mas pode ser algum viciado maluco que...
- No. O homem que estamos procurando no toma drogas.
A voz de Judd era positiva.
- Vou-lhe dizer mais uma coisa a respeito dele: praticou desporto coletivo na escola. Futebol 
ou hquei. No possui o menor interesse por xadrez, jogos de palavras ou quebra-cabeas.
Angeli estava agora visivelmente ctico.
- H mais de um homem, Doutor. Foi o senhor mesmo quem disse.
- Estou-lhe dando uma descrio de Don Vinton, o homem que est dando as ordens. E tem 
mais: ele  um tipo latino.
- O que o faz pensar assim?
- Os mtodos que ele usou nos crimes. Uma faca, cido, uma bomba. Ele  sul-americano, 
italiano ou espanhol.
Judd respirou fundo antes de concluir:
- A est seu esboo de identificao. Esse  o homem que cometeu trs assassinatos e est 
querendo matar-me.
Angeli engoliu em seco.
- Como diabo pode saber de tudo isso?
Judd sentou-se e inclinou-se na direo de Angeli.
-  minha profisso.
- O lado mental, sim. Mas como pode dar a descrio fsica de um homem que nunca viu?
- Estou-me baseando na lei das probabilidades. Um mdico chamado Kretschmer descobriu 
que 85 por cento das pessoas que sofrem de parania possuem corpo atltico, bem proporcionado. 
Nosso homem  evidentemente um paranico. Tem mania de grandeza.  um megalomanaco que pensa estar acima da lei.
- Ento porque  que ele no foi ainda apanhado?
- Porque est usando uma mscara.
- Est usando o qu?
- Todos ns usamos mscaras, Angeli. Desde a infncia, ensinam-nos a esconder os nossos 
sentimentos verdadeiros, a encobrir nossos dios e medos. Mas sob tenso, Don Vinton vai acabar deixando cair a mscara e exibindo a outra face.
- Entendo.
- O ego dele  seu ponto vulnervel. Se se sentir ameaado, realmente ameaado, ento vai 
desmoronar. Ele est agora pisando em gelo fino. No vai demorar a desmoronar por completo.
Judd hesitou, mas depois continuou, quase que falando para si mesmo:
- Ele  um homem que tem... mana.
- Tem o qu?
- Mana.  um termo usado pelos primitivos para designar um homem que exerce influncias 
sobre os outros por causa dos demnios que existem dentro dele. Em suma, um homem com uma personalidade dominante.
- Disse que ele no pinta, no escreve nem toca piano. Como pode saber disso?
- O mundo est cheio de artistas que so esquizofrnicos. A maioria consegue atravessar a 
vida sem cometer qualquer violncia porque o trabalho proporciona um meio de expresso, de 
evaso. Nosso homem no possui esse desaguadouro. Por isso ele  como um vulco. A nica 
maneira que tem de se livrar da presso interior  pela erupo: ou seja, pela morte de Hanson, Carol e Moody.
- Est querendo dizer que foram crimes sem sentido que ele cometeu para..
- Ele no faz coisas sem sentido. Pelo contrrio...
A mente de Judd trabalhava rapidamente. Diversos outros pedaos do quebra-cabeas se 
ajustaram em seus lugares. Ele censurou-se por ter estado cego e assustado demais para v-los antes.
- Eu sou a nica pessoa que Don Vinton est realmente querendo liquidar, seu alvo principal. 
John Hanson foi morto porque o confundiu comigo. Quando o assassino descobriu o erro, veio ao meu consultrio para uma segunda tentativa. Eu tinha sado, mas ele 
encontrou Carol.
A voz de Judd estava furiosa. Ele fez uma pausa, que Angeli aproveitou para perguntar:
- Ele matou-a s para que ela no pudesse identific-lo?
- No. O homem que estamos procurando no  um sdico. Carol foi torturada porque ele 
queria alguma coisa. Digamos que se tratasse de alguma prova incriminadora que ela no quis ou no pde fornecer-lhe.
- Que espcie de prova, Doutor?
- No tenho a menor idia. Mas a est a chave de tudo. Moody descobriu a resposta e foi por 
isso que o mataram.
- Mas h uma coisa que ainda no est fazendo sentido - insistiu Angeli. - Se eles o tivessem 
assassinado na rua, Doutor, ento no poderiam encontrar o que esto procurando. Isso no se ajusta ao resto da sua teoria.
-  possvel. Vamos supor que eles estejam procurando alguma coisa nas minhas gravaes. 
Por si s, talvez seja uma informao inteiramente inofensiva. Mas, eles tm duas alternativas. Ou arrancam a fita de mim ou me assassinam, a fim de que eu no possa 
transmitir a informao a ningum. Primeiro eles tentaram eliminar-me, mas cometeram um engano e mataram Hanson. Depois buscaram a segunda alternativa. Tentaram 
arrancar de Carol a informao de que precisavam. 
Quando fracassaram, decidiram concentrar-se em matar-me. Houve o acidente de carro. Provavelmente fui seguido quando contratei Moody, que por sua vez foi tambm 
seguido. Quando ele descobriu a verdade, trataram de assassin-lo.
Angeli franziu o rosto, pensativo.
-  por isso que o assassino no vai parar enquanto no conseguir matar-me - concluiu Judd 
calmamente. - Torna-se um jogo mortal, e o homem que eu descobri no suporta a idia de perder.
Angeli estudava-o atentamente, avaliando tudo o que acabava de ouvir.
- Se est certo, Doutor, ento vai precisar de proteo.
Ele tirou o revlver do coldre e verificou se estava tudo carregado.
- Obrigado, Angeli, mas no preciso de uma arma. Vou lutar contra eles com as minhas 
prprias armas.
Houve um estalido agudo. A porta externa se abriu.
- Est esperando algum, Doutor?
Judd sacudiu a cabea.
- No. No tenho nenhum paciente marcado para esta tarde.
Com a arma na mo, Angeli avanou rapidamente at a porta que dava para a sala de 
recepo. Ficou de lado e abriu-a bruscamente. Peter Hadley estava parado ali, com uma expresso aturdida no rosto.
Judd foi at a porta e disse a Angeli:
- Est tudo bem. Ele  amigo meu.
- Que diabo est acontecendo aqui? - indagou Peter.
- Desculpe - disse Angeli, guardando a arma.
- Este  o Dr. Peter Hadley... Detetive Angeli.
- Que espcie de clnica psiquitrica inteiramente louca voc est fazendo aqui, Judd - 
indagou Peter.
- Houve um pequeno problema - explicou Angeli. - O consultrio do Dr. Stevens foi... 
assaltado e pensamos que fosse o ladro que estivesse de volta.
Judd aproveitou a deixa:
- Isso mesmo. Eles no encontraram o que estavam procurando.
- Isso tem alguma relao com o assassinato de Carol? - indagou Peter.
Angeli falou antes que Judd pudesse responder:
- No tenho certeza, Dr. Hadley. Mas, por enquanto, a polcia pediu ao Dr. Stevens que no 
discutisse o caso com ningum.
- Eu compreendo - disse Peter, olhando em seguida para Judd: - O compromisso de 
almoarmos juntos ainda est de p?
Judd esquecera-se completamente.
- Mas claro que sim - disse ele rapidamente, dirigindo-se depois a Angeli: - Acho que j 
examinamos tudo.
- Creio que sim, Doutor. Tem certeza de que no quer...
- Ele indicou o revlver.
Judd sacudiu a cabea.
- No, obrigado.
- Est certo. Tome cuidado, Doutor.
- Fique tranqilo. Tomarei.

Judd mostrou-se bastante preocupado durante o almoo e Peter no o pressionou. 
Conversaram sobre amigos e pacientes comuns. Peter contou a Judd que falara ao chefe de Harrison Burke. Tudo j foi providenciado para que se submetesse a um exame 
psiquitrico, sendo internado numa clnica particular.
Ao caf, Peter disse:
- No sei qual  o problema que est enfrentando, Judd, mas se eu puder ajudar em alguma 
coisa...
Judd sacudiu a cabea. 
- Obrigado, Peter.  um problema que terei de resolver sozinho. Eu lhe contarei quando tudo 
estiver acabado.
- S espero que no demore - disse Peter, procurando falar jovialmente. 
Hesitou por um momento, mas acabou perguntando:
- Judd... voc est correndo algum perigo?
-  claro que no!
O que seria verdade se no houvesse um manaco homicida que j cometera trs assassinatos 
e estava determinado a fazer Judd sua quarta vtima.


Captulo 15


Judd voltou para o escritrio depois do almoo. Efetuou novamente a mesma rotina 
cuidadosamente, tentando expor-se o mnimo possvel.
Se  que essas preocupaes adiantavam alguma coisa.
Comeou a ouvir as fitas novamente, tentando achar algo que pudesse proporcionar-lhe uma 
pista. Era como ligar uma torrente de grafito verbal. O jorro de som estava repleto de dio... 
perverso... medo... comiserao de si prprio... megalomania... solido... vazio... dor...
Ao fim de trs horas descobrira um nico novo nome a acrescentar na sua lista: Bruce Boyd, 
o homem com quem John Hanson vivera por ltimo. Ele ps novamente a fita de Hanson no gravador.
- ...Acho que me apaixonei por Bruce  primeira vista. Era o homem mais bonito que j tinha 
conhecido.
- Ele era o parceiro passivo ou dominante, John?
- Dominante. Foi uma das coisas que me atraram nele. Bruce  muito forte. Mais tarde, 
quando nos tornamos amantes, costumvamos brigar por causa disso.
- Como assim?
- Bruce no tinha conscincia da sua prpria fora. Costumava aproximar-se por trs de mim 
e dar-me um soco nas costas. Ele o fazia como um gesto de amor, mas um dia quase me quebrou a espinha. Tive vontade de mat-lo. Quando apertava a mo de algum, 
quase lhe esmagava os dedos. 
Ele sempre fingia estar arrependido, mas no fundo Bruce gosta de machucar as pessoas. E ele no precisava de um chicote para isso.  um homem muito forte...
Judd parou a fita e ficou imvel, pensando. O padro do homossexual no se ajustava ao seu 
conceito do assassino. Mas por outro lado, Bruce estivera envolvido com Hanson e era sdico e egocntrico.
Judd olhou para os dois nomes em sua lista: Teri Washburn, que matara um homem em 
Hollywood e nunca mencionara o fato; Bruce Boyd, o ltimo amante de John Hanson. Se fora um deles... qual dos dois?

Teri Washburn morava num apartamento de cobertura em Sutton Place. Todo o apartamento 
era decorado num tom de rosa berrante: as paredes, os mveis, as cortinas. Havia peas carssimas espalhadas por toda a parte. As paredes estavam cobertas de impressionistas 
franceses. Judd reconheceu dois Manets, dois Degas, um Monet e um Renoir, antes que Teri entrasse na sala. Ele lhe telefonara dizendo que queria visit-la. Teri 
se preparava para receb-lo. Estava usando um nglig rosa algo transparente, sem nada por baixo.
- Voc veio mesmo! - exclamou ela, alegremente.
- Eu queria falar-lhe, Teri.
- Mas claro! Aceita um drinque?
- No, obrigado.
- Pois acho que vou preparar um para mim. A ocasio merece uma comemorao.
Teri dirigiu-se ao bar que havia a um canto da imensa sala de estar. Judd ficou observando-a, 
pensativo.
Ela voltou com um drinque e sentou-se perto dele, no sof rosa.
- Ento quer dizer que o sexo finalmente o trouxe at aqui, querido. Eu sabia que voc no 
poderia continuar a resistir  pequena Teri. Estou louquinha por voc, Judd. Farei qualquer coisa que quiser. Basta dizer. Voc faz com que todos os caras que j 
conheci na vida paream pobres coitados.
Teri largou o copo em cima de uma mesinha e estendeu as mos para as calas de Judd. Ele 
segurou-lhe as mos.
- Teri, estou precisando da sua ajuda.
A mente dela estava viajando num mundo prprio.
- Eu sei, meu bem - gemeu ela. - Voc vai ter de mim o que nunca recebeu em toda a vida.
- Teri, por favor, escute! Algum est tentando assassinar-me!
Os olhos dela foram pouco a pouco manifestando surpresa. Ela estaria representando... ou 
seria uma reao genuna? Judd recordou-se do desempenho dela num de seus ltimos espetculos. 
Era uma reao genuna. Teri era uma boa atriz, mas no a esse ponto.
- Oh, Deus! E quem... quem est querendo assassin-lo?
- Talvez seja algum ligado a um dos meus pacientes.
- Mas... mas por qu?
-  isso que estou tentando descobrir, Teri. Algum dos seus amigos j falou em matar... Ou 
assassinar? Talvez numa festa, por brincadeira?
Teri sacudiu a cabea.
- No.
- Conhece algum chamado Don Vinton?
- Don Vinton? No. Acha que devo conhecer?
- Teri... como se sente com relao a um homicdio?
Um pequeno estremecimento correu no corpo dela. Judd estava segurando-lhe os pulsos e 
sentiu que dispararam.
- O homicdio a deixa nervosa, Teri?
- No sei...
- Pense um pouco, Teri. A idia de homicdio a deixa excitada?
Os pulsos dela pulavam irregularmente.
- No!  claro que no!
- Por que no me disse nada a respeito do homem que matou em Hollywood?
Sem qualquer aviso, ela estendeu as mos para rasgar-lhe o rosto com as unhas compridas. 
Judd conseguiu cont-las.
- Seu filho da puta nojento! Isso aconteceu h vinte anos atrs. Ento foi por isso que veio 
at aqui! Saia! Saia!
Teri desabou no sof, em soluos histricos.
Judd ficou a observ-la por mais um momento. Teri era passvel de ser envolvida num crime. 
Sua insegurana e a ausncia total de amor-prprio tornavam-na presa fcil de quem quer que 
desejasse us-la. Ela era como um pedao de argila mole largada numa sarjeta. A pessoa que a recolhesse poderia mold-la numa linda esttua... ou numa arma fatal. 
A questo era saber quem a recolhera por ltimo. Don Vinton?
Judd levantou-se.
- Lamento muito, Teri.
E saiu do apartamento cor-de-rosa.
Bruce Boy vivia numa casa em Greenwich Village onde outrora ficavam umas cavalarias. 
A porta foi aberta por um mordomo filipino de jaleco branco. Judd disse o seu nome e foi convidado a entrar e aguardar no vestbulo. O mordomo desapareceu. Dez, 
quinze minutos se passaram. Judd conteve sua irritao. Deveria ter dito ao Detetive Angeli que viria at ali. Se a teoria de Judd fosse correta, a prxima tentativa 
de mat-lo no demoraria a ocorrer. E, dessa vez, o assassino tudo faria para garantir a consumao do crime.
O mordomo voltou. 
- O Sr. Boyd ir receb-lo.
Ele conduziu Judd at um estdio muito bem decorado no segundo andar, retirando-se em 
seguida, discretamente.
Boyd estava sentado a uma escrivaninha. Parecia ocupado em escrever algo. Era um homem 
bonito, com feies delicadas, nariz aquilino, boca peluda e sensual, cabelos louros, encaracolados. levantou-se assim que Judd entrou. Tinha mais de 1,90 metros 
de altura, peito e ombros de atleta. 
Judd pensou no esboo de identificao fsica do assassino que fizera. Boyd correspondia plenamente. 
Judd desejou mais do que nunca ter deixado algum aviso para Angeli.
- Perdoe-me por faz-lo esperar, Dr. Stevens - disse ele cordialmente. - Eu sou Bruce Boyd.
Estendeu a mo. Judd adiantou-se para apert-la e, nesse momento, Boyd desferiu-lhe um 
soco na boca, com um punho de granito. O golpe foi totalmente inesperado e o impacto arremessou 
Judd para trs, derrubando um abajur ao cair no cho.
- Desculpe, Doutor - disse Boyd, fitando-o tranqilamente. - Mas o senhor bem que merecia 
isso. Foi um menino muito mau, no acha? Levante-se e eu lhe preparo um drinque.
Judd sacudiu a cabea, completamente tonto. Comeou a levantar-se, mas Boy chutou-o na 
virilha com a ponta do sapato e Judd caiu novamente no cho, contorcendo-se de dor.
- Eu j estava esperando que me viesse procurar, Doutor.
Judd levantou os olhos, por entre as ondas incessantes de dor, para o vulto de p  sua frente. 
Tentou falar, mas no conseguiu pronunciar uma s palavra.
- No tente falar - disse Boyd, mais benevolente. - Deve estar doendo bastante. Eu sei por 
que est aqui. Quer-me fazer perguntas a respeito de Johnny.
Judd assentiu e Boyd chutou-o na cabea. Atravs de uma neblina vermelha, a voz de Boyd 
chegou at Judd, distante e abafada, volta e meia se desvanecendo:
- Ns nos amvamos at que ele foi procur-lo. O senhor fez com que ele se sentisse anormal, 
Doutor. Fez com que pensasse que nosso amor era algo sujo, repugnante. Sabe quem o tornou sujo assim, Dr. Stevens? Foi o senhor mesmo!
Judd sentiu algo duro bater em suas costelas, provocando um riu de dor que se espraiou por 
suas veias. Ele estava agora vendo todos os objetos com cores vivas, como se a sua cabea estivesse repleta de arcos-ris que tremeluziam.
- Quem lhe deu o direito de dizer s pessoas como devem amar, Doutor? Fica sentado l em 
seu consultrio como se fosse um deus, condenando todo mundo que no pensa como o senhor!
"Mas isso no  verdade"! Judd ouviu uma parte de sua mente responder. "Hanson nunca". 
antes tivera qualquer alternativa. Foi a nica coisa que fiz: proporcionar-lhe uma alternativa. E ele acabou no escolhendo "!".
- Agora Johnny est morto - disse o gigante louro. - Matou meu Johnny, Doutor. E agora eu 
vou mat-lo.
Judd sentiu outro pontap atrs do ouvido e comeou a resvalar para a inconscincia. Alguma 
parte remota de sua mente observava, com um interesse distante, o resto do corpo comear a morrer. 
Aquela parte pequena e isolada da sua inteligncia, localizada no cerebelo, continuou a funcionar perfeitamente, sendo seus impulsos convertidos em pensamentos. 
Judd censurou-se por no ter chegado perto da verdade. Imaginara que o assassino fosse um tipo moreno, latino. Mas era louro. 
Ficava convencido de que o assassino no era homossexual e se enganara completamente. Encontrara finalmente o seu manaco homicida, e agora ia morrer por causa disso.
Judd perdeu os sentidos.


Captulo 16


Alguma parte distante e remota da mente de Judd estava tentando enviar-lhe uma mensagem, 
procurando comunicar-lhe algo de importncia csmica. Mas as marteladas dentro de seu crnio eram to angustiantes que ele no podia concentrar-se em coisa alguma! 
Em algum lugar, perto dele, podia ouvir um gemido agudo, como o uivo de um animal ferido. Lentamente, dolorosamente, Judd abriu os olhos. Estava deitado numa cama, 
num quarto estranho. A um canto do quarto estava Bruce Boyd, chorando inconsoladamente.
Judd tentou senta-se. A dor lancinante em seu corpo inundou-lhe a memria com a 
recordao do que lhe acontecera. E Judd sentiu-se subitamente dominado por uma fria selvagem e incontrolvel.
Boyd virou-se ao ouvir Judd mexer-se. Aproximou-se da cama e disse em tom de lamria:
- A culpa  sua. Se no fosse voc, Johnny ainda estaria seguro ao meu lado.
Sem poder dominar-se, impelido por algum instinto de vingana h muito esquecido e 
enterrado profundamente em sua mente. Judd estendeu as mos para a garganta de Boyd. Seus dedos se fecharam em torno da traquia do brutamontes, apertando-a com 
toda a fora. Boyd no fez o menor gesto para se defender. Continuou parado no mesmo lugar, enquanto as lgrimas lhe escorriam pelo rosto. Judd encarou-o e foi como 
se visse nos olhos dele um poo que ia dar no inferno. 
Lentamente, afrouxou os dedos e baixou as mos. "Meu Deus", pensou Judd, "eu sou um mdico!". 
Um homem doente me agride e a vontade que tenho  de mat-lo "! Olhar para Boyd era ver uma criana arrasada, aturdida".
E subitamente Judd compreendeu o que seu subconsciente vinha tentando informar-lhe: Bruce 
Boyd no era Don Vinton. Se fosse, Judd no estaria vivo nesse momento. Boyd era incapaz de cometer homicdio. Ento ele no errara ao pensar que Boyd no se ajustava 
 imagem que fizera do assassino! Era um consolo irnico na situao!
- Se no fosse por voc, Johnny estaria vivo agora - soluou Boyd. - Estaria aqui comigo e 
eu poderia proteg-lo.
- Eu no pedi a John Hanson que o deixasse - disse Judd, a voz cansada. - A idia partiu dele 
mesmo.
- Mentiroso!
- As coisas j estavam erradas entre voc e John antes mesmo dele ir procurar-me.
Houve um longo silncio. Depois Boyd assentiu:
- Tem razo. Ns... ns brigvamos o tempo todo.
- Ele estava procurando descobrir-se a si mesmo, e seus instintos lhe diziam que ele queria 
voltar para a esposa e para os filhos. No fundo, John queria ser heterossexual.
- Tem razo - murmurou Boyd. - Ele costumava falar nisso o tempo todo, mas eu pensava 
que era apenas para castigar-me.
Ele levantou os olhos e encarou Judd.
- Mas um dia ele me deixou. Ele... Simplesmente foi embora. Deixou de me amar.
Havia um desespero total em sua voz.
- Ele no deixou de am-lo - disse Judd. - Pelo menos no como amigo.
Os olhos de Boyd estavam agora fixos no rosto de Judd.
- Quer ajudar-me?
O desespero em seus olhos era indescritvel.
- Ajude-me! Tem que me ajudar!
Era um grito de angstia. Judd ficou calado por algum tempo.
- Est certo, eu o ajudarei.
- Poderei ser normal?
- No existe conceito absoluto de comportamento. Cada pessoa carrega a sua prpria 
normalidade dentro de si. No h duas pessoas que sejam iguais.
- Pode fazer de mim um heterossexual?
- Isso depende de que voc o queira de verdade. Nesse caso, podemos ajud-lo atravs da 
psicanlise.
- E se falhar?
- Se descobrirmos que voc nasceu homossexual, pelo menos poder ajustar-se a tal situao.
- Quando podemos comear, Doutor?
Bruscamente, Judd voltou  realidade. Estava sentado ali, conversando tranqilamente com 
um paciente, quando tudo indicava que seria assassinado dentro das prximas vinte e quatro horas. 
E ainda no tinha a menor idia de quem era Don Vinton. J eliminara os dois ltimos suspeitos da sua lista, Teri e Boyd. No sabia mais agora do que quando comeara. 
Se sua anlise de Don Vinton era correta, ele deveria estar, nesse momento, dominado por uma fria assassina. O prximo ataque seria desfechado sem demora.
- Telefone-me na segunda-feira - disse ele a Boyd.
Judd procurou avaliar as suas possibilidades de sobrevivncia, afundado num banco traseiro 
de um txi que o levava de volta ao prdio em que morava. Pareciam mnimas. O que Don Vinton poderia estar querendo to desesperadamente? E, quem era Don Vinton? 
Como era possvel que ele no tivesse ficha na polcia? Ser que ele estaria usando outro nome? No. Moody dissera claramente "Don Vinton".
Era difcil concentrar-se. Cada sacolejo do txi provocava dores terrveis em seu corpo 
machucado. Judd pensou nos assassinatos e tentativas cometidos at aquele momento, procurando encontrar alguma espcie de padro que fizesse sentido. Uma vtima 
esfaqueada, outra torturada at  morte, um "acidente" de carro, uma bomba em seu carro, um estrangulamento. No havia padro algum que ele pudesse discernir. Somente 
uma violncia implacvel, manaca. Ele no tinha como saber qual a forma que assumiria a prxima tentativa de mat-lo. Nem quem a executaria. Os lugares em que seria 
mais vulnervel eram o escritrio e o seu apartamento. Recordou-se do conselho de Angeli. Mandaria instalar trancas mais fortes nas portas do seu apartamento. Pediria 
a Mike, o porteiro, e a Eddie, o ascensorista, que ficassem de alerta. Podia confiar neles!
O txi parou diante do prdio em que morava. O porteiro abriu a porta de trs.
Era um homem totalmente desconhecido para ele.

Captulo 17


Era um homem grande, de pele morena, rosto bexiguento e olhos negros, bem fundos. Tinha 
uma cicatriz antiga na garganta. Estava usando o casaco do uniforme de Mike, apertado demais para ele.
O txi afastou-se e Judd ficou sozinho com o desconhecido. Foi invadido por um acesso 
sbito de dor. "Oh, meu Deus, agora no"! Ele cerrou os dentes.
- Onde est Mike?
- De frias, Doutor. 
Doutor! Ento o homem sabia quem ele era! E como Mike poderia tirar frias em Dezembro?
Havia um ligeiro sorriso de satisfao no rosto do homem. Judd olhou para um lado e outro 
da rua varrida pelo vento, mas estava completamente deserta. Ele poderia tentar correr, mas no teria qualquer possibilidade de escapar, no estado em que se encontrava. 
Seu corpo estava dolorido e sentia dores a cada respirao.
- Parece que sofreu um acidente, Doutor.
A voz do homem era jovial. Judd virou-se sem responder e entrou no saguo do edifcio. 
Podia contar com Eddie para ajud-lo.
O porteiro seguiu Judd at o saguo. Eddie estava no elevador, de costas. Judd avanou na 
sua direo. Cada passo constitua-se numa agonia desesperada. Ele sabia que no podia fraquejar agora. O importante era no deixar que o homem o pegasse sozinho. 
Ele no teria coragem de fazer qualquer coisa diante de testemunhas.
- Eddie! - chamou Judd.
O homem no elevador virou-se.
Judd nunca o vira antes. Era uma cpia em ponto menor do porteiro. S que no tinha a 
cicatriz. Era bvio que ambos eram irmos.
Judd parou, encurralado entre os dois. No havia mais ningum no saguo.
- Vamos subir - disse o homem no elevador.
Ele tinha no rosto o mesmo sorriso de satisfao do irmo. Ento eram assim os rostos da 
morte! Mas Judd tinha certeza de que nenhum dos dois era o crebro que comandava tudo. No passavam de assassinos profissionais contratados. Ser que pretendiam 
mat-lo ali, no saguo, ou deixariam para faz-lo em seu apartamento? "No apartamento", concluiu Judd. Isso lhes daria mais tempo para fugir, enquanto no descobrissem 
o corpo.
Judd deu um passo na direo do escritrio do gerente.
- Tenho que falar ao Sr. Katz sobre...
O homem maior bloqueou-lhe o caminho.
- O Sr. Katz est ocupado, Doutor - disse ele suavemente.
- Vou lev-lo l para cima - disse o homem do elevador.
- No, eu...
- Faa o que ele est dizendo.
No havia qualquer emoo na voz do grandalho.
Houve uma sbita rajada de ar gelado quando a porta do saguo se abriu. Dois homens e duas 
mulheres entraram apressadamente, rindo e conversando, encolhidos dentro dos seus casacos.
- Est pior do que na Sibria - disse uma das mulheres.
O homem que segurava o brao dela tinha um rosto rechonchudo, com um sotaque do 
Centro-Oeste:
- A noite l fora no d para homem nem para animal.
O grupo encaminhou-se para o elevador. O porteiro e o ascensorista se entreolharam, sem 
nada dizer.
A segunda mulher, uma loura oxigenada mida, com um sotaque sulista, disse ento:
- Foi uma tarde maravilhosa! Muito obrigada a vocs dois!
Ela estava despachando os homens!
O segundo homem soltou um resmungo de protesto.
- No vai querer que a gente se v antes de tomar um ltimo drinque de despedida, no ?
- J  muito tarde, George - disse a primeira mulher, sorrindo.
- Mas l fora est abaixo de zero! Vocs tm que nos dar um anticongelante.
O outro homem suplicou tambm:
- S um drinque e depois iremos embora.
- Bem...
Judd estava perdendo a respirao.
- Por favor!
A loura oxigenada terminou concordando.
- Est bem. Mas s um, entenderam?
Rindo, o grupo entrou no elevador. Judd entrou rapidamente com eles. O porteiro ficou 
parado l fora, sem saber o que fazer, olhando para o irmo. O ascensorista deu os ombros, fechou a porta e acionou o elevador. O apartamento de Judd ficava no quinto 
andar. Se o grupo saltasse antes, ele estaria perdido. Se saltasse depois, ele teria a possibilidade de entrar em seu apartamento, armar uma barricada e telefonar 
pedindo socorro.
- Qual  o andar?
A loura mida soltou uma risada.
- No sei o que meu marido diria se soubesse que convidei dois estranhos para o apartamento.
Ela virou-se para o ascensorista e acrescentou:
- Dcimo.
Judd soltou a respirao e disse, rapidamente.
- Quinto.
O ascensorista lanou-lhe um olhar paciente e malicioso, abrindo a porta no quinto andar. A 
porta do elevador se fechou.
Judd avanou para seu apartamento, quase cambaleando de dor. Tirou a chave do bolso, abriu 
a porta e entrou. O corao batia-lhe descompassadamente. Tinha cinco minutos no mximo antes que eles viessem mat-lo. A corrente soltou-se em sua mo! Examinou-a 
e viu que tinha sido cortada da tranca de segurana. Jogou-a longe e encaminhou-se para o telefone. Foi dominado por uma tontura sbita. Ficou parado, lutando contra 
a dor, os olhos fechados. Seu precioso tempo se escoava. Com grande esforo, recomeou a caminhar em direo ao telefone, movendo-se lentamente. A nica pessoa para 
quem ele conseguia se lembrar de telefonar era Angeli, mas este estava em casa, doente. Alm disso, o que poderia dizer? "Temos um novo porteiro e um novo ascensorista 
e acho que eles esto querendo me matar?" Judd percebeu de repente que estava segurando o telefone, paralisado, aturdido demais para fazer qualquer coisa! "Concluso", 
pensou ele. Boyd poderia t-lo matado, afinal de contas. Eles entrariam no apartamento e o encontrariam inteiramente impotente. Judd recordou-se da expresso nos 
olhos do grandalho. Tinha que ser mais esperto do que eles, fazer algo que no esperassem. Mas o qu, meu Deus?
Ligou o pequeno receptor de TV que focalizava o saguo. Estava deserto. A dor voltou, em 
ondas sucessivas, fazendo-o sentir-se fraco. Ele forou a mente cansada a concentrar-se no problema. 
Estava numa emergncia... Isso mesmo. Uma emergncia. Tinha que tomar medidas de emergncia. 
Isso mesmo... Sua viso estava nevoada. Os olhos focalizaram o telefone. "Emergncia"... Ele 
aproximou o dial dos olhos, a fim de conseguir ler os nmeros. Lentamente, dolorosamente, ele discou. Uma voz atendeu ao quinto toque da campainha. Judd falou, as 
palavras enroladas, meio indistintas. Seus olhos foram atrados por um movimento na tela de TV. Os dois homens, em roupas comuns, estavam atravessando o saguo, 
seguindo para o elevador.
Seu tempo se esgotava.
Os dois homens avanavam em silncio para o apartamento de Judd e prostraram-se dos dois 
lados da porta. O maior deles, Rocky, experimentou a maaneta. A porta estava trancada. Ele tirou o carto de celulide e inseriu-o cuidadosamente na fechadura. 
Fez um gesto com a cabea para o irmo e ambos sacaram os revlveres munidos de silenciadores. Rocky comprimiu o carto de celulide contra a fechadura e depois 
empurrou a porta, que se abriu lentamente, sem oferecer qualquer resistncia. Entraram na sala de estar, os revlveres em punho. Tinham diante de si trs portas 
fechadas. E no havia o menor sinal de Judd. O irmo menor, Nick, experimentou a primeira porta. Estava trancada. Ele sorriu para o irmo, encostou a boca da arma 
na fechadura e apertou o gatilho. A porta se abriu lentamente, sem qualquer barulho. Era de um quarto. Os dois homens entraram, os revlveres percorrendo o quarto 
de um lado ao outro.
No havia ningum l dentro. Nick verificou os armrios, enquanto Rock voltava para a sala 
de estar. Agiam sem qualquer pressa, sabendo que Judd estava escondido no apartamento, impotente. 
Havia um prazer quase deliberado nos movimentos vagarosos deles, como se estivessem saboreando os movimentos que antecediam o assassinato de Judd.
Nick experimentou a segunda porta. Estava trancada tambm. Ele deu um tiro na fechadura 
e entrou. Era o escritrio. Estava vazio e encaminharam-se para a terceira porta. Rocky segurou o brao do irmo ao passarem diante do monitor de TV. Podiam ver 
na tela trs homens que entravam apresadamente no saguo. Dois deles usavam jalecos de internos e empurravam uma maca sobre rodinhas. O terceiro carregava uma maleta 
preta de mdico.
- Mas que diabo!
- Fique calmo, Rocky.  s algum doente. Deve haver, pelo menos, cem apartamentos neste 
prdio.
Ficaram olhando para a tela de TV, fascinados, vendo os dois internos empurrarem a maca 
para dentro do elevador. A porta do elevador se fechou.
- Vamos esperar alguns minutos - disse Nick. - Pode ter sido algum acidente. Neste caso a 
polcia estar l fora.
- Mas que azar!
- No se preocupe, Rocky. Stevens no ir a lugar nenhum. 
A porta do apartamento abriu-se inesperadamente e o mdico e os dois internos entraram, 
empurrando a maca. Rapidamente os dois assassinos guardaram as armas nos bolsos.
O mdico aproximou-se de Rocky.
- Ele est morto?
- Ele quem?
- A vtima de suicdio. Ele est morto ou vivo?
Os dois assassinos se entreolharam, aturdidos.
- Acho que vieram ao apartamento errado.
O mdico passou por eles e experimentou a porta fechada do quarto.
- Est trancada. Ajudem-me a arromb-la.
Os dois irmos ficaram observando, desolados, o mdico e os internos arrombarem a porta. 
O mdico entrou no quarto.
- Tragam a maca.
Ele aproximou-se da cama, onde Judd estava deitado.
- O senhor est bem?
Judd levantou os olhos, procurando focalizar o rosto  sua frente. E murmurou:
- Hospital...
- Est a caminho de l.
Frustrados, os dois assassinos observaram os internos colocarem Judd sobre a maca, 
envolvendo-o em lenis.
- Vamos embora - disse Rocky.
O mdico ficou observando os dois homens se retirarem. Depois virou-se para Judd, que 
estava estendido na maca, o rosto plido e ansioso:
- Voc est bem, Judd?
Sua voz denotava uma profunda preocupao. Judd esboou um sorriso.
- Estou timo.
Ele quase no podia ouvir a prpria voz.
- Obrigado, Peter.
Peter olhou para o amigo, depois fez um gesto com a cabea para os dois internos.
- Vamos indo.


Captulo 18


O quarto do hospital era outro, mas a enfermeira a mesma. Tinha um olhar feroz de 
desaprovao. Ela foi a primeira coisa que Judd viu sentada  cabeceira de sua cama, assim que abriu os olhos.
- Ento j acordamos - disse ela rispidamente. - O Dr. Harris quer v-lo. Vou inform-lo de 
que j acordou.
Ela saiu do quarto, toda empertigada.
Judd sentou-se cautelosamente. Os reflexos dos braos e das pernas estavam um pouco 
lentos, mas intactos. Ele tentou localizar uma cadeira do outro lado do quarto, com um olho de cada vez. A viso estava meio enevoada.
- Deseja uma consulta?
Judd levantou os olhos. O Dr. Seymour Harris entrara no quarto. E acrescentou jovialmente:
- Voc est-se tornando um dos nossos melhores clientes. Sabe em quanto vai somente a 
conta dos pontos?  claro que lhe vamos dar os descontos de freqncia... Como dormiu, Judd?
Ele sentou-se na beira da cama.
- Como um beb. O que foi que me deu?
- Uma injeo de sdio-luminol.
- Que horas so?
- Meio-dia.
- Meu Deus! Tenho que sair daqui!
O Dr. Harris tirou a ficha mdica da prancheta que estava carregando.
- Sobre que gostaria de falar primeiro? Sua concusso? As escoriaes? Ou as contuses?
Harris ps a ficha de lado e disse em tom grave:
- Judd, seu corpo sofreu um severo castigo. Maior do que voc imagina. Se for inteligente, 
continuar nesta cama por mais alguns dias, descansando. Depois tirar frias de um ms.
- Obrigado, Seymour.
- Voc diz obrigado, mas, na verdade, est querendo dizer  "no, obrigado".
- H um problema urgente que preciso resolver.
O Dr. Harris suspirou.
- Sabe quais so os piores pacientes do mundo? Os prprios mdicos.
Ele mudou de assunto rapidamente, reconhecendo a derrota.
- Peter passou a noite inteira aqui. E depois que saiu est telefonando de hora em hora. Ele 
est bastante preocupado com voc, Judd. Acha que algum tentou mat-lo ontem  noite.
- Voc sabe como os mdicos so. No h um que no tenha imaginao em excesso.
Harris ficou em silncio por um momento, depois encolheu os ombros e disse:
- Voc  o analista. Eu sou apenas Ben Casey. Talvez saiba o que est fazendo... mas eu no 
apostaria um nquel nisso. Tem certeza de que no quer ficar na cama por alguns dias?
- No posso ficar.
- Est certo, Tigre. Vou deix-lo sair amanh.
Judd fez meno de protestar, mas o Dr. Harris interrompeu-o:
- No discuta. Hoje  domingo. Os caras que o esto surrando precisam de um descanso.
- Seymour...
- Mais uma coisa: detesto bancar a me judia, mas tenho que lhe perguntar se ultimamente 
tem comido alguma coisa.
- Quase nada.
- Est certo. Vou dar vinte e quatro horas  Senhorita Bedpan para engord-lo. Judd...
- O que ?
- Tome cuidado. Eu detestaria perder um cliente to bom.
E com isso o Dr. Harris se foi.
Judd fechou os olhos para descansar por um momento. Ouviu um barulho de pratos e 
abriu-os. Uma linda enfermeira irlandesa estava entrando no quarto com um carrinho de comida.
- Est acordado, Dr. Stevens?
Ela sorriu.
- Que horas so?
- Seis horas.
Ele dormia o dia inteiro. A enfermeira colocou a comida na bandeja especial para a cama. 
- Vai ter um banquete esta noite: peru. Amanh  vspera de Natal.
- Eu sei.
Judd no sentia apetite algum at engolir o primeiro pedao. Descobriu ento que estava 
faminto. O Dr. Harris proibira todos os telefonemas e, por isso, ele ficou na cama sem fazer nada, recuperando-se, agrupando as foras interiores para o combate. 
No dia seguinte precisaria de toda energia de que pudesse dispor.
s dez horas da manh seguinte o Dr. Seymour Harris entrou no quarto de Judd.
- Como est o meu paciente predileto? disse ele, sorrindo. - Sabe que voc est parecendo 
quase humano?
- Eu me sinto quase humano - disse Judd, sorrindo tambm.
- timo. Voc tem uma visita. Mas eu no gostaria de que se assustasse. Peter. E provavelmente Norah tambm. Parecia que ultimamente eles passavam a maior parte 
do tempo a visit-lo em hospitais. O Dr. Harris continuou:
-  o Tenente McGreavy.
O corao de Judd se contraiu.
- Est ansioso por falar-lhe e j se ps a caminho daqui. Ele queria ter certeza de que voc 
estaria acordado quando chegasse.
Para prend-lo... Com Angeli em casa doente, McGreavy estava livre para fabricar todas as 
provas que pudessem incriminar Judd. E assim que McGreavy o agarrasse, no haveria mais qualquer esperana. Ele tinha que fugir do hospital antes que McGreavy chegasse.
- Poderia pedir  enfermeira que chamasse o barbeiro, Seymour? Eu gostaria de fazer a barba.
Sua voz deve ter soado de forma estranha, pois o Dr. Harris fitou-o com uma expresso 
esquisita. Ou ser que McGreavy dissera ao Dr. Harris alguma coisa a respeito dele?
- Mas  claro, Judd!
E o Dr. Harris retirou-se.
No momento em que a porta se fechou, Judd levantou-se. As duas noites de sono haviam 
produzido nele um verdadeiro milagre. As pernas ainda estavam um pouco trmulas, mas isso logo passaria. Precisava agir rapidamente. Levou apenas trs minutos para 
se vestir.
Entreabriu a porta, certificou-se de que no havia ningum no corredor para det-lo, depois 
saiu e encaminhou-se para a escada de servio. Ao comear a descer, Judd ouviu a porta do elevador se abrir. Olhou para trs e viu McGreavy encaminhando-se para 
o quarto que ele acabara de deixar. 
Um guarda uniformizado e dois detetives seguiam o Tenente. Judd continuou a descer rapidamente e saiu do hospital pela entrada das ambulncias. Um quarteiro depois, 
fez sinal para um txi.
McGreavy entrou no quarto do hospital e viu a cama vazia e o armrio desocupado.
- Ele fugiu. Mas talvez ainda possam apanh-lo.
Pegou o telefone. A telefonista do hospital ligou-o com a Chefatura de Polcia.
- Aqui  McGreavy - disse ele rapidamente. - Quero que expea um boletim geral urgente... 
Dr. Stevens, Judd, sexo masculino, caucasiano, idade...
O txi parou diante do edifcio onde Judd tinha seu consultrio. A partir daquele momento, 
no havia segurana para ele em parte alguma. No podia voltar para seu apartamento. Teria que se hospedar em algum hotel. Voltar ao consultrio era muito arriscado, 
mas ele precisava faz-lo de qualquer maneira.
Tinha que pegar o nmero de um telefone.
Pagou ao motorista e entrou no saguo do edifcio. Todos os msculos do seu corpo estavam 
doloridos. Avanou rapidamente. Sabia que tinha muito pouco tempo. Era pouco provvel que estivessem esperando que ele voltasse ao consultrio, mas no podia correr 
riscos desnecessrios. Agora era uma questo de saber quem o pegaria primeiro: a polcia ou os seus assassinos.
Judd abriu a porta do consultrio e entrou, trancando-a imediatamente. A sua sala parecia 
agora estranha e hostil. Judd sabia que no mais poderia continuar tratando os seus pacientes ali. 
Estaria sujeitando-os a um perigo muito grande. Judd sentiu-se cheio de raiva pelo que Don Vinton estava fazendo com a sua vida. Poderia ver a cena que provavelmente 
ocorrera quando os dois irmos haviam voltado e informado o fracasso de mais uma tentativa de mat-lo. Se ele bem compreendera o carter de Don Vinton, o homem tivera 
um acesso de raiva. A prxima tentativa ocorreria a qualquer momento.
Judd atravessou a sala para pegar o telefone de Anne, pois lembrara-se de duas coisas 
enquanto estivera no hospital.
Algumas sesses de Anne tinham sido imediatamente anteriores s de John Hanson.
E Anne e Carol gostavam de conversar. Inocentemente, Carol poderia ter transmitido alguma 
informao fatal a Anne. Se isso ocorrera, ela talvez corresse perigo agora.
Ele tirou seu caderninho de endereos de uma gaveta fechada  chave, encontrou o telefone 
de Anne e discou. A campainha tocou trs vezes e uma voz neutra disse:
- Aqui  uma telefonista de auxlio. Qual foi o nmero que discou, por gentileza?
Judd disse o nmero do telefone de Anne. Momentos depois a telefonista voltou a falar:
- Lamento, mas est discando para nmero errado. Por gentileza, consulte o seu catlogo 
telefnico ou ligue para as informaes.
- Obrigado.
Judd desligou. Ficou sentado, pensando, recordando-se de que seu servio de recados 
telefnicos o informara, poucos dias atrs, de que todos os seus pacientes haviam sido localizados,  exceo de Anne. Ele procurou no catlogo, mas nem o nome do 
marido de Anne nem o dela constavam na lista. Subitamente Judd sentiu que era muito importante falar com Anne. Copiou o seu endereo: Woodside Avenue, 617, Bayonne, 
Nova Jersey.
Quinze minutos depois ele estava num balco da Avis, alugando um carro. Havia um cartaz 
por trs do balco que dizia: "Somos a segunda por isso nos esforamos mais". "Estamos no mesmo barco", pensou Judd.
Tudo acertado, ele saiu da garagem com o carro alguns minutos mais tarde. Deu uma volta 
pelo quarteiro, certificando-se de que no estava sendo seguido, e ento seguiu para a Ponte George Washington, a caminho de Nova Jersey.
Ao chegar a Bayonne, ele parou num posto de gasolina para pedir informaes.
- Vire  esquerda na prxima esquina.  a terceira rua depois.
- Obrigado.
Judd prosseguiu. S de pensar em ver Anne novamente seu corao disparou. O que poderia 
dizer a ela sem alarm-la? Ser que o marido estaria em casa?
Judd entrou em Woodside Avenue. Verificou a numerao das casas. Ainda estava no 
quarteiro da centena 900. As casas de ambos os lados eram pequenas, antigas, assoladas pelo tempo. 
Ele entrou no quarteiro da centena 700. As casas pareciam tornar-se progressivamente ainda 
menores e mais velhas.
Anne vivia numa linda propriedade, toda arborizada. Praticamente no havia rvores por ali. 
Ao chegar ao endereo que Anne lhe dera, Judd j estava mais ou menos preparado para o que viu.
O nmero 617 de Woodside Avenue era um terreno baldio, coberto de mato. 


Captulo 19


Judd, parou o carro do outro lado do terreno baldio, procurando compreender a situao. O 
nmero errado do telefone era um engano corriqueiro. Ou o endereo poderia ter sido um engano. 
Mas no ambos. Anne lhe mentira deliberadamente. E se ela mentira em relao a quem era e onde morava, sobre o que mais poderia ter-lhe mentido. Judd forou-se a 
analisar objetivamente tudo o que sabia a respeito dela. Quase nada. Ela entrara em seu consultrio sem ser encaminhada por ningum e insistira em tornar-se sua 
paciente. Evitava cuidadosamente revelar-lhe qual o seu problema, ao longo das quatro semanas em que o visitara. Depois, subitamente, anunciara que o problema estava 
resolvido e que iria viajar. Depois de cada sesso ela lhe pagava em dinheiro, de forma que no havia maneira de localiz-la agora. Mas que motivo ela poderia ter 
para se apresentar como sua paciente e depois desaparecer? S havia uma resposta. E quando Judd chegou  concluso 
inevitvel, sentiu-se fisicamente arrasado.
Se algum queria preparar uma armadilha para assassin-lo, precisando, para isso, conhecer 
a sua rotina no consultrio, como era a sala por dentro, que melhor maneira de descobri-lo seno fazendo-se passar por paciente? Fora o que Anne fizera. Don Vinton 
a mandara. Ela descobrira o que precisava e depois desaparecera, sem deixar vestgios.
Tudo no passara de fingimento, e ele se deixara lograr. Como Anne deveria ter rido ao 
informar tudo a Don Vinton sobre o idiota apaixonado que se julgava um analista que conhecia a fundo as pessoas! Ele se apaixonara insensatamente por uma moa cujo 
nico objetivo era armar o cenrio para o seu assassinato. Era assim que ele julgava conhecer o carter das pessoas? Daria um relatrio dos mais divertidos para 
a Associao Psiquitrica Americana.
Mas... e se isso no fosse verdade? E se Anne fora procur-lo com um problema genuno, 
usando um nome fictcio por recear prejudicar uma terceira pessoa? O problema terminara resolvendo-se por si mesmo, e ela conclura que no precisava mais da ajuda 
de um analista. Mas Judd sabia que essa explicao era fcil demais. Havia um elemento ignorado a respeito de Anne que precisava ser desvendado. Judd teve o pressentimento 
de que a explicao para tudo o que estava acontecendo talvez estivesse nesse elemento desconhecido. Era possvel que ela estivesse sendo coagida. Mas Judd sabia 
que estava sendo tolo. Tentava apenas imaginar Anne como uma donzela em desgraa e a ele prprio como um cavaleiro numa armadura refulgente. Ser que ela preparara 
a armadilha para assassin-lo? Ele tinha que descobrir, de qualquer maneira. Uma mulher idosa, num casaco pudo, saiu de uma casa e ficou olhando para ele. Judd 
deu a volta e seguiu novamente para a Ponte George Washington.
Havia uma fila de carros atrs. Um deles poderia estar a segui-lo. Mas por que haveriam de 
segui-lo? Seus amigos sabiam onde encontr-lo. No podia, contudo ficar sentado  espera 
passivamente que o atacassem. Ele prprio tinha que atacar, apanh-los desprevenidos, enfurecer Don Vinton at que este cometesse um erro pelo qual pudesse ser derrotado. 
E Judd tinha que fazer tudo isso antes que McGreavy o apanhasse. e o metesse na cadeia.
Judd seguiu para Manhattam. A nica chave para o  quebra-cabeas era Anne que 
desaparecera sem deixar o menor vestgio. E ela sairia do pas dentro de dois dias.
Judd vislumbrou ento, repentinamente, uma possibilidade de encontr-la.
Era vspera de Natal e o escritrio da Pan-Am estava apinhado de viajantes e de pessoas que 
esperavam uma desistncia, para poderem viajar.
Judd conseguiu abrir caminho at o balco, atravs das filas de espera, pedindo para falar ao 
gerente. A jovem uniformizada dirigiu-lhe um sorriso profissional e pediu que esperasse.
Judd ficou parado ali, ouvindo babel de vozes.
- Quero ir para a ndia.
- Ser que est muito frio em Paris?
- Quero um carro  minha espera em Lisboa.
Ele sentiu um desejo desesperado de entrar num avio e fugir. S ento compreendeu quo 
exausto estava, fsica e emocionalmente. Don Vinton parecia ter um exrcito  sua disposio, mas Judd estava sozinho. Que chances poderia ter?
- Em que posso ajud-lo?
Judd virou-se. Um homem alto e de aspecto cadavrico estava atrs do balco.
- Meu nome  Friendly.
Ele ficou esperando que Judd apreciasse a piada.  Judd sorriu para agradar-lhe e acrescentou:
- Charles Friendly. Em que posso servi-lo?
- Eu sou o Dr. Stevens. Estou tentando localizar uma paciente minha. Ela est de viagem 
marcada para a Europa amanh.
- O nome, por gentileza?
- Anne Blake.
Judd hesitou, mas acrescentou:
- Possivelmente a reserva foi feita em nome do Sr. e Sra. Anthony Blake.
- Para que cidade ela est seguindo?
- Eu... eu no tenho muita certeza.
- As reservas foram feitas para um dos nossos vos matutinos ou para um vo vespertino?
- Nem mesmo tenho certeza se  a sua companhia.
A cordialidade desapareceu dos olhos do Sr. Friendly.
- Ento, infelizmente, no poderei ajud-lo.
Judd foi dominado por um sentimento sbito de pnico.
- Mas  realmente muito importante! Tenho que localiz-la antes da partida!
- Doutor, a Pan-American tem um ou mais vos dirios para Amsterd, Barcelona, Berlim, 
Bruxelas, Copenhague, Dublim, Dussedorf, Frankfurt, Hamburgo, Lisboa, Londres, Munich, Paris, Roma, Shannon, Stuttgart e Viena. O mesmo acontece com as outras companhias 
areas 
internacionais. Ter que procurar uma a uma. E duvido muito de que possam ajud-lo, a menos que informe o destino e a hora da partida.
A expresso no rosto do Sr. Friendly era agora de impacincia.
- Se me d licena...
Ele virou-se, afastando-se
- Espere um instante!
Como ele poderia explicar que aquela era a sua ltima chance de manter-se vivo, de descobrir 
quem estava tentando mat-lo? Friendly fitava-o agora com uma hostilidade indisfarvel.
- Pois no?
Judd esforou-se por sorrir, odiando-se por ter que faz-lo.
- No possuem uma espcie de sistema central de computao no qual podem descobrir os 
nomes dos passageiros pelo...?
- S se souber o nmero do vo - disse o Sr. Friendly, virando-lhe as costas e afastando-se 
de vez.
Judd ficou parado no balco, sentindo-se arrasado. Estava derrotado. No havia mais nada 
que pudesse fazer.
Nesse momento entrou um grupo de sacerdotes italianos, de batinas negras que esvoaavam, 
com imensos chapus negros. Pareciam figuras vindas diretamente da Idade Mdia. Carregavam malas baratas de papelo, caixas e cestos de frutas. Falaram alto, em 
italiano. Zombavam visivelmente do membro mais jovem do grupo, um rapaz que no parecia ter mais do que dezoito ou dezenove anos. "Os padres provavelmente estavam 
regressando a Roma depois de umas frias", pensou Judd, ao ouvi-lo pronunciarem a palavra Roma... "onde Anne estaria"... Anne novamente.
Os padres aproximaram-se do balco. 
- E molto bene di ritornare a casa.
- Si, d'acordo.
- Signore, per piacce, guardatemi.
- Tutto va bene?
- Si, ma...
- Dio mio, dave sono i miei biglietti?
- Cretino, hai perduto i biglietti.
- Ah, eccoli. 
Os padres entregaram as passagens ao mais jovem, que se aproximou timidamente da moa 
no balco. Judd olhou para a porta de sada. Um homem gordo, de sobretudo cinza, estava parado ali.
O jovem padre estava falando com a moa: 
- Diece. Dieci. 
A jovem fitava-o impassvel, sem compreender nada. O padre reuniu todos os seus 
conhecimentos de ingls e por fim conseguiu fazer-se entender.
Ele apresentou as passagens  jovem. Ela sorriu e comeou imediatamente a verific-las. Os 
padres irromperam em gritos, deliciados deram aplausos  capacidade lingstica do companheiro, batendo-lhe repetidamente nas costas.
"De nada adiantava continuar ali", concluiu Judd. Mais cedo ou mais tarde ele teria que 
enfrentar o que quer que houvesse l fora  sua espera. Judd virou-se lentamente e comeou a 
afastar-se do grupo de padres. 
- Guardote che ha fatto il Don Vinton. 
Judd estacou. O sangue afluiu-lhe ao rosto. Virou-se para o padre atarracado que falava e 
segurou-lhe o brao.
- Com licena - disse ele, numa voz rouca e trmula - mas falou em "Don Vinton"?
O padre olhou-o atnito, depois bateu no brao de Judd e fez noo de afastar-se. Judd 
apertou-lhe o brao com mais fora.
- Espere um instante!
O padre ficou visivelmente nervoso. Judd fez um grande esforo para falar com toda a calma:
- Don Vinton. Quem  ele? Mostre-me.
Todos os padres olharam para Judd. O padre atarracado olhou para os companheiros e disse: 
-  um americano notto. 
Houve um murmrio nervoso de vozes italianas. Pelo canto dos olhos, Judd viu que Friendly 
o observava do balco. Friendly logo deu a volta ao balco e encaminhou-se em sua direo. Judd procurou controlar o pnico crescente que o invadia. Largou o brao 
do padre, inclinou-se na direo dele e disse bem devagar e nitidamente:
- Don Vinton.
O padre olhou atentamente para Judd e logo seu rosto se iluminou com uma expresso 
divertida. 
- Don Vinton! 
O gerente aproximou-se rapidamente, com uma expresso hostil. Judd sacudiu a cabea para 
o padre, encorajando-o a continuar. O padre apontou para o mais jovem do grupo. 
- Don Vinton... o "grande homem", o "chefo".
E subitamente o quebra-cabeas foi decifrado.


Captulo 20


- Calma, calma - disse Angeli, a voz muito rouca. - Assim no posso entender uma s palavra 
do que est dizendo.
- Desculpe - disse Judd, respirando fundo e acrescentando: - Eu descobri a resposta!
Ele sentia-se to aliviado por ouvir a voz de Angeli que quase gaguejava.
- J sei quem est querendo matar-me. Sei quem  Don Vinton.
A voz de Angeli era cptica:
- No conseguimos descobrir nenhum Don Vinton.
- Sabe por qu? Porque no  o nome de um homem e sim um ttulo!
- Quer falar um pouco mais devagar?
A voz de Judd tremia de excitao.
- Don Vinton no  nome de pessoa.  uma expresso italiana que significa "o chefo". Foi 
o que Moody quis dizer-me, que o "chefo"  que est atrs de mim.
- No estou entendendo nada, Doutor.
- No significa coisa alguma, em ingls, mas ser que no lhe sugere nada se pensar em 
italiano? No seria uma organizao de assassinos dirigida pelo Chefo?
Houve um longo silncio do outro lado do fio.
- A Cosa Nostra?
- E quem mais poderia reunir dessa forma um grupo de assassinos e tantas armas? cido, 
bombas, revlveres! Lembra-se de que eu lhe disse que o nosso homem devia ser um europeu meridional? Pois ele  italiano.
- Isso no faz o menor sentido, Doutor. Por que a Cosa Nostra haveria de querer mat-lo?
- No tenho a menor idia. Mas sei que estou certo. E isso se ajusta a algo mais que Moody 
me disse: que havia um grupo de homens querendo me matar.
-  a teoria mais louca que j ouvi, Doutor. - Ele fez uma pausa longa e depois acrescentou: 
- Mas suponho que seja possvel.
Judd sentiu-se aliviado. Se Angeli no quisesse dar-lhe ateno, ele no teria mais ningum 
a quem recorrer.
- J falou a respeito disso com algum, Doutor?
- No.
- Pois no o faa - disse Angeli, com veemncia inesperada. - Se est certo, sua vida depende 
disso. No chegue perto do seu apartamento nem do consultrio.
- No chegarei. Judd lembrou-se de uma coisa e perguntou:
- J sabia que McGreavy tem um mandato de priso contra mim?
- J.
Angeli hesitou antes de acrescentar:
- Se McGreavy o apanhar, no chegar vivo  delegacia.
"Meu Deus"! Ento ele no se enganara a respeito de McGreavy. Mas no podia acreditar 
que McGreavy fosse o crebro por trs de tudo. Havia algum a dirigi-lo... Don Vinton. O Chefo.
- Est-me ouvindo, Doutor?
A boca de Judd estava ressequida.
- Estou.
Um homem com sobretudo cinza estava parado do lado de fora da cabine telefnica, olhando 
para Judd. Seria o mesmo homem que ele vira antes?
- Angeli...
- Pois no?
- No sei quem so os outros. No sei como parecem. Como posso manter-me vivo at que 
eles sejam apanhados?
O homem de sobretudo cinza continuava a olhar fixamente para Judd. A voz de Angeli disse 
ao telefone:
- Vamos diretamente para o FBI. Tenho um amigo que tem contatos l. Ele providenciar 
para que o senhor receba proteo at que tudo esteja resolvido. Certo?
- Certo - respondeu Judd, agradecido.
Os joelhos de Judd pareciam ser de gelatina.
- Onde est agora, Doutor?
- Numa cabine telefnica no saguo da Pan-Am.
- No saia da. Procure ficar sempre cercado por uma multido. J estou indo encontr-lo.
Houve um clique no outro lado da linha quando Angeli desligou.
Ele desligou o telefone na delegacia, sentindo uma nusea profunda invadi-lo. Ao longo dos 
anos ele se acostumara a lidar com assassinos, tarados sexuais, pervertidos de toda espcie. 
Desenvolvera uma carapaa protetora, que lhe permitira continuar a acreditar na dignidade e 
bondade bsica do homem. 
Mas um policial corrupto era algo diferente.
Um policial corrupto era um cncer que afetava toda a polcia, uma ameaa a tudo aquilo 
por que os policiais decentes lutavam e morriam.
Os rudos de passos e murmrio de vozes enchia a sala, mas ele no ouvia coisa alguma. Dois 
guardas uniformizados passaram por ali, levando um gigante algemado. Um dos guardas tinha um olhar preto e o outro segurava um leno no nariz a sangrar. A manga 
do seu uniforme fora rasgada pela metade. O prprio guarda  que teria de pagar a nova blusa. Aqueles homens estavam dispostos a arriscar as suas vidas todos os 
dias e todas as noites do ano inteiro. Mas isso no dava manchete. 
Um polcia corrupto dava manchete. Um polcia corrupto era uma ndoa para toda a corporao. E  acontece que o policial corrupto era o seu companheiro de trabalho.
Cansado, ele se levantou e percorreu o velho corredor at o gabinete do Capito. Bateu a 
porta uma vez e entrou.
Sentado  mesa escalavrada, marcada por pontas de cigarro de anos incontveis, achava-se 
o Capito Bertelli. Dois agentes do FBI estavam na sala, usando ternos comuns. O Capito Bertelli levantou os olhos quando a porta se abriu.
- E ento?
O detetive assentiu.
- Est comprovado. O encarregado da guarda das provas disse que ele pegou a chave de 
Carol Roberts na tarde de quarta-feira e devolveu-a a noite. Foi por isso que o teste de parafina deu negativo. Ele entrou no consultrio do Dr. Stevens com uma 
chave original. O encarregado no pensou duas vezes no assunto, porque sabia que ele estava incumbido do caso.
- Sabe onde ele est agora? - perguntou o mais jovem dos agentes do FBI.
- No. Tnhamos um homem a segui-lo, mas ele conseguiu despist-lo. Pode estar em 
qualquer parte.
- Certamente est procurando o Dr. Stevens - disse o segundo agente do FBI.
O Capito Bertelli virou-se para os agentes do FBI.
- Quais so as chances do Dr. Stevens permanecer vivo?
O mais velho sacudiu a cabea.
- Se o encontrarem antes de ns, absolutamente nenhuma.
O Capito Bertelli assentiu.
- Temos que encontr-lo primeiro.
Ele fez uma pausa. Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom furioso:
- E quero Angeli tambm. No me interessa a maneira como o peguem.
Ele virou-se para o detetive e acrescentou:
- Mas quero que o pegue de qualquer maneira, McGreavy.
O rdio de polcia comeou a transmitir uma mensagem:
- Cdigo dez... Cdigo dez... Ateno todos os carros...
Angeli desligou o rdio.
- Algum sabe que eu fui apanh-lo?
- Ningum.
- Falou sobre a Cosa Nostra com mais algum?
- S com voc.
Angeli assentiu, satisfeito.
Haviam atravessado a Ponte George Washington e estavam seguindo para Nova Jersey. S que 
agora estava tudo diferente para Judd. Antes ele estivera ali cheio de apreenses. Agora, com Angeli ao seu lado, no mais se sentia como um animal caado. Era o 
caador. E o pensamento proporcionou-lhe uma imensa satisfao.
Por sugesto de Angeli, Judd deixara o seu carro alugado em Manhattam e seguia no carro 
da polcia sem identificao do detetive. Angeli seguira para o norte, passando por Orangeburg. 
Estavam-se aproximando agora de Old Tapan.
- Foi muito esperto percebendo o que estava acontecendo, Doutor.
Judd sacudiu a cabea.
- Eu j deveria ter imaginado assim que soube que havia mais de um homem envolvido. No 
podia deixar de ser uma organizao, usando assassinos profissionais. Creio que Moody desconfiou da verdade quando viu a bomba em meu carro. Eles tinham acesso a 
todos os tipos de armas.
"E Anne". Ela era parte da trama, preparando tudo para que pudessem assassin-lo. Mesmo 
assim, ele no conseguia odi-la. No importava o que ela fizesse, Judd jamais poderia odi-la.
Angeli saiu da estrada principal. Habilmente dirigiu o carro por uma estrada secundria, que 
levava a uma rea bastante arborizada.
- Seu amigo sabe que estamos indo para a casa dele? - indagou Judd.
- Telefonei para ele. Est pronto para receb-lo.
Abruptamente surgiu uma estrada lateral e Angeli entrou por ela. Percorreu quase dois 
quilmetros e parou diante de um porto eletrificando. Judd notou uma pequena cmara de televiso instalada no alto do porto. Houve um clique e o porto se abriu, 
fechando-se assim que passaram. 
Comearam a subir por um caminho longo e sinuoso. Atravs das rvores  sua frente, Judd viu o telhado de uma enorme casa. L no alto, rebrilhando ao sol, havia 
um galo de bronze - ao qual estava faltando a cauda.


Captulo 21


No centro de comunicaes  prova de som e abundantemente iluminada da Chefatura de 
Polcia trabalhavam doze polcias, em manga de camisa, e seis telefonistas de cada lado. No meio da mesa havia um tubo pneumtico. Os operadores tomavam notas das 
mensagens telefnicas, punham a anotao no tubo pneumtico e despachavam-na l para cima, onde o coordenador a transmitia imediatamente para uma delegacia ou uma 
radiopatrulha. Os telefonemas nunca paravam. Fluam para ali dia e noite, como um rio de tragdia a tragar os cidados da gigantesca metrpole. Homens e mulheres 
que estavam aterrorizados... solitrios... desesperados... embriagados... feridos... homicidas... Era uma cena de Hogarth, pintada com palavras vividas e angustiadas 
ao invs de tintas.
Naquela tarde de segunda-feira havia uma sensao maior de tragdia no ar. Cada telefonista 
se concentrava em seu servio, mas no podia deixar de perceber o fluxo constante de detetives e agentes do FBI, entrando e saindo da sala, recebendo e dando ordens, 
trabalhando eficientemente na vasta rede eletrnica  procura do Dr. Judd Stevens e do detetive Frank Angeli. O ambiente estava estranhamente acelerado, como um 
espetculo encenado por um controlador de marionetes sombrio e nervoso.
O Capito Bertelli estava falando com Allen Sullivan, membro da Comisso Municipal Contra o Crime, quando McGreavy entrou. McGreavy j conhecia Sullivan. Era um 
homem duro e honesto. 
Bertelli interrompeu a conversa e virou-se para o detetive, com uma expresso interrogativa.
- As coisas esto andando - informou McGreavy. - Descobrimos uma testemunha, um vigia 
noturno que trabalha no prdio em frente quele em que fica o consultrio do Dr. Stevens. Na noite de quarta-feira, quando arrombaram o consultrio do Dr. Stevens, 
esse vigia viu dois homens entrarem no prdio em frente. A porta da rua estava trancada, mas eles abriram-na com uma chave. 
O vigia pensou que trabalhavam ali.
- Obteve alguma identificao?
- Ele identificou uma fotografia de Angeli.
- Na noite de quarta-feira Angeli fora dado como estando em casa, de cama, com um forte 
resfriado.
- Exatamente.
- O que me diz do outro homem?
- O vigia no conseguiu v-lo direito.
Uma telefonista enfiou um plug por baixo de um boto vermelho a brilhar no painel, escutou 
por um momento e virou-se para o Capito Bertelli:
-  para o senhor Capito. Patrulha Rodoviria de Nova Jersey.
Bertelli atendeu rapidamente numa extenso.
- Capito Bertelli falando.
Ele escutou por um momento.
- Tem certeza?... timo!..., Pode mandar todas as unidades que tiver para l., Bloqueie as 
estradas. Quero que toda a regio seja coberta. Fique em contato comigo... Obrigado.
Ele virou-se  para os dois homens:
- Parece que temos uma pista. Um patrulheiro de Nova Jersey viu o carro de Angeli numa 
estrada secundria perto de Orangeburg. A Patrulha Rodoviria vai comear a revistar toda a rea.
- E o Dr. Stevens?
- Ele estava no carro com Angeli. No se preocupe que iremos encontr-los.
McGreavy tirou dois charutos do bolso. Ofereceu um a Sullivan, que recusou, e entregou o 
outro a Bertelli. Ps o que Sullivam recusara entre os dentes e acendeu-o, comentando:
- Temos uma coisa a nosso favor. O Dr. Stevens parece ter um encantamento a proteg-lo. 
Falei h pouco com um amigo dele, o Dr. Peter Hadley. Na semana passada, ele foi apanhar Stevens em seu consultrio e encontrou Angeli l, com um revlver na mo. 
Angeli contou uma histria fantstica sobre um misterioso assaltante. Meu palpite  que a chegada do Dr. Hadley salvou a vida de Stevens.
- Como foi que comeou a suspeitar de Angeli? - indagou Sullivan.
- Tudo comeou com certas informaes de que ele andava achacando alguns comerciantes. 
Fui verificar, mas as vtimas no quiseram falar. Estavam apavoradas e eu no consegui entender o motivo. No disse nada a Angeli, mas comecei a vigi-lo de perto. 
Quando Hanson foi assassinado, Angeli veio perguntar se poderia trabalhar no caso comigo. Disse que sempre me admirava e que gostaria de ser meu companheiro no caso. 
Eu sabia que ele devia ter um motivo para insistir, por isso resolvi dar-lhe corda, com a devida permisso do Capito Bertelli. No  de admirar que ele quisesse 
trabalhar no caso, pois estava afundado nele at o pescoo! Na ocasio eu no sabia ao certo se o Dr. Stevens estava ou no envolvido nos assassinatos de Hanson 
e Carol Roberts, mas decidi us-lo para agarrar Angeli. Arquitetei uma teoria para incriminar Stevens e disse a Angeli que ia prend-lo pelos assassinatos. Imaginei 
que Angeli iria relaxar e despreocupar-se, se soubesse que estava livre de 
suspeitas.
- E deu certo?
- No. Angeli surpreendeu-me, fazendo todo o possvel para impedir que Stevens fosse preso.
Sullivan ficou perplexo.
- Mas por qu?
- Porque ele estava querendo liquidar Stevens e no poderia faz-lo se fosse efetuada a 
priso.
- Quando McGreavy comeou a pressionar - interveio o Capito Bertelli - Angeli veio 
procurar-me, insinuando que McGreavy estava tentando incriminar o Dr. Stevens de qualquer 
maneira.
- Tivemos certeza ento de que estvamos no caminho certo - retornou McGreavy. - Stevens 
contratou um detetive particular chamado Norman Moody. Investiguei Moody e descobri que ele j se envolvera antes com Angeli, que prendera um cliente dele por porte 
de narcticos. Moody alegou que seu cliente tinha sido incriminado falsamente. Sabendo o que eu sei agora, creio que Moody estava dizendo a verdade.

- Ento Moody teve um golpe de sorte e descobriu a resposta logo de sada.
- No foi tanto assim por sorte. Moody era um detetive particular dos mais inteligentes. Ao 
encontrar a bomba no carro do Dr. Stevens, entregou-a ao FBI e pediu que eles investigassem.
- Ele teve receio de entregar a bomba  polcia, achando que Angeli poderia peg-la e dar 
sumio nela?
-  a impresso que eu tenho. Mas algum deu com a lngua nos dentes e Angeli soube de 
tudo. Compreendeu imediatamente que Moody suspeitava dele. A primeira pista que tivemos foi quando Moody falou no nome "Don Vinton".
- A expresso da Cosa Nostra para "O Chefo"?
- Exatamente. Por algum motivo, algum da Cosa Nostra est querendo liquidar o Dr. 
Stevens.
- Como foi que ligou Angeli  Cosa Nostra?
- Procurei novamente os comerciantes a quem Angeli andara arrancando dinheiro. Quando 
mencionei a Cosa Nostra, eles entraram em pnico. Angeli trabalhava para uma das famlias da Cosa Nostra, mas era muito ganancioso e comeou a fazer algumas extorses 
por conta prpria.
- Mas por que a Cosa Nostra haveria de querer matar o Dr. Stevens? - indagou Sullivan.
- No sei. Estamos investigando diversas possibilidades.
Ele suspirou.
- No momento temos dois problemas terrveis. Angeli escapou dos homens que mandramos 
segui-lo. E o Dr. Stevens fugiu do hospital antes que eu pudesse alert-lo a respeito de Angeli e dar-lhe a proteo necessria.
Acendeu-se outro boto vermelho no painel. O telefonista ouviu por um momento e depois 
chamou:
- Capito Bertelli.
Bertelli atendeu na extenso.
- Capito Bertelli falando.
Ficou escutando, sem dizer coisa alguma, depois reps o telefone no gancho e virou-se para 
McGreavy:
- Eles os perderam de vista!

Captulo 22


Anthony DeMarco tinha mana.
Judd pde sentir a fora intensa da personalidade dele do outro lado da sala, emanando em 
ondas quase tangveis. Anne no exagerara ao dizer que o marido era bonito.
DeMarco possua um rosto romano clssico, com um perfil impecvel, olhos negros como 
carvo, algumas mechas grisalhas nos cabelos pretos. Tinha quarenta e poucos anos, era alto e 
atltico, movia-se com uma agilidade animal algo irrequieta. A voz era grave e magntica:
- Aceita um drinque, Doutor?
Judd sacudiu a cabea, fascinado pelo homem que estava  sua frente. Qualquer um seria 
capaz de jurar que DeMarco era um homem encantador, inteiramente normal, um anfitrio perfeito a receber um hspede distinto.
Havia cinco homens na biblioteca revestida de painis de madeira: Judd, DeMarco, o detetive 
Angeli e os dois homens que haviam tentado matar Judd em seu apartamento, Rocky e Nick Vaccro. 
Os outros quatro formavam um crculo ao redor de Judd. Ele fitava os rostos de seus inimigos e sentia nisso uma estranha satisfao. Finalmente sabia contra quem 
estava lutando. Se  que "lutando" era a palavra certa. Ele cara na armadilha de Angeli. Pior que isso. Ele prprio telefonara para Angeli e convidara-o a ir agarr-lo! 
Angeli, o Judas que trouxera at ali para ser liquidado!
DeMarco examinou com profundo interesse os olhos negros especulativos.
- J ouvi falar muito a seu respeito - disse ele finalmente.
Judd ficou calado.
- Perdoe-me por t-lo trazido at aqui dessa maneira, mas era necessrio para que eu pudesse 
fazer-lhe algumas perguntas.
Ele sorriu, numa expresso de desculpa, irradiando simpatia. Judd sabia o que ia acontecer.
- O que andou conversando com a minha esposa, Dr. Stevens?
Judd imprimiu um tom de surpresa  sua voz:
- Sua esposa? No conheo sua esposa.
DeMarco sacudiu a cabea, num gesto de repreenso.
- Ela tem ido ao seu consultrio duas vezes por semana, nas ltimas trs semanas.
Judd franziu o rosto, pensativo.
- No tenho nenhuma paciente chamada DeMarco...
DeMarco assentiu, com uma expresso compreensiva.
- Talvez ela tenha usado outro nome. Possivelmente o seu nome de solteira, Blake, Anne 
Blake.
Judd cuidadosamente manifestou sua surpresa:
- Anne Blake?
Os dois irmos Vaccaro chegaram-se mais perto dele.
- No! - disse DeMarco rispidamente.
Ele virou-se para Judd. A atitude afvel desaparecera por completo.
- Doutor, se quiser brincar comigo, vou-lhe fazer coisas que jamais poderia acreditar.
Judd fitou-o atentamente aqueles olhos pretos e acreditou no mesmo instante. Sabia agora 
que sua vida estava suspensa por um fio. Imprimiu um tom de indignao.
- Pode fazer o que bem lhe aprouver. Mas o fato  que at este momento eu no tinha a 
menor idia de que Anne Blake era sua esposa.
- Talvez seja verdade - disse Angeli. - Ele...
DeMarco ignorou Angeli inteiramente.
- O que conversou com a minha esposa durante as ltimas trs semanas?
Eles haviam chegado ao momento da verdade. No momento em que Judd vira o galo de 
bronze no telhado, os ltimos pedaos do quebra-cabeas se haviam ajustado em seus lugares. Anne no participara da conspirao para assassin-lo. Assim como ele, 
Anne tambm era uma vtima. 
Casara-se com Anthony DeMarco, prspero proprietrio de uma empresa de construes, sem ter a menor idia de quem ele realmente era. Depois devia ter acontecido 
alguma coisa que a levara a desconfiar de que o marido no era exatamente o que parecia, que estava envolvido em algo sombrio e terrvel. Sem ningum com quem falar, 
ela procurara a ajuda de um analista, um estranho, a quem pudesse fazer confidncias. Mas a lealdade bsica que sentia para com o marido impedira-a de discutir as 
suas apreenses no consultrio de Judd.
- No falamos sobre muita coisa - disse Judd calmamente. - Sua esposa recusou-se a dizer 
qual era o problema dela.
- Ter que contar uma histria bem melhor do que essa, Doutor.
DeMarco devia ter sentido um imenso pnico ao saber que a esposa estava consultando um 
psicanalista - a esposa de um dos lderes da Cosa Nostra! No era de admirar que DeMarco tivesse assassinado, procurando apoderar-se da ficha de Anne.
- Tudo o que ela me disse foi que se sentia infeliz por causa de alguma coisa, mas recusou-se 
a dizer o que era.
- Para isso  preciso apenas dez segundos - disse DeMarco. - Tenho um registro de todos os 
minutos que ela passou em seu consultrio. O que lhe disse pelo resto das trs semanas? Deve ter-lhe contado quem eu sou.
- Ela disse que era dono de uma empresa de construes.
DeMarco examinou-o, com uma expresso fria. Judd sentiu gotas de suor formarem-se em 
sua testa.
- Estive lendo algumas coisas sobre anlise, Doutor. O paciente fala tudo o que lhe vem  
cabea.
- Isso faz parte da terapia - explicou Judd, em tom indiferente. - Foi por isso que no 
consegui chegar a concluso alguma com a Sra. Blake... com a Sra. DeMarco. Eu tencionava 
dispens-la como paciente.
- Mas no o fez.
- No houve necessidade. Na sexta-feira ela me disse que estava de partida para a Europa.
- Anne mudou de idia. No quer mais ir para a Europa comigo. E sabe por qu?
Judd estava genuinamente surpreso.
- No.
- Por sua causa, Doutor.
O corao de Judd deu um pulo. Ao falar, ele procurou cuidadosamente no demonstrar a 
menor emoo na voz:
- No estou entendendo.
- Claro que entende. Anne e eu tivemos uma longa conversa ontem  noite. Ela est achando 
que o nosso casamento foi um erro, porque pensa que est apaixonada pelo senhor, Doutor.
DeMarco falava num sussurro quase hipntico.
- Quero que me diga o que aconteceu entre os dois quando estavam a ss em seu consultrio, 
com ela estendida no div.
Judd procurou controlar as emoes que o invadiam. Ento Anne se importava com ele! Mas 
de que adiantava isso para qualquer um dos dois! DeMarco fitava-o, esperando uma resposta.
- Nada aconteceu. Se andou lendo sobre anlise, deve saber que toda paciente passa por uma 
transferncia emocional. Todas elas pensam, em uma ou outra ocasio, que esto apaixonadas pelo seu mdico. Mas  apenas uma fase passageira.
DeMarco observava-o atentamente, os olhos negros sondando os olhos de Judd.
- Como soube que ela estava-se consultando comigo? - indagou Judd, procurando fazer com 
que a pergunta soasse natural.
DeMarco olhou para Judd por um momento, depois foi at uma escrivaninha e pegou uma 
adaga afiada.
- Um dos meus homens viu-a entrando no seu edifcio. H ali uma poro de escritrios de 
pediatras e ele pensou que Anne estava reservando-me uma pequena surpresa. Seguiu-a e viu que ela entrou em seu consultrio.
Ele virou-se para Judd.
- E foi de fato uma surpresa. Anne estava indo a um psiquiatra. A esposa de Anthony 
DeMarco contando todos os meus segredos profissionais a um "espreme-crnios"!
- Eu j lhe disse que ela no...
A voz de DeMarco era suave, impedindo Judd de continuar:
- A Cammissione realizou uma reunio. Votaram para que eu a matasse, como matamos a 
todos os traidores.
Ele estava agora andando de um lado para o outro, fazendo Judd pensar num animal 
enjaulado.
- Mas eles no me puderam dar ordens como se eu fosse um soldado campons. Sou Anthony 
DeMarco, um Capo. Prometi-lhes que mataria o homem com quem Anne falara, se ela por acaso tivesse abordado os nossos negcios. Com estas duas mos.
Ele ergueu as mos, uma delas segurando-a adaga afiada.
- E o senhor  esse homem, Doutor.
DeMarco estava agora circulando-o enquanto falava. Cada vez que ele ficava s suas costas, 
Judd preparava-se para receber o golpe.
- Est cometendo um erro, se...
Judd no pde continuar, interrompido por DeMarco:
- Como ela pde pensar que o senhor  um homem melhor do que eu? Os irmos Vaccaro 
soltaram uma risada.
- O senhor  absolutamente nada, Doutor. No passa de um pobre coitado que se mete num 
escritrio todos os dias e ganha... o qu? Trinta mil dlares por ano? Cinqenta mil? Cem mil? Eu ganho mais do que isso numa semana.
A mscara de DeMarco estava escorrendo mais depressa agora, removida pela expresso das 
suas emoes. Ele estava comeando a falar em exploses curtas e excitadas, as feies bonitas se distorceram. Anne vira-lhe apenas a fachada. Judd estava agora 
olhando para a face nua de um manaco homicida.
- Voc e a pequena putana treparam naquele maldito consultrio!
- Ns no fizemos coisa alguma.
Os olhos de DeMarco pareciam arder em delrio.
- Ela nada significa para voc?
- Eu j lhe disse que ela no passa de uma paciente.
- Est bem - disse DeMarco finalmente. - Ir dizer isso a ela.
- Dizer o qu?
- Que no d a menor importncia a ela. Vou mand-la descer. E quero que fale com ela a 
ss.
O pulso de Judd disparou. Ele teria uma chance de salvar a si mesmo e a Anne. DeMarco 
estalou os dedos e os outros homens saram da biblioteca. Ele virou-se em seguida para Judd. Os olhos negros estavam ocultos. Ele sorriu gentilmente, a mscara novamente 
no lugar.
- Desde que no saiba de nada. Anne viver. Mas ter que convenc-la a ir comigo para a 
Europa.
Judd sentiu a boca subitamente seca. Havia um brilho triunfante nos olhos de DeMarco. Judd 
sabia o motivo. Ele subestimara o seu oponente.
Fatalmente.
DeMarco no era um jogador de xadrez, mas era esperto o bastante para saber que tinha um 
peo que tornava Judd impotente, Anne. Qualquer que fosse o movimento de Judd, ela estaria em perigo. Se Judd a mandasse para a Europa com DeMarco, mesmo assim a 
vida de Anne continuaria em perigo. Ele no acreditava que DeMarco fosse deixar que ela vivesse. A Cosa Nostra no o permitiria. DeMarco providenciaria um "acidente" 
na Europa. E se Judd dissesse a Anne para no ir, se ela descobrisse o que lhe estava acontecendo e tentasse interferir, ento morreria naquele instante. No havia 
escapatria. A opo era entre duas armadilhas fatais.
Da janela do seu quarto, no segundo andar, Anne observara a chegada de Judd e Angeli. Por 
um momento de exultao ela pensara que Judd tinha vindo busc-la, salv-la da terrvel situao em que se encontrava. Mas depois ela vira Angeli sacar um revlver 
e obrigar Judd a entrar na casa.
H quarenta e oito horas que ela sabia de toda a verdade a respeito do marido. Antes disso tivera apenas uma suspeita vaga, to inacreditvel que procurava esquecer. 
Tudo comeara alguns meses antes, quando ela fora assistir a uma pea em Manhattam e voltara para casa inesperadamente mais cedo, porque a estrela estava embriagada 
e a cortina se fechara definitivamente no meio do segundo ato. Anthony dissera-lhe que ia realizar uma 
reunio de negcios em casa, mas que estaria terminada antes que ela voltasse. Mas quando Anne chegara, mais cedo do que o previsto, a reunio ainda prosseguia. 
E antes que seu surpreso marido tivesse tempo de fechar a porta da biblioteca, ela ouvira algum gritar furiosamente:
- Meu voto  para explodirmos a fbrica esta noite e darmos um jeito naqueles filhos da puta 
de uma vez por todas!
Anne ficara extremamente nervosa com a frase, a aparncia rude dos estranhos que estavam 
na biblioteca e a agitao de Anthony ao v-la. Deixara-se convencer pelas explicaes alongadas do marido, porque queria desesperadamente ser convencida. Nos seis 
meses de casamento ele sempre se mostrara um esposo terno e cheio de atenes. Ela vira-o algumas vezes explodir violentamente, mas Anthony sempre conseguira controlar-se 
logo.
Algumas semanas depois do incidente do teatro, ela pegara um telefone por acaso e ouvira 
a voz de Anthony falando numa extenso:
- Vamos trazer um carregamento de Toronto esta noite. Ter que mandar algum cuidar do 
guarda. Ele no est conosco.
Anne desligara prontamente, bastante abalada. "Trazer um carregamento"... "Cuidar do". 
guarda "... Aquilo parecia algo terrvel, mas podia ser tambm frases inocentes no trato de negcios". 
Cuidadosamente, como se estivesse indiferente, ela procurara interrogar Anthony a respeito dos negcios dele. Mas fora como subitamente se levantasse uma barreira 
de ao. Ela vira-se diante de um estranho furioso, que lhe disse que cuidasse to-somente da casa e no se metesse nos seus negcios. Haviam discutido em termos 
amargos. Na noite seguinte Anthony lhe dera um colar extremamente caro e lhe pedira desculpas ternamente.
Um ms depois, ocorrera o terceiro incidente. Anne acordara as quatro da manh, com uma 
batida de uma porta. Vestira um roupo e descera para investigar. Ouvira vozes na biblioteca, 
discutindo acaloradamente. Fora at l, mas parara ao ver Anthony conversando com meia dzia de estranhos. Temendo que ele se zangasse por ser interrompido, ela 
voltara em silncio para seu quarto e se deitara. Ao caf, na manh seguinte, ela perguntara como ele dormira.
- Maravilhosamente. Fechei os olhos s dez horas e s voltei a abri-los hoje de manh.
Anne compreendera ento que estava com um problema. No sabia que tipo de problema era, 
nem qual a sua gravidade. S sabia que o marido lhe mentira, por motivos que ela no podia 
imaginar. Em que espcie de negcios ele estaria envolvido que eram tratados na calada da 
madrugada, em segredo, com homens que mais pareciam bandidos? Anne sentira medo de abordar novamente o assunto com Anthony. O pnico comeara a crescer dentro dela. 
No havia mais ningum com quem pudesse falar.
Algumas noites depois disso, num jantar no Country Club do qual eram scios, algum 
mencionara um psicanalista chamado Judd Stevens, dizendo que se tratava de um profissional 
excelente.
- Ele  uma espcie de analista entre os analistas, se entendem o que quero dizer. E  
incrivelmente bonito, embora isso no tenha qualquer efeito prtico... pois ele  um desses tipos cem por cento dedicados  profisso.
Anne guardara cuidadosamente o nome e na semana seguinte fora procur-lo.
A primeira sesso com Judd virara a sua vida de cabea para baixo. Era se vira atrada a um 
turbilho emocional que a deixara profundamente abalada. Em sua confuso, mal conseguira falar com Judd na primeira sesso. Ao partir, sentia-se como uma colegial 
tola e prometera a si mesma que nunca mais voltaria. Mas ela voltara, para provar a si mesma que a reao que tivera fora puramente acidental. Mas na segunda vez 
a reao fora ainda mais forte. Ela sempre se orgulhara de ser sensata e realista, mas naquele momento vira-se agindo como uma garota de dezessete anos, apaixonada 
pela primeira vez. No fora capaz de discutir o problema do marido com Judd e por isso haviam conversado a respeito de outras coisas. Depois de cada sesso, Anne 
descobrira que estava mais apaixonada ainda por aquele estranho sensvel e afetuoso.
Ela sabia que no havia qualquer esperana, pois jamais se divorciaria de Anthony. Sentira 
que devia ter algum defeito terrvel, para casar-se com um homem e seis meses depois, apaixonar-se por outro. Conclura ento que seria melhor nunca mais voltar 
a ver Judd.
E ento uma srie de coisas estranhas comeara a acontecer. Carol Roberts fora assassinada 
e Judd atropelado em circunstncias misteriosas. Ela lera nos jornais que Judd estava presente quando tinham encontrado o corpo de Moody na Five Star. Ela j vira 
o nome daquela companhia.
No cabealho de uma fatura na mesa de Anthony.
Uma suspeita terrvel comeara a se formar na mente de Anne.
Parecia incrvel que Anthony pudesse estar envolvido nas coisas terrveis que vinham 
acontecendo. No entanto... Anne sentira-se como que aprisionada num pavoroso pesadelo, do qual no tinha escapatria. No podia falar sobre as suas apreenses com 
Judd e tinha medo de faz-lo com Anthony. Ela dissera a si mesmo que suas suspeitas eram infundadas. Anthony nem mesmo sabia da existncia de Judd.
E ento, quarenta e oito horas atrs, Anthony entrara no quarto dela e comeara a 
interrog-la sobre suas visitas a Judd. A primeira reao de Anne fora de raiva ao saber que ele andara a espion-la, mas fora rapidamente substituda por todas 
as apreenses que se vinham acumulando dentro dela. Ao fitar o rosto furioso e contorcido do marido, ela compreendera que ele era capaz de tudo.
At mesmo de assassinar algum.
Durante o interrogatrio, ela cometera um tremendo erro. Deixara-o saber o que sentia por 
Judd. Os olhos de Anthony haviam ficado ainda mais negros e ela sacudira a cabea, como que se esquivando de um golpe fsico.
S depois que ficara sozinha  que Anne compreendera o perigo que Judd estaria correndo. 
No poderia deix-lo, de jeito nenhum. Dissera ento a Anthony que no iria para a Europa com ele. 
E agora Judd estava ali, naquela casa. A vida dele estava em perigo, por causa dela.
A porta do quarto se abriu e Anthony entrou. Ficou imvel por um longo momento, 
contemplando-a, antes de dizer:
- Voc tem uma visita.
Ela entrou na biblioteca usando uma saia amarela e blusa da mesma cor, com os cabelos 
soltos pelos ombros. O rosto estava plido e parecia cansado, mas ela aparentava uma certa serenidade. Judd estava sozinho a esper-la.
- Ol, Dr. Stevens. Anthony disse-me que o senhor estava aqui.
Judd teve a sensao de que estavam representando uma charada, em benefcio de uma 
audincia invisvel e fatal. Intuitivamente ele percebeu que Anne estava a par da situao e punha-se nas mos dele, disposta a seguir qualquer deixa que ele insinuasse.
E no havia nada que Judd pudesse fazer, exceto tentar mant-la viva por mais algum tempo. 
Se Anne se recusasse a ir para a Europa, DeMarco certamente a mataria ali mesmo.
Judd hesitou, escolhendo suas palavras cuidadosamente. Cada palavra poderia ser to 
perigosa quanto a bomba plantada em seu carro.
- Sra. DeMarco, seu marido est aborrecido porque a senhora mudou de idia e no mais quer 
ir para a Europa com ele.
Anne esperou, ouvindo, avaliando.
- Sinto muito - disse ela.
- Acho que deveria ir - disse Judd, alteando a voz.
Anne examinava atentamente o rosto dele, lendo-lhe os olhos.
- E se eu recusar? E se eu no quiser ir de jeito nenhum?
Judd foi dominado por um sbito alarme.
- No deve fazer isso.

Ela jamais sairia viva daquela casa se ela tomasse tal deciso.
- Sra. DeMarco, seu marido est com a impresso errada de que a senhora se apaixonou por 
mim.
Ela entreabriu os lbios para falar, mas Judd continuou rapidamente:
- Expliquei-lhe que se trata de uma parte normal da anlise, uma transferncia emocional que 
ocorre com todas as pacientes.
Anne pegou a deixa.
- Sei disso. Infelizmente, antes de mais nada, cometi uma tolice de ir procur-lo. Eu deveria 
ter tentado resolver o meu problema sozinha.
Os olhos dela disseram-lhe que falava sinceramente, que lamentara o perigo a que o expusera.
- Estive pensando no assunto. Talvez umas frias na Europa fossem a melhor coisa para mim 
neste momento.
Judd deixou escapar um pequeno suspiro de alvio. Ela compreendera.
Mas ele no tinha condies de alert-la para o perigo real a que ainda estava exposta. Ou 
ser que ela sabia? E mesmo que soubesse, ser que poderia fazer alguma coisa? Ele olhou alm de Anne para a janela da biblioteca, pela qual se podia ver rvores 
formosas  distncia. Ela dissera que costumava passear pelos bosques. Era bem possvel que conhecesse um caminho para sair dali. Se eles conseguissem chegar  proteo 
dos bosques... Judd murmurou ento:
- Anne...
- J acabaram a conversinha?
Judd virou-se bruscamente. DeMarco entrara silenciosamente na biblioteca. Atrs dele 
estavam Angeli e os irmos Vaccaro. Anne virou-se para o marido:
- O Dr. Stevens acha que devo ir para a Europa com voc. Vou aceitar o conselho dele.
DeMarco sorriu e olhou para Judd.
- Sabia que podia contar com o senhor.
Ele irradiava simpatia, demonstrando a satisfao expansiva de quem acabara de obter uma 
vitria total. Era como se a incrvel energia que flua atravs de DeMarco pudesse ser convertida  vontade, passando instantaneamente da expresso do mal para um 
encanto irresistvel. No era de admirar que Anne se tivesse apaixonado por ele. Naquele instante, o prprio Judd achava difcil acreditar que aquele Adnis gracioso 
e jovial fosse um assassino psicopata, capaz de matar a sangue-frio.
DeMarco virou-se para Anne.
- Vamos partir amanh de manh, querida. Por que no sobe para o seu quarto e comea a 
arrumar as coisas que vai levar?
Anne hesitou. No queria deixar Judd sozinho com aqueles homens.
- Eu...
Ela olhou para Judd, desesperada. Ela assentiu, imperceptivelmente.
- Est certo - disse Anne, estendendo a mo para Judd. - Adeus, Dr. Stevens.
Judd apertou-lhe a mo.
- Adeus.
Desta vez era adeus mesmo. No havia qualquer sada. Judd observou-a virar-se, acenar com 
a cabea para os outros e sair da sala. DeMarco ficou a contempl-la enquanto se afastava.
- Ela no  linda?
Havia uma expresso estranha no rosto dele. Amor, posse... e algo mais. Arrependimento? 
Pelo que estava prestes a fazer a Anne?
- Ela no sabe absolutamente nada - disse Judd. - Por que no a deixa fora disso?
Judd viu ento a transformao de DeMarco, que foi quase fsica. A simpatia desaparecera 
e o dio comeou a preencher a sala, numa corrente que flua de DeMarco para Judd, sem tocar em mais ningum. Havia agora uma expresso de xtase, quase um orgasmo, 
no rosto de DeMarco.
- Vamos indo, Doutor.
Judd olhou ao redor, avaliando as suas possibilidades de escapar. DeMarco certamente 
preferiria no mat-lo em sua prpria casa. tinha que ser agora ou nunca. Os irmos Vaccaro 
vigiavam-no, esperando um s movimento em falso. Angeli estava perto da janela, com a mo no cabo do revlver no coldre.
- Eu no tentaria - disse DeMarco suavemente. - J  um homem morto... mas vamos deixar 
que isso se concretize  minha maneira.
Ele empurrou Judd na direo da porta. Os outros se aproximaram e seguiram todos para 
o vestbulo.
Anne subiu a escada e ficou esperando no patamar, observando o vestbulo l embaixo. 
Recuou, ficando fora do campo de viso, ao ver Judd e os outros encaminhando-se para a porta da frente. Correu para o seu quarto e olhou pela janela. Os homens estavam 
empurrando Judd para dentro do carro de Angeli.
Anne rapidamente pegou o telefone e discou para a telefonista. Pareceu decorrer uma 
eternidade antes que ela atendesse.
- Telefonista, quero falar com a polcia. Depressa!  uma emergncia!
Uma mo de homem surgiu na frente dela e apertou o gancho do telefone. Anne deixou 
escapar um grito e virou-se. Nick Vaccaro estava parado ao seu lado, sorrindo.



Carlos Eduardo
Captulo 23


Angeli acendeu os faris. Eram quatro horas da tarde, mas o sol estava enterrado em algum 
lugar por trs da massa de cmulos que corriam pelo cu, impulsionados pelo vento gelado. Estavam andando quase h uma hora.
Angeli ia ao volante, com Rocky Vaccaro ao seu lado. Judd estava no banco de trs, com 
Anthony DeMarco.
No comeo Judd ficara alerta para algum carro de polcia que passasse, na esperana de poder 
fazer alguma tentativa desesperada de atrair a ateno dos polcias. Mas Angeli estava seguindo por estradas secundrias pouco usadas, onde quase no havia trfego. 
Contornaram Morristown, entraram na Rodovia 206 e seguiram para o sul, na direo das plancies centrais de Nova Jersey, uma regio desolada e escassamente povoada. 
O cu cinzento comeou a despejar-se sobre a terra, o granizo batendo no carro como minsculos tambores enlouquecidos.
- V mais devagar - ordenou DeMarco. - No queremos sofrer um acidente.
Obedientemente, Angeli diminuiu a presso no acelerador.
DeMarco virou-se para Judd.
-  nos pequenos detalhes que a maioria das pessoas comete os seus erros. No costumam 
planear como eu.
Judd olhou para DeMarco, examinando-o clinicamente. O homem estava sofrendo de 
megalomania, fora do alcance da razo e da lgica. No havia meio algum de atingi-lo. Faltava-lhe um senso moral, o que lhe permitia matar sem o menor remorso. Judd 
conhecia agora todas as respostas.
DeMarco cometera os crimes pessoalmente por uma questo de honra - uma vingana 
siciliana, para apagar a mancha que ele pensara que a esposa lanara sobre ele e sobre a famlia da Cosa Nostra. Matara John Hanson por engano. Quando Angeli o procurara 
para informar o que acontecera, DeMarco voltara imediatamente ao consultrio e encontrara Carol. Pobre Carol! Ela no poderia ter-lhe entregue as gravaes da Sra. 
DeMarco porque no conhecia Anne por esse nome. 
Se DeMarco se tivesse controlado, poderia ter ajudado Carol a descobrir de quem estava falando. 
Mas fazia parte de sua doena no ter a menor tolerncia com a frustrao. Por isso, deixara-se dominar por uma raiva assassina e Carol acabara morrendo. De maneira 
horrvel! Fora DeMarco quem atropelara Judd e mais tarde fora ao seu consultrio em companhia de Angeli. Judd ficara desconcentrado pelo fato de no haverem derrubado 
a porta, matando-o a tiros. Mas Judd compreendia agora que, como McGreavy o considerava culpado, eles haviam decidido que sua morte deveria parecer suicdio, cometido 
por remorso. Isso afastaria a possibilidade de uma investigao policial mais aprofundada.
E Moody... Pobre Moody! Judd dissera-lhe os nomes dos detetives que estavam trabalhando 
no caso. Ele pensara que Moody tivesse reagido ao nome de McGreavy, mas a reao fora ao nome de Angeli. Moody descobrira que Angeli estava envolvido com a Cosa 
Nostra. E quando seguira essa pista...
Judd olhou para DeMarco.
- O que vai acontecer com Anne?
- No se preocupe. Eu tomarei conta dela.
Angeli sorriu.
-  mesmo...
Judd sentiu uma raiva impotente invadi-lo.
- Eu errei ao casar-me com algum fora da famlia - meditou DeMarco. - As pessoas de fora 
no nos podem compreender. Jamais!
Eles estavam percorrendo agora um trecho bastante ermo das plancies centrais de Nova 
Jersey. De vez em quando se divisavam os contornos de uma fbrica,  distncia, recortada contra o cu cor de chumbo.
- Estamos quase chegando - anunciou Angeli.
- Voc fez um bom trabalho - disse-lhe DeMarco. - Vamos ter que escond-lo, at as coisas 
esfriarem por aqui. Para onde gostaria de ir?
- Gosto da Flrida.
DeMarco assentiu, aprovando a escolha.
- No h problema. Pode ficar com algum da famlia.
- Conheo umas garotas espetaculares por l- comentou Angeli, sorrindo.
DeMarco retribuiu-lhe o sorriso, pelo espelhinho retrovisor.
- Vai voltar com o traseiro queimado de sol.
- Espero no voltar com nada mais alm disso.
Rocky Vaccaro riu.
A distncia, do lado direito da estrada, Judd viu os prdios acachapados de uma fbrica, 
soprando fumaa para o cu. Chegaram a uma estradinha lateral que levava at a fbrica. Angeli entrou nesse caminho e avanou at um muro alto. O porto estava fechado. 
Angeli tocou a buzina e um homem de capa e guarda-chuva apareceu atrs do porto. Assentiu ao ver DeMarco, destrancou o porto e abriu-o. Angeli entrou e o porto 
foi prontamente fechado. Tinham chegado.
O Tenente McGreavy estava na sala no 19 Distrito, examinando uma lista de nomes com trs 
detetives, o Capito Bertelli e os dois agentes do FBI.
- Esta  a lista das famlias da Cosa Nostra aqui no leste - disse ele. - Todos os chefes e 
subchefes esto relacionados aqui. O nosso problema  que no sabemos a que famlia Angeli est ligado.
- Quanto tempo vai demorar para se investigarem todos? - perguntou o Capito Bertelli.
Um dos homens do FBI falou:
- H mais de sessenta nomes aqui. Demoraria pelo menos vinte e quatro horas, mas...
Ele parou de falar e McGreavy concluiu a frase:
- Mas o Dr. Stevens no tem a menor condio de viver por mais de vinte e quatro horas.
Um jovem guarda uniformizado entrou correndo pela porta aberta. Hesitou, ao ver o grupo 
ali reunido.
- O que ? - indagou McGreavy.
- Nova Jersey no sabe se  importante, Tenente, mas pediu que informassem qualquer coisa 
fora do normal. Uma telefonista recebeu um chamado de uma mulher adulta, pedindo que a ligasse com a polcia. Ela disse que era uma emergncia e logo depois a linha 
ficou muda. A telefonista ficou esperando, mas a mulher no ligou novamente.
- De onde foi dado o telefonema?
- De uma cidadezinha chamada Old Tappan.
- A telefonista descobriu o nmero do telefone?
- No. A pessoa desligou muito depressa.
- Isso  timo - murmurou McGreavy, amargurado.
- Esquea - disse Bertelli. - Provavelmente era alguma velha informando que seu gato se 
extraviara.
O telefone de McGreavy tocou, um toque longo e insistente. Ele atendeu.
- Tenente McGreavy falando.
Os outros que estavam na sala ficaram observando o rosto dele contrair-se de tenso.
- Certo. Diga-lhe para no fazerem nada at eu chegar a. J estou a caminho.
Ele bateu o telefone.
- A Patrulha Rodoviria acaba de avistar o carro de Angeli, seguindo para o sul, na rodovia 
206, logo depois de Milstone.
- Esto seguindo o carro? - indagou um dos agentes do FBI.
- O carro da Patrulha Rodoviria estava indo na direo oposta. Ao terminar a curva, o carro 
de Angeli j desaparecera. Eu conheo bem aquela regio. No h nada ali  exceo de algumas fbricas velhas.
Ele virou-se para um dos homens do FBI e perguntou:
- Pode providenciar-me uma relao dos nomes das fbricas da regio e de seus proprietrios?
- Certo.
O homem do FBI estendeu a mo para o telefone.
- Estou indo para l - disse McGreavy. - Entre em contato comigo pelo rdio assim que tiver 
a resposta.
Virou-se ento para os outros homens e disse:
- Vamos indo!
Partiu para a porta, seguidos pelos trs detetives e pelo outro agente do FBI.
Angeli passou pelo barraco do vigia e continuou em frente, na direo de um grupo de 
estruturas de aspectos estranho que se seguiam para o cu. Haviam imensas chamins de barro e gigantescas caixas dgua, os formatos arredondados elevando-se alm 
da chuva, como monstros pr-histricos numa paisagem antiga e imutvel.
O carro foi para junto de um complexo de canos e correias para transportadoras. Angeli e 
Vaccaro saltaram. Vaccaro abriu a porta do lado de Judd, com um revlver na mo.
- Saia, Doutor.
Judd saltou do carro vagarosamente, seguido por DeMarco. Um tremendo barulho e um 
vento forte os receberam. Ali perto, a uns dez metros de distncia, passava um cano enorme, cheio de ar comprimido, que com um barulho enorme sugava tudo o que se 
aproximasse de sua boca sequiosa.

- Este  um dos maiores sistemas de transportes canalizados do pas - gabou-se DeMarco, 
falando alto para ser ouvido acima do barulho. - Gostaria de ver como funciona.
Judd fitou-o, incrdulo. DeMarco estava novamente representando o papel de anfitrio. No, 
ele no estava representando-o. Falava srio. O que era mais terrvel ainda. DeMarco estava prestes a assassinar Judd. Seria uma rotina do negcio, algo de que teria 
de se livrar, assim como uma pea intil de equipamento. Antes, porm, ele queria impressionar Judd.
- Vamos, Doutor.  bem interessante.
Aproximando-se do cano transportador, com Angeli na frente, DeMarco e Judd Lado a lado 
, Vaccaro na retaguarda.
- Esta fbrica proporciona um lucro anual de cinco milhes de dlares. - disse DeMarco, 
orgulhosamente. - E toda a operao  automtica.
O rudo foi aumentando  medida que chegaram mais perto, at tornar-se insuportvel. A cem 
metros da entrada da cmara de vcuo havia uma grande corrente transportadora, que levava troncos gigantescos at uma mquina de aplainar, com seis metros de comprimento 
por dois de altura, equipada com meia dzia de lminas afiadas. Os troncos aplainados eram ento conduzidos para uma mquina que parecia um porco-espinho, com lminas 
afiadssimas. O ar estava cheio de serragem e chuva, sendo tudo sugado pelo cano transportador.
- No importa quo grandes os troncos sejam - disse DeMarco, sem esconder o orgulho que 
sentia. - As mquinas reduzem-nos para caberem no cano transportador, que tem 36 polegadas.
DeMarco tirou do bolso um Colt 38, de cano curto, e gritou:
- Angeli!
Angeli virou-se.
- Faa uma boa viagem para a Flrida.
DeMarco apertou o gatilho e um buraco vermelho surgiu no peito de Angeli, que olhou para 
ele com um meio sorriso perplexo no rosto, como se estivesse esperando a resposta a uma charada que acabara de ouvir. DeMarco apertou o gatilho novamente e Angeli 
caio no cho. DeMarco fez um gesto de cabea para Rocky Vaccaro. O grandalho levantou o corpo de Angeli e levou-o na direo do cano transportador.
DeMarco virou-se ento para Judd.
- Angeli era um estpido. Todos os tiras do pas esto  procura dele. Se o encontrassem, ele 
acabaria por me denunciar.
O assassinato a sangue-frio de Angeli foi chocante, mas o que se seguiu foi ainda pior. Judd 
ficou observando, horrorizado, enquanto Vaccaro carregava o corpo de Angeli para a boca do 
gigantesco cano transportador. A tremenda presso sugou o corpo de Angeli. Vaccaro teve que segurar-se a uma ala do cano para no ser sugado tambm pelo mortal 
ciclone de ar. Judd teve uma ltima viso do corpo de Angeli, girando no sorvedouro, no meio da serragem de troncos. E logo desapareceu. Vaccaro segurou uma vlvula 
junto  boca do cano transportador e girou-a. Uma tampa de metal se estendeu sobre a boca do cano, isolando o ciclone de ar. O sbito silncio era ensurdecedor.
DeMarco virou-se para Judd e levantou a arma. Havia uma expresso exaltada e mstica em 
seu rosto. Judd compreendeu que o assassinato era quase uma experincia religiosa para ele. Era um cadinho purificador. Judd sabia que chegara o momento da sua morte. 
No sentia medo por si mesmo, mas estava dominado por uma raiva intensa, revolta pelo fato de que aquele homem continuaria a viver, para assassinar Anne, para destruir 
outras pessoas decentes e inocentes. Ele ouviu um grunhido, um gemido de raiva e frustrao, s depois se apercebeu que estava saindo dos seus lbios. Era como um 
animal encurralado, obcecado pelo desejo de matar o seu algoz.
DeMarco estava sorrindo, lendo os pensamentos de Judd.
- Vou dar o tiro na virilha, Doutor. Vai demorar mais um pouco a morrer, mas assim ter 
tempo para pensar no que vai acontecer a Anne.
Havia uma esperana. Uma esperana muito tnue.
- Algum precisa mesmo preocupar-se com ela - disse Judd. - A pobre coitada nunca teve um 
homem em toda a sua vida.
DeMarco assumira uma expresso aturdida. Judd estava gritando agora, para que DeMarco 
no deixasse de ouvi-lo.
- Sabe o que  seu membro?  esse revlver que est em sua mo. Sem uma faca ou revlver, 
voc no passa de um palhao.
O rosto de DeMarco foi-se lentamente enchendo de raiva.
- Voc no tem colhes, DeMarco. Sem um revlver, voc no passa de um palhao.
Os olhos de DeMarco estavam ficando vermelhos, no aviso da morte. Vaccaro deu um passo 
para a frente. DeMarco fez-lhe um sinal para que recuasse.
- Vou mat-lo com minhas prprias mos, sem nenhuma arma - disse DeMarco, jogando o 
revlver No cho. - Com minhas mos nuas!
Lentamente, como um animal de fora excepcional, ele comeou a avanar para Judd. Judd 
recuou. Sabia que no tinha a menor possibilidade de vencer DeMarco, fisicamente. Sua nica 
esperana era continuar a trabalhar a mente doentia de DeMarco, deixando-a incapaz de funcionar. 
Tinha que continuar a atacar DeMarco no seu ponto mais vulnervel: o orgulho que ele sentia por sua virilidade.
- Voc  um homossexual, DeMarco!
DeMarco riu e arremessou-se contra Judd, que conseguiu desviar-se. Vaccaro pegou o 
revlver no cho.
- Deixe-me acabar com ele, chefe!
- Fique fora disso! - rugiu DeMarco.
Os dois homens comearam a dar voltas, procurando a melhor posio. O p de Judd 
escorregou num monte de serragem encharcada e DeMarco ento atacou-o, como um touro. O seu punho gigantesco acertou Judd no canto da boca, jogando-o para trs. Mas 
Judd conseguiu recuperar-se e desferiu um soco contra DeMarco, atingindo-o no rosto. DeMarco recuou, depois lanou-se para a frente, os dois punhos se chocaram no 
estmago de Judd. Judd perdeu o flego. 
Tentou falar, para escarnecer de DeMarco, mas estava ofegante, em busca de ar. DeMarco estava parado  sua frente, como um gigantesco pssaro predador.
- Est sem flego, Doutor?
Ele soltou uma risada.
- J fui lutador de boxe. Vou-lhe dar algumas lies. Vou-me concentrar nos seus rins e 
depois na cabea e nos olhos. Vou arrancar-lhe os olhos, Doutor. Antes que eu termine, vai implorar para que o mate com um tiro.
Judd acreditou nele. A luz sobrenatural que se irradiava do cu nublado, DeMarco parecia 
um animal enfurecido. Ele avanou para Judd novamente e desferiu-lhe um soco no rosto, abrindo uma ferida na face com um anel de camafeu. Ele golpeou DeMarco, acertando-lhe 
o rosto com os dois punhos, DeMarco nem recuou.
DeMarco comeou a dar socos nos rins de Judd, os punhos parecendo pistes. Judd 
conseguiu desvencilhar-se, o corpo parecendo um oceano de dor.
- Est ficando cansado, no , Doutor?
DeMarco comeou novamente a se aproximar. Judd sabia que seu corpo no poderia 
agentar um castigo mais intenso. Tinha que continuar a falar. Era a sua nica chance.
- DeMarco...
Ele ofegou. DeMarco deu um soco em falso e Judd atacou-o. DeMarco abaixou-se, riu e 
bateu com o punho no meio das pernas de Judd. Judd desabou no cho, sentindo uma agonia 
incrvel. DeMarco imediatamente montou em cima dele, as mos apertando-lhe a garganta.
- Com minhas mos nuas! - gritou DeMarco. - Vou arrancar-lhe os olhos com as minhas 
mos!
E arremessou os punhos gigantescos contra os olhos de Judd.
Eles estavam passando por Bedminster, seguindo para o sul, pela Rodovia 206, quando veio 
o chamado pelo rdio:
- Cdigo trs... Cdigo trs... Todos os carros de prontido... Unidade 27 de Nova York... 
Unidade 27 de Nova York...
McGreavy segurou o microfone.
- Unidade 27 de Nova York... Pode falar!
A voz excitada do Capito Bertelli soou pelo rdio:
- J descobrimos tudo, Mac. H um cano transportador em Nova Jersey, a trs quilmetros 
de Milstone. Pertence  Five Star Corporation, a mesma proprietria do frigorfico em que foi 
encontrado o corpo de Moody.  uma das fachadas de que Tony DeMarco se utiliza.
- Deve ser isso mesmo - disse McGreavy. - J estamos no caminho.
- Esto muito longe de l?
- A uns quinze quilmetros.
- Boa Sorte.
- Obrigado.
McGreavy desligou o rdio e acionou a sirene, pisando no acelerador at o fim.
O cu estava rodopiando em crculos midos e algo batia nele, dilacerando-lhe o corpo. Judd 
tentou ver o que era, mas os olhos estavam to inchados que no conseguiu abri-los. Um punho se abateu contra as suas costas e ele sentiu a dor angustiante de ossos 
que se quebravam. Podia sentir a respirao quente de DeMarco em seu rosto, rpida e excitada. Tentou v-lo, mas estava encarcerado na escurido. Abriu a boca e 
forou as palavras a passarem pela lngua spera e inchada:
- Est... vendo... Era o que... eu dizia... S pode... bater... num homem... quando... ele est... 
cado...
A respirao em seu rosto cessou. Judd sentiu duas mos agarrarem-no e levantarem-no.
- J  um homem morto, Doutor. E eu o liquidarei com as minhas prprias mos, desarmado.
Judd recuou para longe da voz.
- Voc ... um... animal... Um psicopata... devia ser... trancafiado... num hospcio...
A voz de DeMarco estava enrolada pela raiva:
- Voc  um mentiroso!
- ... a verdade... - disse Judd, continuando a recuar. - Seu... seu crebro est... doente... Sua 
mente... vai desmoronar... e ser... como um beb idiota...
Judd continuou a recuar, incapaz de ver onde estava indo. Por trs ele ouviu o zumbido fraco 
do cano transportador fechado, esperando como um gigante adormecido.
DeMarco arremessou-se novamente para Judd, agarrando-lhe a garganta.
- Eu vou-lhe quebrar o pescoo!
Os dedos enormes se fecharam sobre a traquia de Judd, apertando-a.
Judd sentiu a cabea comear a flutuar. Era sua ltima oportunidade. Todos os seus instintos 
lhe diziam que agarrasse as mos de DeMarco e as afastasse para longe de sua garganta, a fim de poder respirar. Em vez disso, porm, num ltimo esforo, ele estendeu 
as mos para trs,  procura da vlvula do cano transportador. Sentiu que estava comeando a desmaiar e foi nesse momento que suas mos encontraram a vlvula. Com 
uma erupo final e desesperada de energia, ele abriu a vlvula e girou o corpo, de modo que DeMarco ficasse mais prximo da abertura. Um tremendo vcuo de ar envolveu-os 
subitamente, procurando sug-los para o interior do aparelho. Judd agarrou-se freneticamente  vlvula, com as duas mos, resistindo  fria ciclnica do vento. 
Sentiu os dedos de DeMarco se enterrarem em sua garganta, no instante em que ele comeava a ser sugado para o cano. DeMarco poderia salvar-se. Mas, em sua fria 
insana, ele recusava-se a largar Judd. 
Judd no podia ver-lhe o rosto, mas a voz dele era o grito irado de um animal enlouquecido, as 
palavras se perdendo no rugido do vento.
Os dedos de Judd comearam a escorregar da vlvula. Ele ia ser sugado tambm para o cano, 
juntamente com DeMarco. Murmurou mentalmente uma ltima prece e nesse instante sentiu as mos de DeMarco largarem a sua garganta. Judd ouviu um grito estridente, 
que ecoou por um momento. 
Depois ouviu apenas o rugido do vento. DeMarco desaparecera.
Judd ficou parado ali, num cansao mural, incapaz de mover-se,  espera do tiro de Vaccaro.
Um momento depois veio a expulso do tiro.
Judd continuou parado no mesmo lugar, sem compreender porque Vaccaro errara. Atravs da 
neblina de dor ele ouviu mais tiros e o barulho de ps correndo. Em seguida gritaram o seu nome. 
E ento algum passou um brao pelo seu corpo enquanto a voz de McGreavy dizia:
- Santa Me de Deus! Olhem s os olhos dele!
Mos fortes agarraram-lhe o brao e puxaram-no para longe do rudo pavoroso do cano. 
Algo mido escorria-lhe pelo rosto e Judd no sabia o que era, se sangue, chuva ou lgrimas. O que afinal no importava.
Estava tudo acabado.
Ele se esforou por abrir um olho inchado. Pela fenda estreita e ensangentada conseguiu 
divisar McGreavy.
- Anne est na casa - balbuciou Judd. - A esposa de DeMarco. Temos que tir-la de l.
McGreavy fitava-o com uma expresso estranha, sem se mexer. Judd compreendeu que no 
conseguira emitir as palavras. Levantou a boca at o ouvido de McGreavy e falou lentamente, a voz dbil, vacilante:
- Anne DeMarco... Ela est... na casa... Ajude...
McGreavy foi at o carro, pegou o microfone do rdio e transmitiu as instrues necessrias. 
Judd continuou parado ali, cambaleando, ainda sendo jogado para a frente e para trs pela recordao dos socos de DeMarco, deixando que a chuva e o vento lhe castigassem 
ainda mais o corpo. Viu  sua frente um corpo estendido no cho e compreendeu que se tratava de Rock Vaccaro.
"Ns vencemos", pensou ele. "Ns vencemos"! Ele continuou a repetir a frase em sua mente, 
sem parar. Mesmo sabendo que a frase no tinha o menor sentido. Que espcie de vitria fora aquela? 
Ele sempre pensara em si mesmo com um ser humano decente e civilizado, um mdico, um homem que dedicava a vida a curar os outros. Mas se transformara num animal 
selvagem, dominado pela nsia de matar. Levara um homem doente  beira da insanidade e depois o assassinara. Era um fardo terrvel que teria que carregar pelo resto 
da vida. Porque, muito embora pudesse justificar-se alegando que fora em legtima defesa, ele sabia - e que Deus o ajudasse! - que gostara de faz-lo. E por isso 
jamais poderia perdoar-se. Ele no era melhor do que DeMarco ou os irmos Vaccaro ou qualquer um dos outros. A civilizao era uma camada fina e perigosamente frgil. 
Quando essa camada se rompia, o homem tornava-se novamente igual s bestas selvagens, resvalando de volta ao lodo dos abismos primitivos, dos quais ele se orgulhava 
de ter sado para sempre.
Judd estava cansado de mais para continuar a pensar nisso. Agora queria apenas certificar-se 
de que Anne estava em segurana. McGreavy estava parado ao seu lado, numa atitude 
estranhamente gentil.
- H um carro da polcia a caminho da casa dela, Dr. Stevens. Certo?
Judd assentiu, agradecido.
McGreavy segurou-lhe o brao e levou-o at um carro. Ao avanar lenta e dolorosamente 
pelo ptio. Judd percebeu que parara de chover. No horizonte distante as nuvens de trovoadas haviam sido varridas pelo vento forte de dezembro e o cu comeava a 
clarear. A oeste, um pequeno raio de luz apareceu. Era o sol, lutando por atravessar a camada de nuvens, com o seu brilho tornando-se cada vez mais intenso.
Ia ser um Natal Maravilhoso.
 

                                                                
                
FIM. 





Sidney Sheldon
Origem: Wikipdia, a enciclopdia livre.

Ir para: navegao, pesquisa
Sidney Sheldon
Nascimento
11 de Fevereiro de 1917
Chicago
Falecimento
30 de Janeiro de 2007
Los Angeles
Nacionalidade
norte-americana 
Magnum opus
O Outro Lado da Meia Noite
Pgina oficial:
SidneySheldon.com

Sidney Sheldon (Chicago, 11 de Fevereiro de 1917 - Los Angeles, 30 de Janeiro de 2007) foi um novelista e roteirista estadunidense.
Nascido Sidney Schechtel, de pai judeu alemo e me judia russa, iniciou sua carreira em Hollywood como revisor de roteiros em 1937 alm de colaborar em inmeros 
filmes de segunda linha. Preferiu trabalhar no cinema do qu na literatura por no julgar-se capaz de escrever um livro. Aps prestar servio militar durante a Segunda 
Guerra Mundial, Sheldon retornou  vida civil e comeou a escrever musicais para a Broadway alm de roteiros para a MGM e Paramount Pictures.  o criador da srie 
televisiva Jeannie  um Gnio e Casal 20.
Em 1969, Sidney Sheldon lanou seu primeiro romance, A Outra Face (ttulo original: The Naked Face), e a partir da escreveu diversos outros ttulos de sucesso.
Sidney Sheldon j vendeu mais de 300 milhes de livros em todo o mundo.  o nico escritor que recebeu quatro dos mais cobiados prmios da indstria cultural americana: 
o Oscar (cinema), o Emmy (tv), o Tony (teatro) e o Edgar (literatura) de suspense.  atualmente o autor mais traduzido em todo o planeta, cujos romances foram vendidos 
em 51 lnguas e distribudos em 180 pases.
Mesmo no sendo um escritor elogiado pelos crticos, Sheldon se orgulhava da autenticidade das suas obras, uma vez que essas eram escritas segundo experincias vividas 
pelo autor.
Sheldon, um dos escritores mais produtivos da literatura americana contempornea, morreu no dia 30 de janeiro de 2007, em Los Angeles, aos 89 anos, devido a complicaes 
causadas por uma pneumonia. [1]

Obras publicadas
* 1969 A Outra Face 
* 1974 O Outro Lado da Meia-Noite 
* 1976 Um Estranho no Espelho 
* 1977 A Herdeira 
* 1980 A Ira dos Anjos 
* 1982 O Reverso da Medalha 
* 1986 Se Houver Amanh 
* 1987 Um Capricho dos Deuses 
* 1988 As Areias do Tempo 
* 1990 Lembranas da Meia-Noite 
* 1991 Juzo Final 
* 1992 Escrito nas Estrelas 
* 1994 Nada Dura para Sempre 
* 1994 Corrida pela Herana 
* 1995 O Ditador 
* 1995 Manh, Tarde e Noite 
* 1995 Os Doze Mandamentos (Infanto-Juvenil) 
* 1995 O Fantasma da Meia-Noite 
* 1997 O Plano Perfeito 
* 1998 Conte-me Seus Sonhos 
* 2000 O Cu Est Caindo 
* 2001 O Estrangulador 
* 2004 Quem Tem Medo do Escuro? 
* 2006 O Outro Lado de Mim 
